A troca de CEO na CVC não nasceu do dia para a noite — mas o conselho decidiu colocar o pé no acelerador no cronograma. A avaliação, segundo pessoas próximas ouvidas pelo InvestNews, era de que a companhia já tinha feito o “back to basics dos últimos anos e que, agora, precisava de uma gestão menos orientada a “venda, venda, venda” e mais focada em rentabilidade, eficiência e disciplina financeira.

A sucessão vinha sendo discutida desde meados de outubro, ainda de acordo com pessoas a par das conversas. O plano inicial era fazer a mudança apenas a partir do segundo semestre de 2026, com mais tempo de transição. Mas a virada do ano e a necessidade de ajustar, de forma mais definitiva, a negociação da dívida pesaram para antecipar a troca e fazê-la sem período de passagem.

O nome de Fábio Mader, anunciado na noite de quinta-feira, era visto como natural e chegou a ser apoiado pelo então CEO Fábio Godinho, segundo fontes. Mader é um executivo de carreira na CVC, com quase 15 anos somando diferentes passagens e um currículo que passa por operações, produto nacional e internacional e liderança na Argentina. Nos últimos quatro anos, estava à frente de Produtos e Revenue Management — área responsável por negociar, montar e precificar os pacotes.

Fábio Mader, novo CEO da CVC

Num relatório divulgado após o anúncio, o Santander resumiu como uma mudança de fase. A CVC estaria saindo de um turnaround liderado por Godinho para uma etapa em que Mader vai guiar a empresa de olho em manter um balanço mais saudável em termos de alavancagem, e perseguindo uma rentabilidade maior.

Do chacoalhão ao “voo de cruzeiro”

Nome de confiança da família Paulus, fundadora da CVC, Godinho chegou ao comando em 2023, na volta dos acionistas históricos. A família, que criou a agência de viagens, havia deixado o negócio em 2019 e hoje voltou a ser o maior acionista individual, com cerca de 20% do capital. Outros sócios relevantes incluem a Apex Partners (cerca de 10%) e o Absolute (9,8%), além do Opportunity (7,8%).

Entre acionistas e pessoas próximas à companhia, a leitura é que Godinho entregou o que lhe havia sido demandado: reorganizar a operação depois dos anos difíceis e resgatar o DNA comercial, com foco no volume de vendas. Mas, com a empresa mais estabilizada, o conselho passou a cobrar outra agenda — menos “reaprender a vender” e mais “ganhar dinheiro vendendo”.

Fabio Godinho, CEO da CVC (Foto: Divulgação)
Fabio Godinho, CEO da CVC (Foto: Divulgação)

Uma pessoa próxima à alta gestão descreve Godinho como um executivo típico de turnaround. “Os ciclos dele são de 2 a 3 anos. Ele coloca muita energia no começo, gosta de resolver problema, mas quando a empresa está em voo de cruzeiro é preciso alguém com perfil mais analítico”, disse a fonte.

Para sustentar essa tese de “ciclos”, interlocutores citam passagens anteriores do executivo em posições de comando, como o período em que foi CEO da Webjet e uma etapa anterior na própria CVC, quando ocupou a vice-presidência de marketing e operações por cerca de três anos.

Já Mader é visto como alguém mais voltado à gestão de pessoas, crescimento de margem e eficiência: “Ele olha mais para rentabilidade, digitalização e processos”, diz uma fonte próxima ao novo CEO. Para o Citi, a mudança no comando da empresa não deve trazer alterações significativas para sua estratégia, mas de fato a melhora da estrutura de capital deve se manter como tema central.

A antecipação do cronograma também conversa com o capítulo financeiro. A empresa já vinha pré-pagando debêntures, mas ainda lidava com um custo elevado para o padrão de uma companhia que tenta voltar a ser geradora de caixa de forma consistente. O custo atual é de CDI+4,5%.

A percepção interna, segundo fontes, é de que uma curva de juros descendente abre espaço para melhorar a equação: reduzir custo, alongar prazos e transformar renegociação em ganho recorrente de caixa. “Se os juros estivessem perto de 9% a 10%, a alavancagem atual seria confortável para o negócio, dada a atual geração de Ebitda”, afirmou uma das pessoas ouvidas. A relação dívida líquida/ Ebitda da CVC era de 0,5 vez ao fim do terceiro trimestre, mas o indicador subia para 1,8 vez quando considerada antecipação de recebíveis.

É nesse contexto que o “mandato” de Mader tende a ser lido no mercado: acelerar o que já vinha sendo feito, mas com uma régua mais alta para rentabilidade e desalavancagem. Mader apontou como “pilares”da sua gestão cultura digital, melhor precificação e eficiência, foco em desempenho de lojas maduras e integração de operações. A ambição também é expandir a atuação do B2B para fora do Brasil, como forma de diversificar receitas e criar um hedge natural para despesas em dólar. Hoje, só 10% da receita do B2B vem de fora.

Os papéis abriram estáveis após o anúncio, mas passaram a despencar 20% perto das 13h. O InvestNews apurou que um investidor com uma posição relevante em derivativos resolveu capturar os ganhos acumulados nos últimos dias. Desde o primeiro pregão de 2026, a ação acumulava alta de 22% — até começar a virar na primeira hora da tarde. Próximo ao encerramento do pregão, a queda tinha arrefecido para 12%.