A Honda se juntou ao coro de montadoras globais que alertam para o alto custo da desaceleração da demanda por veículos elétricos, além das pressões persistentes provocadas pelas tarifas de importação dos Estados Unidos.

A montadora japonesa afirmou que despesas pontuais relacionadas a veículos elétricos, incluindo prejuízos e perdas por impairment em carros vendidos nos EUA e baixas contábeis de ativos de desenvolvimento, somaram US$ 1,7 bilhão nos nove meses encerrados em 31 de dezembro. Além disso, a empresa sofreu um impacto adicional de US$ 1,8 bilhão devido às tarifas de importação americanas.

Segundo a Honda, o conjunto de desafios atuais “torna necessário reavaliar fundamentalmente a estratégia e reconstruir a competitividade”. Entre os principais fatores estão a desaceleração do crescimento dos veículos elétricos, políticas comerciais mais protecionistas, riscos elevados na cadeia de suprimentos e a intensificação da concorrência global.

Noriya Kaihara, vice-presidente executivo da Honda, disse que a eletrificação imaginada pela empresa não se concretizou e que será necessário reavaliar o momento de lançar veículos elétricos na América do Norte.

Stellantis lidera correção estratégica

A Honda não está sozinha nesse movimento de rever a estratégia em setor elétricos. A Stellantis, dona de marcas como Jeep e Fiat, anunciou na semana passada que teve um impacto de US$ 26,5 bilhões após um reset estratégico. A montadora afirmou que superestimou a demanda por veículos e precisou realinhar seu portfólio de produtos.

O presidente da Stellantis, Antonio Filosa, disse que as despesas refletem, em grande parte, o custo de ter superestimado o ritmo da transição energética, afastando a empresa “das necessidades, possibilidades e desejos reais de muitos compradores de automóveis”.

Filosa responsabilizou seu antecessor, Carlos Tavares, por concentrar investimentos quase exclusivamente em veículos elétricos e não ajustar a estratégia diante das mudanças do mercado. Segundo ele, os encargos também evidenciam “o impacto de uma execução operacional ruim anterior, cujos efeitos estão sendo progressivamente tratados por nossa nova equipe”.

Além de Jeep e Fiat, a Stellantis é dona de marcas como Peugeot, Citroën e Ram — algumas não comercializadas no Brasil — e controla a montadora chinesa Leapmotor, especializada em elétricos, que entrou no mercado brasileiro no ano passado. Como parte da reformulação, Filosa prometeu investir US$ 13 bilhões nos Estados Unidos, adiou lançamentos de veículos elétricos e trouxe de volta motores V8 para revitalizar a marca de picapes Ram. A empresa também cancelou investimentos, incluindo uma joint venture planejada em hidrogênio, e vem reduzindo preços para recuperar participação de mercado.

Outras montadoras puxam o freio

A correção estratégica se espalha pela indústria. A Ford contabilizou US$ 19,5 bilhões em despesas ao cancelar ou reduzir projetos de veículos elétricos, redirecionando investimentos para híbridos e motores a combustão diante da fraca demanda e do corte de incentivos nos EUA.

A General Motors anunciou encargos de cerca de US$ 6 bilhões relacionados à reorganização de ativos e contratos ligados a EVs. Já Volkswagen e Porsche registraram impactos combinados de aproximadamente US$ 6 bilhões ao adiar modelos totalmente elétricos em favor de híbridos ou motores a combustão em algumas linhas.

No total, montadoras globais já contabilizaram cerca de US$ 60 bilhões em ajustes recentes ligados à reavaliação de estratégias para veículos elétricos, refletindo a adoção mais lenta pelo consumidor, mudanças regulatórias e a concorrência crescente de fabricantes chineses.

(com informações da Bloomberg)