A operação foi registrada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na terça-feira (26), com um único investidor profissional alocando o valor integral. Esse investidor único é, na prática, o fundo soberano chinês Silk Road Fund, criado pelo governo de Pequim em 2014 para financiar projetos da Nova Rota da Seda mundo afora.
No início deste mês, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a compra, pelo fundo chinês, de uma fatia minoritária indireta na Eixo SP.
Estrutura do aporte
A engenharia foi feita em camadas. Os chineses não compram ações da Eixo SP diretamente. Aportam dinheiro em um fundo offshore chamado PI Fund IV Eixo Co-Invest.
Esse fundo criado fora do Brasil, por sua vez, é o único cotista de um fundo brasileiro recém-criado, o Patria Infraestrutura IV Eixo Coinvestimento. E é esse fundo de coinvestimento que acaba de receber o aporte de R$ 1,19 bilhão.
Antes da entrada chinesa, a Eixo SP tinha dois donos. O fundo Patria Infraestrutura IV, com patrimônio de R$ 7,5 bilhões, detinha 70% por meio de uma holding que controla a concessionária. Os outros 30% pertencem ao GIC, fundo soberano de Singapura, também por meio de um veículo próprio.
A operação chinesa não desfaz esse arranjo. O Silk Road Fund entra mais acima na cadeia, como cotista do veículo de coinvestimento que se acopla ao bloco de 70% do Patria.
O percentual exato comprado pelos chineses está sob sigilo no documento do Cade, mas o porte do cheque dá a ordem de grandeza. Considerando o valor do aporte e o tamanho do Fundo IV do Patria, a fatia indireta dos chineses na Eixo SP ficaria em torno de 10%.
R$ 14 bilhões em investimentos
O capital chinês chega em um momento em que a Eixo SP precisa de recursos para tocar o pesado plano de investimentos de sua concessão, o maior pacote rodoviário já leiloado no Brasil.
A empresa foi criada em 2020 após Patria e GIC pagarem R$ 1,1 bilhão pela concessão do Lote Piracicaba-Panorama, de 1.273 quilômetros distribuídos em 12 rodovias que cortam 62 municípios paulistas, da região central do estado até a divisa com Mato Grosso do Sul.
As principais estradas do lote são a SP-310 e a SP-225, no eixo São Carlos-Bauru, além de trechos das SP-294, SP-284 e SP-425, que vão até o extremo oeste do estado.
O contrato de concessão tem prazo de 30 anos e prevê R$ 14 bilhões em investimentos ao longo do período. A operação começou em junho daquele ano, em meio à pandemia. Em 2021, o BNDES aprovou financiamento de R$ 3 bilhões para sustentar os primeiros sete anos de obras.
Mesmo assim, o ciclo de obras é grande o suficiente para justificar a busca por sócios dispostos a aportar mais recursos. Em 2025, a Eixo SP teve faturamento bruto de R$ 1,73 bilhão.
A entrada do Silk Road Fund na Eixo SP foi o primeiro investimento público do fundo da Nova Rota da Seda na infraestrutura brasileiro.
Nesta semana, os chineses também fecharam um acordo para comprar uma fatia minoritária na Aliança Energia, geradora controlada por um fundo da BlackRock, como mostrou o InvestNews.