O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, fez um amplo alerta sobre riscos globais em sua carta anual aos acionistas, destacando desde a escalada de conflitos no Oriente Médio até fragilidades nos mercados financeiros e o impacto transformador da inteligência artificial.

Dimon afirmou que a guerra no Irã pode elevar a inflação e pressionar ainda mais os mercados caso os juros subam. Segundo ele, há risco de novos choques nos preços do petróleo e de outras commodities nos próximos meses, o que pode prolongar a inflação e levar a taxas de juros mais altas.

“O elefante na sala — e isso pode acontecer em 2026 — seria a inflação subindo gradualmente”, escreveu. “Isso, por si só, poderia levar à alta dos juros e à queda dos preços dos ativos.”

O executivo também lembrou que choques de petróleo ajudaram a provocar grandes recessões nas décadas de 1970 e 1980, embora os EUA estejam hoje menos vulneráveis. Ainda assim, destacou que o desfecho dos conflitos entre grandes potências — incluindo as guerras na Ucrânia e no Irã — pode ser mais determinante para a ordem econômica global do que seus efeitos imediatos sobre mercados.

“Não devemos ignorar o papel que o atual regime iraniano desempenhou ao fomentar o terrorismo e matar milhares de pessoas ao longo dos anos”, disse, acrescentando que essa ameaça precisa ser tratada de forma adequada.

Vencedores e perdedores da IA?

Ao longo da carta, Dimon também abordou os principais riscos estruturais para a economia, incluindo tensões geopolíticas, inflação persistente e os efeitos ainda incertos da inteligência artificial. Ele afirmou que a tecnologia não é uma bolha especulativa, mas que ainda não está claro quem serão os vencedores e perdedores.

O CEO voltou a criticar o que chamou de “regulação bancária deficiente”, apontando que regras implementadas após a crise de 2008 criaram um sistema fragmentado e excessivamente complexo. Ele fez críticas específicas a propostas recentes do Comitê de Basileia, dizendo que ainda contêm pontos “sem sentido”, e citou exigências de capital que podem limitar o crédito.

Dimon também destacou as mudanças no cenário global de comércio, impulsionadas pela política tarifária do presidente Donald Trump, afirmando que países estão reavaliando alianças e acordos econômicos.

Nos mercados financeiros, o executivo alertou para riscos crescentes no crédito privado, apontando falta de transparência e padrões frágeis de concessão. Segundo ele, ativos de maior risco podem sofrer perdas maiores do que o esperado em um cenário de desaceleração. “Nem todos que oferecem crédito são necessariamente bons nisso”, afirmou. “Há muitos participantes que chegaram tarde a esse mercado.”

Ele também criticou o setor de private equity, dizendo ser surpreendente que, mesmo com mercados próximos de máximas recentes, essas empresas não tenham aproveitado mais o momento para abrir capital de suas investidas.

A carta ainda trouxe reflexões mais amplas sobre economia e sociedade. Dimon mencionou a necessidade de reformas na União Europeia, melhorias no sistema educacional dos EUA e afirmou que impostos elevados contribuíram para a saída de pessoas de cidades como New York. Embora a cidade continue sendo a sede do banco, o JPMorgan Chase reduziu sua presença local, e ele alertou que nenhuma cidade tem “direito divino ao sucesso”.

A tradicional carta anual, publicada desde que Dimon assumiu o comando do banco nos anos 2000, evoluiu de um relatório de desempenho para uma análise abrangente dos riscos globais — reforçando o papel do executivo como uma das vozes mais influentes de Wall Street.