A imposição de um teto inferior ao que o Brasil exportou para a China nos últimos anos deve forçar os frigoríficos a reduzir a produção neste ano, segundo bancos e consultorias, que estão cortando as projeções do setor no país. A oferta, que já tenderia a cair por conta de menor disponibilidade de gado, deve sofrer um tombo ainda maior do que o esperado anteriormente.
É um sinal de desafios pela frente para a indústria de carnes e para companhias como JBS, Minerva e MBRF Global Foods, que detém grandes operações no Brasil. O impacto já está sendo percebido na queda das ações das empresas desde o anúncio da China no dia 31 de Dezembro.
“É um revés importante para o setor de carnes,” disse Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado, que estima que as restrições da China vão levar a uma queda de 3.6% nos abates do Brasil em 2025.
Uma redução similar deve ser vista na produção de carne, Iglesias disse. Antes do anúncio da China – que aplicará uma taxa de 55% para embarques que excedam as quotas – a projeção era de 2.8% de queda nos abates.
Nos últimos anos, as unidades brasileiras dos grandes frigoríficos foram beneficiadas pelos baixos custos do gado e pela forte demanda externa, o que levou as exportações a um recorde em 2025. Agora, a oferta de gado tende a diminuir à medida que os pecuaristas começam a recompor os rebanhos, o que pode elevar os custos para as plantas de carne bovina.
Isso ocorre em um momento em que os consumidores globais sentem cada vez mais o impacto dos preços elevados da carne bovina. As cotas chinesas podem reduzir a demanda, abrindo espaço potencial para preços mais baixos em outros mercados. Ainda assim, a queda na produção brasileira e a oferta mais restrita de gado podem limitar a redução dos preços, especialmente porque a demanda permanece forte em muitas regiões, incluindo os Estados Unidos.
Outra preocupação é que os consumidores brasileiros estejam migrando para fontes mais baratas de proteína em razão dos preços elevados, disse o analista do Rabobank Wagner Yanaguizawa.
“Para o setor de processamento de carnes, observa-se uma matéria-prima com tendência de alta de preços, e as exportações têm sido uma alternativa para os grandes processadores tentarem compensar a tendência de queda do consumo no mercado doméstico”, disse Yanaguizawa.
As exportações agora podem enfraquecer, especialmente no fim do ano, caso as cotas sejam cumpridas nos três primeiros trimestres, afirmou Yanaguizawa. O Rabobank trabalha em uma nova projeção para a produção de carne bovina no Brasil, sendo provável que a estimativa anterior de queda anual de até 6% seja revisada para baixo.
Particularmente preocupante para o Brasil é o fato de o país depender fortemente do mercado chinês, que responde por quase metade do total dos embarques de carne bovina. O Brasil diversificou os destinos recentemente, mas os frigoríficos locais ainda não conseguem acessar mercados-chave atendidos por concorrentes como os Estados Unidos e a Austrália. O Japão, por exemplo, ainda não autorizou importações de carne bovina brasileira por questões sanitárias, apesar dos esforços recentes das autoridades para acelerar as negociações.
Demanda chinesa
Não é apenas o sistema de cotas que limita o comércio de carne bovina: o consumo de carne na China também está desacelerando após décadas de crescimento exponencial. Isso ocorre à medida que os consumidores reduzem as refeições fora de casa e cortam gastos com alimentos e bebidas premium em meio às dificuldades econômicas. O consumo de carne bovina no país asiático deve cair cerca de 2,5% em 2026, para 11,29 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
As importações chinesas de carne bovina de todas as origens também estão enfraquecendo após produtores locais aumentarem a produção, impulsionados por uma política governamental de maior autossuficiência alimentar. Nos primeiros 11 meses do ano, a China importou 2,59 milhões de toneladas de carne bovina, volume ligeiramente inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
Desde o anúncio da China, as ações da Minerva acumularam queda superior a 7%, mais do que outros pares do setor, devido à sua maior exposição ao mercado brasileiro. A JBS, que obtém uma parcela significativa de suas receitas em outras regiões, incluindo os Estados Unidos, viu suas ações caírem cerca de 4% no mesmo período.
Outros países sul-americanos, como Argentina e Uruguai, receberam cotas consideradas menos restritivas e mais alinhadas aos volumes típicos de exportação desses países. Por essa razão, analistas do Itaú BBA disseram em relatório de janeiro que esperam que parte da carne bovina brasileira chegue a esses países vizinhos, liberando mais oferta doméstica para atender a China. Ainda assim, eles projetam que a produção brasileira de carne bovina cairá 2% neste ano.
O envio para outros mercados também deverá significar margens menores para o setor, já que a China normalmente paga preços mais altos pelos tipos de cortes de carne que o Brasil vende, disseram analistas do banco BTG Pactual no início de janeiro.