A Ford manteve conversas com a Geely, da China, sobre o compartilhamento de capacidade de fabricação na Europa, em um momento em que a montadora americana busca novas parcerias globais enquanto reformula sua estratégia para veículos elétricos.

Uma delegação de executivos da Ford visitou a China nesta semana para discutir oportunidades, incluindo o uso da fábrica da empresa em Valência, na Espanha, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que pediu anonimato porque as informações são privadas.

O compartilhamento da unidade de Valência poderia ser vantajoso para ambas as partes: permitiria à Geely evitar o pagamento de tarifas europeias sobre veículos elétricos fabricados na China e aumentaria a produção em uma fábrica da Ford que tem sido subutilizada.

Desde 2024, a planta produz apenas o utilitário esportivo Kuga, e a produção provavelmente caiu para menos de 100 mil unidades no ano passado, segundo a consultoria francesa Inovev. A capacidade anual da fábrica é de cerca de 400 mil veículos.

Um porta-voz da Ford disse que a empresa mantém “conversas com muitas companhias o tempo todo sobre uma variedade de temas. Às vezes elas se concretizam, às vezes não”. Um representante da Geely se recusou a comentar. A Reuters noticiou as tratativas primeiro.

Um eventual acordo ampliaria a lista de parcerias da Ford com Renault e Volkswagen na Europa, onde a montadora enfrenta queda de participação de mercado e uma transição irregular para os carros elétricos. Além de firmar parcerias, a Ford vem cortando empregos para reduzir custos, com a rodada mais recente atingindo uma fábrica de veículos elétricos em Colônia, na Alemanha.

Parceria anos atrás

Ford e Geely já fizeram negócios no passado: em 2010, a empresa chinesa comprou a Volvo Car AB da Ford. A montadora de origem sueca é hoje avaliada em cerca de 87 bilhões de coroas suecas (US$ 9,7 bilhões).

A aquisição marcou a expansão da Geely, que deixou de ser uma fabricante focada na China para se tornar um conglomerado automotivo internacional. Controlada pelo bilionário Li Shufu, a empresa hoje detém marcas como Lotus, os tradicionais táxis pretos de Londres e a fabricante de veículos elétricos Polestar, além de participações minoritárias na Mercedes-Benz e na Aston Martin.

Em dezembro, a Ford fechou um acordo com a Renault para produzir conjuntamente veículos elétricos acessíveis, em resposta à concorrência crescente, inclusive de fabricantes chineses. A Renault ajudará a desenvolver e fabricar dois modelos com a marca Ford no norte da França, com o primeiro veículo previsto para chegar às concessionárias no início de 2028. As empresas também concordaram em estudar a produção conjunta de vans.

A reformulação cara da estratégia de veículos elétricos da Ford tem levado a montadora americana a buscar cada vez mais aproximação com algumas das marcas chinesas mais conhecidas, mesmo com o CEO Jim Farley alertando que elas representam uma “ameaça estratégica colossal”.

Além da Geely, a Ford também manteve conversas com fabricantes chinesas como BYD e Xiaomi sobre possíveis colaborações, segundo noticiou recentemente o Financial Times. Ford e Xiaomi negaram ao jornal que estejam em negociações, enquanto a BYD preferiu não comentar.

As discussões entre Ford e Geely se concentraram na área de manufatura e não incluíram a possibilidade de compartilhamento de tecnologias, como sistemas de direção autônoma, segundo a pessoa familiarizada com o tema. As conversas ainda são preliminares e podem não resultar em um acordo.

A Geely já busca integrar melhor seu amplo portfólio de marcas. No ano passado, Li afirmou que a empresa deixaria de construir novas fábricas de automóveis diante da severa sobrecapacidade global, passando a usar unidades existentes dentro do grupo ou a trabalhar com parceiros.