Por anos, uma parte do negócio da Tesla cresceu longe dos holofotes, com receitas disparando mesmo enquanto as vendas de carros elétricos da empresa enfrentavam dificuldades.

Agora, analistas começam a questionar se essa fonte silenciosa de ganhos, o segmento de baterias, também pode estar enfrentando seus próprios problemas.

As baterias deram um impulso importante à Tesla. Os Megapacks, sistemas gigantes capazes de manter fábricas, data centers ou até redes elétricas funcionando, vêm sendo instalados ao redor do mundo. Já os Powerwalls, menores, atendem residências. Em meio a investimentos elevados em táxis autônomos e a projetos como o robô Optimus ainda distantes de se concretizar, as baterias se tornaram uma fonte relevante de caixa.

A empresa não divulga separadamente a receita de baterias, agrupando-a com o negócio solar. Ainda assim, juntos, esses segmentos saltaram de US$ 2,8 bilhões em 2021 para US$ 12,8 bilhões no ano passado — um avanço de 358%. As instalações anuais de armazenamento de energia dobraram em 2024 e cresceram mais 49% em 2025, atingindo 46,7 gigawatt-hora.

Em contraste, a receita do negócio principal de veículos elétricos atingiu o pico de US$ 82,4 bilhões em 2023 e caiu para US$ 69,5 bilhões no ano passado, pressionada pela concorrência crescente, desafios regulatórios e pela reação negativa de consumidores às posições políticas do CEO Elon Musk. Ainda assim, a empresa segue líder em vendas de veículos elétricos nos Estados Unidos, e suas ações atingiram recorde em dezembro, impulsionadas pelas apostas em novas frentes de crescimento.

“O crescimento do negócio de energia está compensando grande parte da fraqueza no segmento automotivo”, disse Garrett Nelson, analista da CFRA. “Estamos otimistas com o potencial de crescimento desse negócio e com sua capacidade de sustentar os resultados da empresa durante essa fase de transição.”

Otimismo testado

Esse otimismo, porém, começou a ser testado.

Ao divulgar os números mais recentes, a Tesla revelou uma queda inesperada nas instalações de baterias no primeiro trimestre. O volume recuou 15% em relação ao mesmo período do ano anterior, contrariando expectativas de alta. Não houve, inicialmente, uma explicação clara para o desempenho.

Dependente de grandes projetos, o negócio de baterias pode apresentar volatilidade. Além disso, todo o setor enfrenta pressões vindas de Washington. O presidente Donald Trump não eliminou incentivos fiscais para baterias, mas cortou benefícios para energia solar e eólica — projetos que normalmente incluem sistemas de armazenamento. Uma desaceleração nessas áreas pode afetar a demanda por baterias.

Analistas aguardam esclarecimentos na próxima teleconferência de resultados da empresa, na quarta-feira, e esperam que a queda seja pontual, e não o início de uma tendência.

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“Apesar de surpreendente, ainda não estou pronto para chamar isso de tendência”, disse Seth Goldstein, da Morningstar. Segundo ele, fatores como condições climáticas severas no inverno podem ter atrasado projetos de grande escala. “O momento em que a Tesla reconhece receitas e instalações pode tornar os resultados trimestrais bastante voláteis.”

A Tesla não respondeu a pedidos de comentário.

No médio prazo, analistas também observam novos produtos como motores de crescimento. O Megapack 3, com capacidade cerca de 25% maior que a versão anterior, deve ser lançado ainda este ano, a partir de uma nova fábrica de US$ 200 milhões na região de Houston. A empresa também apresentou o “Megablock”, que combina quatro unidades do sistema.

Armazenamento de energia

O mercado global de armazenamento de energia, praticamente inexistente quando a Tesla começou a produzir carros em 2012, hoje cresce rapidamente. As baterias são usadas para apoiar usinas solares e eólicas, reduzir picos de consumo e evitar apagões. A Tesla foi pioneira, com um dos primeiros grandes projetos conectados à rede elétrica na Austrália em 2017, e já instalou mais de 2.100 sistemas comerciais e de grande escala no mundo.

Na América do Norte, a empresa detém cerca de 40% do mercado, segundo a Wood Mackenzie, bem à frente da concorrente Sungrow Power Supply, com cerca de 10%.

Embora baterias não gerem energia, elas armazenam e distribuem eletricidade quando necessário — com implantação mais rápida e custo inferior ao de novas usinas. A BloombergNEF projeta que a capacidade global de armazenamento deve crescer oito vezes até 2035.

“A economia favorece a construção de baterias em comparação a usinas tradicionais”, disse Goldstein. “As concessionárias buscam confiabilidade e retorno sobre investimento, e as baterias estão se tornando uma opção cada vez mais barata.”

Mesmo com concorrência de fabricantes chineses mais baratos, a Tesla se destaca pela integração de seus sistemas — que combinam baterias, inversores e software de gestão energética em um único pacote.

Ainda assim, tarifas sobre produtos chineses — atualmente em 43,6% nos EUA — têm impacto ambíguo: protegem o mercado doméstico, mas também afetam a Tesla, que depende parcialmente de células importadas.

A empresa tenta reduzir essa dependência com produção própria em Nevada e um acordo de US$ 4,3 bilhões com a LG Energy Solution, com produção prevista para 2027.

Enquanto o ritmo de energias renováveis pode desacelerar nos EUA, outro vetor ganha força: os data centers. Desenvolvedores estão recorrendo a baterias para garantir energia em novos projetos. Segundo a BloombergNEF, já há 51,5 gigawatt-hora em projetos anunciados, em construção ou em operação.

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Entre eles estão instalações da xAI, empresa de inteligência artificial de Musk. No ano passado, a Tesla vendeu US$ 430 milhões em Megapacks para a companhia — mais um exemplo da integração entre os negócios do bilionário, que pode também oferecer à Tesla vantagem estratégica na antecipação da demanda por energia em data centers.