A Alphabet, dona do Google, está tomando empréstimos em várias frentes para financiar o plano de gastos sem precedentes por trás de suas ambições em inteligência artificial.

A controladora do Google está acessando o mercado de títulos corporativos dos EUA para captar US$ 15 bilhões nesta segunda-feira (9), ao mesmo tempo em que apresenta a investidores o que seriam suas primeiras emissões na Suíça e no Reino Unido. Estas últimas incluiriam uma rara venda de títulos com vencimento em 100 anos — a primeira vez que uma empresa de tecnologia tenta uma oferta desse tipo desde a euforia das empresas pontocom no fim dos anos 1990.

Na semana passada, a Alphabet informou que planeja realizar até US$ 185 bilhões em investimentos de capital neste ano, mais do que gastou nos últimos três anos somados, à medida que investe pesadamente em data centers, essenciais para suas ambições em IA. A empresa disse que esses investimentos já estão impulsionando a receita, já que a IA estimula mais buscas online.

Outras grandes empresas de tecnologia também estão aumentando seus gastos. Alphabet, Amazon, Meta Platforms e Microsoft projetam investimentos de capital que devem alcançar cerca de US$ 650 bilhões em 2026, impulsionando um boom de financiamentos e uma tecnologia potencialmente disruptiva que pode remodelar completamente a economia global.

Parte relevante desses gastos está sendo financiada no mercado de títulos. Na semana passada, a Oracle levantou US$ 25 bilhões em uma emissão que atraiu demanda recorde de US$ 129 bilhões em seu pico.

A venda de títulos em dólar da Alphabet nesta segunda-feira atraiu mais de US$ 100 bilhões em ordens. A oferta é dividida em até sete tranches, segundo pessoas com conhecimento direto do assunto. A parte mais longa da operação nos EUA — dívida com vencimento em 2066 — deve render cerca de 0,95 ponto percentual acima dos Treasuries, acrescentaram as fontes, após conversas iniciais em torno de 1,2 ponto percentual.

O Morgan Stanley espera que os chamados hyperscalers captem US$ 400 bilhões neste ano, ante US$ 165 bilhões em 2025. A onda de ofertas deve levar a emissão de dívida de alta qualidade a um recorde de US$ 2,25 trilhões em 2026, escreveu Vishwas Patkar, chefe de estratégia de crédito dos EUA do banco, em nota nesta segunda-feira. Alguns estrategistas de crédito — incluindo Patkar e Nathaniel Rosenbaum, do JPMorgan Chase & Co. — esperam que o grande volume de emissões pressione os spreads de títulos corporativos para cima.

“Acreditamos que o roteiro é semelhante a 1997/98 ou 2005: o crédito tem desempenho inferior, mas não é ‘fim de ciclo’”, escreveu Patkar, em referência a períodos em que os calotes aumentam e a oferta de crédito se aperta.

A Alphabet não respondeu a um pedido de comentário. JPMorgan Chase & Co., Goldman Sachs Group Inc. e Bank of America Corp., que ajudam a coordenar a venda de títulos em dólar, recusaram-se a comentar.

Deutsche Bank AG, Royal Bank of Canada e Wells Fargo & Co. também participam da coordenação da oferta.

A Alphabet afirmou na semana passada que gastará até US$ 185 bilhões neste ano, superando amplamente as previsões. A empresa também divulgou resultados do quarto trimestre acima da média das estimativas de analistas compiladas pela Bloomberg.

A empresa de tecnologia acessou o mercado de títulos dos EUA pela última vez em novembro, quando captou US$ 17,5 bilhões em uma operação que atraiu cerca de US$ 90 bilhões em ordens. Como parte dessa transação, vendeu um título com vencimento em 50 anos — a mais longa emissão de dívida corporativa de tecnologia em dólares no ano passado, segundo dados compilados pela Bloomberg — que se valorizou no mercado secundário. Na ocasião, a companhia também emitiu € 6,5 bilhões em títulos na Europa.

Os investimentos em inteligência artificial, infraestrutura de nuvem e data centers devem alcançar, no total, US$ 3 trilhões até 2029, segundo estimativa da Bloomberg Intelligence.