Pressionada por uma queda de 67% no preço das ações em 12 meses e por críticas públicas da gestora Squadra Investimentos, a direção da Hapvida decidiu colocar à venda sua operação na região Sul e contratou o BTG Pactual para conduzir o processo, segundo apuração do Pipeline, do Valor Econômico.

Ao mesmo tempo, a companhia reapresentou o boletim de voto da assembleia de acionistas marcada para 30 de abril, incluindo os três nomes indicados pela Squadra, de Guilherme Aché, para disputar assentos no conselho de administração.

Por outro lado, a família Pinheiro, fundadora e controladora do grupo de planos de saúde com forte presença no Nordeste, aumentou sua participação no capital de 41,5% para 51,3%, ao adquirir 47 milhões de ações por meio de um derivativo com o próprio BTG.

A família já era a controladora da Hapvida na prática, como maior acionista individual. Agora, é também formalmente majoritária.

Segundo fontes, o avanço teve como objetivo consolidar o controle e tentar conter a desvalorização dos papéis, mas não há intenção de fechar o capital da companhia, como especulado por investidores e executivos do setor que falaram com o InvestNews.

Os movimentos evidenciam a dimensão do momento crítico que a maior operadora de saúde do Brasil em número de beneficiários atravessa nos últimos anos.

O que está à venda

Os ativos colocados à venda na região Sul reúnem a estrutura adquirida da Clinipam e do Centro Clínico Gaúcho, além de três hospitais construídos pela própria Hapvida. No total, são oito hospitais, 21 clínicas e uma carteira de 490 mil beneficiários.

Se fosse segregada, essa operação formaria a nona maior operadora de saúde do mercado brasileiro e a segunda maior na região Sul.

A Hapvida investiu cerca de R$ 4 bilhões nessa estrutura. A Clinipam foi adquirida em 2020 por R$ 2,6 bilhões, e o Centro Clínico Gaúcho, em 2021, por R$ 1,06 bilhão — valores aos quais se somam os aportes nos hospitais próprios.

A decisão de vender esses ativos já estava em discussão no conselho antes da carta pública da Squadra, de acordo com fontes próximas à empresa. Mas a pressão da gestora — que detém 6,98% das ações da Hapvida — certamente acelerou o processo.

A pressão da Squadra

Em carta enviada à companhia em 1º de abril e publicada em seu site, a Squadra fez um diagnóstico severo da gestão da Hapvida. A gestora de Guilherme Aché classificou a trajetória da empresa desde o IPO (Oferta Pública Inicial de ações), em 2018, como uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro. E os números sustentam o tom.

Desde a estreia na B3, as ações da Hapvida acumulam queda de 85%, enquanto o Ibovespa subiu 120% no mesmo período.

A fusão anunciada em 2021 com a NotreDame Intermédica, que deveria criar uma potência no setor, acabou resultando em destruição de cerca de R$ 80 bilhões em valor de mercado, segundo a gestora, citando cifras da época das duas companhias somadas.

A Squadra também apontou a perda de 238 mil beneficiários no Sudeste e no Sul ao longo de 2025, em um mercado que, no mesmo intervalo, cresceu 792 mil vidas.

A gestora criticou ainda o não reconhecimento de perda de valor contábil sobre um ágio esperado de R$ 44 bilhões, o aumento da alavancagem e a remuneração considerada excessiva da administração diante dos resultados aquém dos esperados — o executivo mais bem remunerado teria acumulado cerca de R$ 110 milhões em 2023 e 2024.

A venda da operação no Sul, aliás, era uma das recomendações explícitas da carta. Para a Squadra, o desinvestimento poderia reduzir a alavancagem, reequilibrar o capital regulatório, permitir a retomada de pagamento de dividendos e concentrar a gestão nas operações mais rentáveis.

Conselho em disputa

Além de criticar a estratégia e a entrega de resultados, a Squadra solicitou a adoção do voto múltiplo na eleição do conselho e indicou três nomes: Eduardo Parente, ex-CEO da Yduqs e presidente do conselho da Equatorial; Tania Sztamfater Chocolat, conselheira da Equatorial e da Totvs e ex-Head de Real Assets para a América Latina do fundo de pensão canadense CPPIB; e Bruno Magalhães e Silva, sócio da própria Squadra.

Na terça-feira (7), a Hapvida atendeu ao pedido e reapresentou o boletim de voto a distância para incluir os indicados. A companhia recomendou que os acionistas enviem um novo boletim para evitar instruções conflitantes. O prazo se encerra em 26 de abril, quatro dias antes da assembleia.

A administração, por sua vez, havia proposto a reeleição integral dos nove conselheiros atuais — proposta que a Squadra critica, entre outros motivos, por prever a redução do número de membros independentes.

Troca de comando

A crise da Hapvida também provocou mudanças na administração. Após 27 anos como diretor-presidente, Jorge Pinheiro, filho do fundador, anunciou que deixará o cargo. Seu substituto será Luccas Adib, atual vice-presidente de finanças, relações com investidores e tecnologia.

Em carta a acionistas na segunda-feira (6), Pinheiro reconheceu que os resultados recentes ficaram aquém do potencial da empresa. Disse que seguirá como membro do conselho de administração e que a escolha de Adib reflete a necessidade de novas competências e um novo ritmo de gestão.

A Hapvida é hoje avaliada em cerca de R$ 5,2 bilhões — uma fração do que já valeu. As ações acumulam queda de 67% em 12 meses, mas nesta quarta-feira (8) fecharam em alta de 9,06%, a R$ 11,19, com as notícias sobre as mudanças em curso na companhia.