A MRV “tirou o pé” de vez da Resia, sua empresa que atua no mercado dos Estados Unidos, focada no desenvolvimento de projetos residenciais conhecidos como multifamily, em que um único proprietário detém um edifício ou um complexo e o coloca integralmente para locação.

Pressionada por uma operação americana que cresceu demais, se alavancou demais e ainda não entregou a geração de caixa prometida, a companhia da família Menin colocou a subsidiária em um mandato de venda de US$ 800 milhões em terrenos e empreendimentos até o fim de 2026. 

A ordem agora é desalavancar, simplificar a estrutura e reduzir o risco que o negócio passou a representar dentro do grupo.

“São US$ 800 milhões em ativos. É muito dinheiro, que vai fazer uma baita diferença para a MRV, no sentido de ter um balanço bem mais eficiente”, diz Rafael Menin, co-CEO da MRV&CO. Segundo ele, essa venda, porém, será conduzida de forma cadenciada, para não “destruir valor em uma venda muito acelerada.”

A mudança de rumo é relevante porque “enterra”, ao menos por agora, a tese de expansão da operação de multifamily nos Estados Unidos. A Resia nasceu como uma aposta de crescimento em um mercado que parecia oferecer demanda robusta, financiamento abundante e espaço para escala. 

Mas a combinação de juros mais altos por tempo prolongado, excesso de oferta em parte das cidades em que a companhia atua e uma execução mais agressiva do que o ideal deixou pelo caminho um balanço pesado e uma conta mais difícil de fechar.

No desenho atual, a prioridade deixou de ser crescer para buscar caixa. A MRV já vendeu US$ 167 milhões desse pacote e ainda precisa monetizar outros US$ 633 milhões. Ao mesmo tempo, decidiu que a Resia não vai iniciar novos projetos dentro da estrutura da companhia, o que reduz a necessidade de colocar mais capital em um negócio que ainda consome caixa e carrega dívida.

“Temos uma mensagem muito clara — e ainda mais clara agora — de que esse landbank [banco de terrenos] só vai diminuir e não vai ter aumento de risco por construção de novos projetos”, afirmou o CEO da Resia, Matias Rotella, que também é CEO da Menfis (holding familiar da família Menin) e membro do conselho de administração da Resia.

A companhia realizou nesta terça-feira (10) em São Paulo seu Investor Day, evento voltado a apresentar dados e estratégia a analistas e investidores. 

“Não é um modo ‘liquidação’. É um modo ‘desalavancagem’. No futuro, aí, sim, podemos fazer a separação dos negócios, a atração de investidores e até mesmo a liquidação da Resia”, diz o CFO da MRV, Ricardo Paixão.

Ainda assim, a decisão de suspender projetos e vender ativos marca uma virada importante, em que a Resia passa a ser encarada como um ativo que precisa ser reciclado com disciplina, no melhor ritmo possível, para aliviar o balanço da MRV.

Em 2025, a operação teve prejuízo de US$ 243 milhões – um dos fatores para a queima de caixa do grupo e para a retirada de suas projeções mais otimistas para 2025 e este ano.

O desafio é que essa guinada acontece em momento complexo.

De um lado, o cenário atual ainda é considerado difícil. Em mercados como Dallas, Houston e Atlanta, a oferta de apartamentos cresceu demais nos últimos anos, o que comprimiu o valor de aluguéis e atrasou a estabilização financeira dos empreendimentos. 

De outro, a própria lógica do ciclo sugere que, com menos concorrentes começando obras agora, os projetos entregues mais à frente podem encontrar um ambiente mais favorável.

A MRV cresceu nos Estados Unidos em um momento desfavorável e agora precisa vender ativos justamente quando o ciclo à frente começa a parecer menos hostil. Se a Resia fosse uma empresa menos alavancada, a decisão talvez fosse segurar os ativos por mais tempo. Hoje, porém, acumula US$ 695 milhões em dívida. Por essa razão, esperar se tornou caro demais.

A companhia reconhece que teria agido de forma diferente em três frentes: teria se expandido menos geograficamente, concentrando mais a operação no sul da Flórida, onde os projetos foram rentáveis; teria colocado menos capital na compra de terrenos; e, talvez, tivesse adiado o investimento na fábrica de pods (módulos industrializados), hoje um ativo sofisticado demais para uma operação que perdeu volume.

Até houve avanço operacional, com melhora de ocupação e mudança na gestão das propriedades para acelerar a locação, mas isso aconteceu em ritmo mais lento do que o prometido ao mercado, como reconhece a gestão da MRV.  “Daqui para frente, é fazer essa desalavancagem da Resia da forma mais geradora de valor possível”, diz Menin.