Embora a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, após ataques aéreos dos Estados Unidos represente um acontecimento geopolítico de grande magnitude, os primeiros sinais indicam que o mercado global de petróleo deve absorver o impacto sem grandes sobressaltos – ao menos por enquanto.

A infraestrutura petrolífera da Venezuela não foi afetada mesmo depois dos americanos atacarem Caracas e outros estados, segundo pessoas com conhecimento do assunto. Instalações-chave como o porto de José, a refinaria de Amuay e áreas de produção na Faixa do Orinoco continuam operando, disseram as fontes, que pediram anonimato por se tratar de informação confidencial.

Embora a Venezuela já tenha sido uma potência na produção de petróleo, sua produção caiu drasticamente nas últimas duas décadas e hoje representa menos de 1% da oferta global. A pressão recente dos EUA sobre o regime de Maduro, incluindo a apreensão de navios-tanque que transportavam petróleo venezuelano, forçou o país a começar a fechar alguns poços.

Os preços do petróleo bruto caíram nas últimas semanas para cerca de US$ 60 o barril. “Avalio que os preços do Brent subirão apenas marginalmente na abertura de domingo à noite, entre US$ 1 e US$ 2, ou até menos”, disse Arne Lohman Rasmussen, analista-chefe da A/S Global Risk Management. “Mesmo em condições normais, uma disrupção dessa magnitude é administrável para o mercado.”

A falta de visibilidade sobre os próximos acontecimentos, porém, é o grande problema. A captura de Maduro levanta especulações sobre o futuro da indústria petrolífera venezuelana no longo prazo. Estima-se que o país tenha mais reservas de petróleo no subsolo do que a Arábia Saudita e, ao longo do último século, tenha atraído alguns dos maiores operadores internacionais.

No entanto, duas ondas de nacionalização deixaram um gosto amargo para empresas como Shell, Exxon Mobil e ConocoPhillips. Exxon e Conoco posteriormente buscaram indenização após seus ativos terem sido confiscados pelo falecido presidente Hugo Chávez, antecessor da Maduro.

A americana Chevron, a espanhola Repsol, a italiana Eni e a francesa Maurel et Prom também continuam presentes na Venezuela e são parceiras em projetos de petróleo e gás com a estatal PDVSA.

Opep pausa aumento da oferta

Neste domingo (4), a Opep+ manteve os planos de pausar os aumentos de oferta no primeiro trimestre, enquanto os mercados globais enfrentam um excedente e o grupo aguarda maior clareza sobre a captura de Maduro e os efeitos para a cadeia petrolífera.

Os principais membros do grupo, liderados por Arábia Saudita e Rússia, concordaram em manter os níveis de produção estáveis até o fim de março, reafirmando uma decisão tomada inicialmente em novembro de suspender a sequência de aumentos rápidos. Participantes disseram que a Venezuela não foi discutida durante a videoconferência e que é prematuro avaliar como responder à situação.

Mas não é só a Venezuela que preocupa. A organização e seus parceiros enfrentam uma série de desafios, com os preços do petróleo perto do menor nível em quatro anos e previsões amplas de que a oferta abundante e a demanda contida possam desencadear um excedente recorde.

A convulsão sísmica deste fim de semana na Venezuela, país membro, é o mais recente de uma série de pontos de pressão geopolítica, que vão da Rússia ao Iêmen e que também obscurecem as perspectivas. Por ora, a expectativa é de que não haja uma mudança imediata e significativa nas exportações venezuelanas.

“Em um ambiente tão frágil, a Opep+ está optando pela cautela e preservando flexibilidade em vez de introduzir nova incerteza em um mercado já volátil”, disse Jorge Leon, analista da consultoria Rystad Energy AS. “A transição política na Venezuela acrescenta mais uma grande camada de incerteza.”