O GPA, grupo dono das redes Pão de Açúcar e Extra, anunciou nesta manhã de terça-feira (10) um plano de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas não operacionais, em tentativa de reorganizar seu passivo e aliviar a pressão de vencimentos concentrados já neste ano.

A medida, aprovada por unanimidade pelo conselho de administração, mira exclusivamente credores financeiros e não afeta o funcionamento do dia a dia da companhia. Ficam fora do plano obrigações correntes com fornecedores, parceiros e clientes, além de salários, aluguéis e passivos trabalhistas.

A iniciativa mais extrema ocorre no momento em que o GPA tenta ganhar tempo para adequar o perfil da dívida à sua capacidade de geração de caixa. Quase metade desse passivo vence em 2026.

Só neste ano, a companhia tem pela frente compromissos financeiros relevantes de curto prazo, incluindo um vencimento de R$ 450 milhões em maio, R$ 889 milhões em debêntures em julho, R$ 127 milhões com vencimento em novembro, referentes a uma série da 20ª emissão de debêntures, e um empréstimo de R$ 508 milhões com o Rabobank também previsto para julho.

Segundo apurou o InvestNews, além do Rabobank, Itaú, HSBC e BTG Pactual já sinalizaram apoio ao plano. Juntos, esses credores representam 46% da dívida não operacional, percentual acima do piso mínimo de um terço exigido em lei para apresentação do plano.

Na prática, o pedido abre uma janela legal de 90 dias para negociação com os credores e cria uma espécie de standstill, o que suspende execuções judiciais relacionadas aos créditos abrangidos e dá à empresa espaço para tentar construir uma solução mais ampla para o passivo financeiro.

O CEO, Alexandre Santoro, afirma que o objetivo é tratar um problema estrutural de vencimentos, sem contaminar o dia a dia da companhia.

“A operação segue rodando bem. O que estamos endereçando aqui é um tema estrutural de vencimento que temos neste ano”, diz o executivo em entrevista ao InvestNews.

Santoro assumiu em janeiro, egresso do IMC (International Meal Company), em que – também como CEO – comandou a empresa em um processo de ganho de eficiência operacional e de reforço da estrutura de capital ao longo de quase cinco anos. O grupo opera redes como Pizza Hut e Viena no Brasil e fez o mesmo com a KFC até o ano passado, antes de vender o ativo.

Alexandre Santoro foi CEO da IMC por quase cinco anos
Alexandre Santoro foi CEO da IMC por quase cinco anos (foto: reprodução/Alexandre Santoro)

O CFO, Pedro Albuquerque, reforça que a companhia busca reequilibrar a estrutura financeira com base no fluxo de caixa operacional. Segundo ele, ainda é cedo para detalhar se a solução passará por alongamento de prazos, desconto ou outro desenho.

“O que de fato está acordando é dar essa pausa para sentar na mesa, criar esse comitê e entender qual é o instrumento mais adequado”, afirma.

Uma das possibilidades acompanhadas de perto pelo mercado é uma eventual injeção de capital. Questionado sobre essa hipótese, Albuquerque diz que isso não está descartado, mas sinaliza que qualquer desenho ainda está em fase inicial e dependerá das discussões com os credores.

Entre analistas e gestores, cresce a percepção de que a renegociação da dívida, sozinha, pode não ser suficiente para aliviar a pressão sobre o balanço. Essa discussão ganha peso em uma companhia que hoje tem uma base acionária que passou por muitas mudanças.

Atualmente, a família mineira Coelho Diniz, dona da rede de supermercados de mesmo nome em Minas Gerais, aparece como maior acionista do GPA, com 24% do capital. O investidor Silvio Tini, que também é acionista de empresas como Alpargatas, Bombril e Gerdau, detém 16%, enquanto o francês Casino, antigo controlador do grupo, ainda mantém cerca de 22% da companhia.

Custo alto

A pressão não vem só do calendário de vencimentos. O custo da dívida também pesa sobre uma empresa que tenta melhorar sua operação em ambiente de juros altos desde 2022. Em uma conta simplificada, segundo o CFO, uma dívida ao redor de R$ 4 bilhões corrigida a CDI de 15% implica despesa financeira anual próxima de R$ 600 milhões, sem contar spreads e custos adicionais.

Esse é justamente o ponto central do desafio do GPA. A companhia tem promovido ajustes operacionais, mas eles ainda não foram suficientes para neutralizar o peso da estrutura financeira.

Desde que assumiu o comando, Santoro diz que tem revisado frentes como sortimento, especialmente nas chamadas lojas de proximidade, estrutura de custos e disciplina de investimentos. O grupo também já sinalizou redução de capex praticamente pela metade.

“Não é hora para fazer expansão”, afirma o executivo, dizendo que a prioridade é crescer de forma saudável e com rentabilidade.

Além da dívida

A questão é que, para além da dívida financeira, o GPA convive com o peso de um passivo histórico bilionário. A companhia mantém cerca de R$ 17 bilhões em contingências tributárias e trabalhistas, parte delas herdada de uma época em que o grupo era bem maior e ainda tinha sob seu guarda-chuva o Assaí, empresa do ramo de “atacarejo”, e a operação colombiana de supermercados do Éxito.

A separação (spinoff) desses ativos deixou o GPA menor, mais exposto e sem a mesma geração de caixa do momento em que esses passivos tiveram origem. Só no quarto trimestre, a empresa desembolsou quase R$ 550 milhões com questões tributárias e trabalhistas. Além disso, essas disputas exigem seguros-garantia na esfera judicial, o que também consome caixa e pressiona o resultado financeiro.

Esses passivos não entram no perímetro da recuperação extrajudicial, mas seguem no radar da administração. “Os esforços de negociação seguem correntes como estavam antes”, diz Albuquerque, ao comentar as tratativas com a Receita Federal e secretarias da Fazenda estaduais.

O movimento de negociação com credores em esferas mais avançadas já vinha sendo desenhado pelo GPA havia alguns dias. No último dia 3, a Bloomberg noticiou que a companhia havia contratado o escritório Munhoz Advogados, especializado em reestruturação de dívidas.

No começo de janeiro, o grupo também contratou o “braço” voltado a ganhos de eficiência e performance da Alvarez & Marsal para assessorá-la nessa frente.

A aposta da administração agora é usar a recuperação extrajudicial como instrumento para reorganizar o passivo financeiro sem paralisar a empresa.