Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, os Batista — controladores da maior empresa de proteína animal do mundo — estão posicionados de forma discreta nos bastidores do setor de petróleo da Venezuela por meio da participação que um de seus associados mantém no projeto Petrolera Roraima.
Antes da queda de Nicolás Maduro, no início deste mês, um representante comercial dos Batista obteve participação em um conjunto de campos de petróleo que antes eram operados pela ConocoPhillips. A Fluxus, empresa de petróleo pertencente aos Batista, poderia entrar nesse ou em outros projetos do setor no país assim que o ambiente de negócios ficar mais claro, disseram as pessoas, que pediram anonimato por se tratar de informações não públicas.
A J&F, holding dos irmãos Batista, disse que não possui ativos na Venezuela e que acompanha de perto os acontecimentos.
“Assim que houver um cenário de estabilidade institucional e segurança jurídica, estaremos prontos para avaliar investimentos”, afirmou a J&F em e-mail enviado à reportagem.
Os Batista adotaram uma postura cautelosa em relação à Venezuela desde que os EUA impuseram sanções, devido à forte exposição do grupo a investimentos americanos — incluindo a processadora de frango Pilgrim’s Pride.
Embora Trump tenha afirmado que o governo venezuelano “roubou” riquezas petrolíferas reivindicadas por empresas americanas como a ConocoPhillips durante a onda de nacionalizações de quase 20 anos atrás, ele também não demonstrou intenção de reverter essas expropriações. Isso indica que os Batista estão em posição privilegiada para ajudar a expandir a produção de petróleo do país, enquanto petroleiras americanas e europeias aguardam garantias financeiras e de segurança mais robustas.
Desde a queda de Maduro, Joesley Batista emergiu como uma figura-chave na transição de poder na Venezuela. Na semana passada, ele viajou de Washington a Caracas para se reunir com a presidente interina do país, Delcy Rodríguez.
Segundo uma pessoa familiarizada com o encontro, Joesley voltou com um relato otimista para autoridades americanas, dizendo que ela estaria aberta a investimentos estrangeiros — especialmente nos setores de petróleo e gás natural.
Os Batista construíram relações com líderes de diferentes espectros políticos. A Pilgrim’s Pride fez a maior doação individual para o comitê de posse de Trump em 2025: US$ 5 milhões. No ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou Joesley Batista para negociar com Trump alívio tarifário.
Joesley Batista, de 53 anos, também vem usando relações cultivadas na Venezuela nos últimos anos para posicionar a família como uma das primeiras a entrar em um mercado que já foi o maior exportador de petróleo da América Latina. Em dezembro, ele esteve no país para pressionar Maduro a deixar o poder de forma pacífica.

Os laços da família com a Venezuela remontam a mais de uma década. A joia da coroa do grupo, a JBS, fechou um acordo de US$ 2,1 bilhões com o governo Maduro para fornecer carne e frango em um momento em que o país enfrentava escassez aguda de alimentos e hiperinflação.
Esse contrato foi viabilizado por Diosdado Cabello, um dos principais nomes do chavismo e atual ministro do Interior da Venezuela.
Em 2024, o Ministério do Petróleo da Venezuela concedeu direitos de exploração e produção por 25 anos no antigo projeto da ConocoPhillips, a Petrolera Roraima, à A&B Investments, liderada por Jorge Silva Cardona, associado dos Batista. Após a entrada da A&B no projeto, a produção diária subiu para 32 mil barris entre junho e outubro, mas depois despencou quando o governo Trump passou a bloquear exportações de petróleo do país, disse uma das fontes.
O projeto era considerado um marco da engenharia moderna quando entrou em operação no início dos anos 2000. Refinarias conhecidas como upgraders convertiam o petróleo pesado em cerca de 90 mil barris diários de um tipo mais leve e valioso de óleo sintético.
A estatal PDVSA detém 51% do projeto, enquanto a A&B possui 49%. Segundo fontes, os Batista também avaliam oportunidades nos setores de mineração e infraestrutura elétrica na Venezuela.