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O ano de 2026 deve fechar um importante ciclo da história da Multiplan. Após quatro anos, o grupo vai concluir o projeto de ampliação e revitalização de 19 de seus 20 centros comerciais, que incluem ativos como o MorumbiShopping, em São Paulo, o BarraShopping, no Rio de Janeiro, e o ParkShopping, em Brasília.

As dezenas de bilhões de reais investidos nesse processo mostram a confiança de uma família em um negócio que passou por momentos delicados nos últimos anos, incluindo a pandemia, juros altos, crise econômica e consumidores cada vez mais divididos entre as compras presenciais e o digital.

Controlada pela família Peres, a Multiplan é presidida hoje pela segunda geração, tendo Eduardo Peres, filho do fundador José Isaac Peres, como CEO desde 2023. Nos últimos anos, a família elevou sua participação acionária na companhia ao comprar R$ 471 milhões em ações.

Nos próximos anos, Eduardo terá como missão mostrar que a Multiplan — que sempre apostou em shoppings com múltiplas funções, como grandes áreas gastronômicas, espaços para eventos e serviços — consegue se manter competitiva em um momento em que outros grandes grupos também seguem esse mesmo caminho para crescer.

Hoje, concorrentes como o Grupo Iguatemi, controlado pela família Jereissati, também disputam o segmento premium com foco em serviços e experiências.

A diferença entre os grupos aparece no modelo de capital. Enquanto a Multiplan tende a construir, manter e amadurecer seus ativos, o Iguatemi recicla recursos com mais frequência, vendendo participações em shoppings maduros para investir em novos projetos.

Esse contraste ganha relevância em um setor que enfrenta limites cada vez mais claros para crescer. O espaço para novos shoppings premium no Brasil está mais restrito, as grandes cidades estão mais consolidadas e os terrenos capazes de sustentar projetos desse porte se tornaram escassos e caros. 

Nesse contexto, a competição deixa de estar centrada em onde construir e passa a se concentrar em como extrair valor de ativos já existentes, seja por meio de expansões, projetos de uso misto, aumento de fluxo ou maior eficiência operacional.

A aposta arriscada

A trajetória de José Isaac Peres ajuda a entender as estratégias atuais da Multiplan. Economista de formação, ele fundou sua primeira empresa, a Veplan Imobiliária, em 1963, aos 22 anos. O crescimento foi rápido. No início da década de 1970 a Veplan já figurava entre as maiores incorporadoras do país e, em 1971, abriu capital na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

Foi ainda sob a Veplan que ele liderou a construção do Shopping Ibirapuera, inaugurado em 1975, o segundo shopping da cidade de São Paulo. Pouco depois, divergências estratégicas com sócios e o entusiasmo crescente com o formato de shopping centers levaram Peres a vender sua participação na Veplan e fundar a Multiplan.

Sem capital para adquirir terrenos valorizados, ele mirou áreas periféricas ou pouco exploradas, apostando que seriam o futuro das cidades. O primeiro projeto foi o BH Shopping, em Belo Horizonte, construído em frente a um trevo rodoviário que inspirou o logotipo da empresa.

Vieram depois o RibeirãoShopping e o BarraShopping, em 1981; o MorumbiShopping, em 1982; e o ParkShopping, em Brasília, em 1983. No Rio de Janeiro, a escolha da Barra da Tijuca, então vista como distante e pouco populosa, antecipou um movimento de valorização imobiliária que transformaria a região em um dos principais eixos urbanos do país.

Além da localização, foi de José Isaac Peres a ideia de, desde o início, investir na integração de múltiplas funções aos shoppings. Cinemas, restaurantes, parques de diversão e espaços para eventos passaram a fazer parte dos projetos décadas antes de o varejo adotar o discurso de “experiência”.

Sob o comando da segunda geração, a Multiplan agora entra em uma fase em que o passado explica a cultura, mas não garante o futuro. Caberá a Eduardo Peres mostrar que a empresa fundada por seu pai continua capaz de antecipar movimentos. E não apenas das cidades, mas de um consumidor e de um mercado que mudam mais rápido do que nunca.