A administração do presidente Donald Trump informou à Ford, em 23 de dezembro, que a empresa só poderia aplicar uma medida para reduzir as tarifas pagas sobre autopeças importadas retroativamente a novembro — e não a maio —, disse a diretora financeira (CFO), Sherry House, a repórteres, ao lado da divulgação dos resultados do quarto trimestre, na noite de terça-feira.
A mudança praticamente dobrou o custo das tarifas da Ford para US$ 2 bilhões em 2025, afirmou House, um patamar que a companhia espera enfrentar novamente neste ano.
A atualização do cenário tarifário destaca a volatilidade persistente da indústria automotiva doméstica, que enfrenta tanto custos elevados decorrentes das políticas comerciais do presidente americano Donald Trump quanto possíveis benefícios da demanda por picapes e utilitários esportivos (SUVs) de alta margem. A Ford projeta que o lucro ajustado antes de juros e impostos (Ebit) alcance até US$ 10 bilhões em 2026, revertendo a queda registrada no ano passado.
“Há um caminho viável para atingir ou superar o teto da projeção”, escreveu Alexander Potter, analista da Piper Sandler, em relatório. “Nesse sentido, acreditamos que a Ford controla em grande parte o próprio destino — salvo eventos de força maior.”
A Ford precisará comprar alumínio adicional produzido no exterior, sujeito a tarifas de importação, para suas picapes mais vendidas da linha F-Series, a fim de compensar o fornecimento interrompido pelos incêndios ocorridos no ano passado na usina da Novelis, no estado de Nova York.
As consequências desse episódio custaram à empresa cerca de US$ 2 bilhões em produção de picapes F-Series no ano passado, e a unidade da Novelis atingida pelos incêndios só retomará plenamente a produção neste verão, disse House.
As despesas adicionais surgem no momento em que a Ford espera aumentar a produção de SUVs e picapes após iniciativas lideradas por republicanos para eliminar penalidades financeiras por descumprimento das regras de economia de combustível e emissões. Esse alívio regulatório, na prática, permite que as montadoras vendam quantos SUVs e picapes de alta margem e baixo rendimento de combustível conseguirem produzir.
As ações da Ford subiam 1,6% às 7h42 desta quarta-feira (horário de Nova York), antes do início do pregão regular. Nos 12 meses anteriores, o papel acumulava alta de cerca de 47%, superando o avanço de 14% do índice S&P 500.
Veículos elétricos
Em dezembro, a Ford informou que registraria US$ 19,5 bilhões em encargos relacionados a uma ampla reestruturação de seu negócio de veículos elétricos, que vem gerando perdas significativas. Parte dessa mudança envolve a criação de um novo negócio para vender células de armazenamento de energia a concessionárias de serviços públicos e data centers, o que, segundo House, ajudará a elevar o investimento de capital da montadora para até US$ 10,5 bilhões neste ano.
“Estamos vendo nossa lucratividade melhorar”, disse o diretor-presidente (CEO), Jim Farley, a repórteres, à margem do Salão do Automóvel de Detroit, em janeiro. “Estou aqui há cinco anos como CEO. Estou realmente ansioso por este ano.”
No acumulado do ano, o negócio de veículos elétricos da Ford registrou prejuízo de US$ 4,8 bilhões, ante uma perda de US$ 5,1 bilhões em 2024. A empresa ainda planeja lançar uma nova linha de veículos elétricos acessíveis a partir de 2027.
O sentimento em relação à montadora, sediada em Dearborn, Michigan, vem melhorando à medida que a empresa reduz custos elevados que a prejudicaram por anos, colocando-a em desvantagem frente a concorrentes — diferença que Farley já estimou em US$ 8 bilhões por ano. Segundo House, a Ford cortou US$ 1,5 bilhão em custos no ano passado, 50% acima da meta da companhia.
“As ações vêm mostrando bom impulso”, disse David Whiston, analista da Morningstar Inc., em entrevista antes do anúncio da Ford. “Parece que eles estão avançando bastante na reversão de sua estrutura de custos.”
O lucro ajustado da Ford caiu para 13 centavos de dólar por ação no quarto trimestre, abaixo da estimativa média dos analistas, de 18 centavos.
A Ford Blue, unidade tradicional da montadora que inclui veículos a combustão e híbridos, registrou lucro de US$ 727 milhões antes de juros e impostos no quarto trimestre, cerca de metade do obtido um ano antes. As entregas de veículos da Ford nos EUA cresceram 2,7% no período.
Já a Ford Pro, braço de veículos comerciais e serviços de logística, reportou Ebit de US$ 1,23 bilhão, também em queda na comparação anual. A unidade de veículos elétricos, Model e, teve prejuízo de US$ 1,22 bilhão nessa métrica, melhor do que a perda de quase US$ 1,4 bilhão registrada no mesmo período do ano anterior.