A Tesla encerrou o ano passado em alta de 9%, com investidores cada vez mais apostando no entusiasmo de Elon Musk em relação aos veículos autônomos. Conquistar compradores de carros de verdade, porém, foi outra história.

As ações da montadora mais valiosa do mundo dispararam no segundo semestre, em grande parte com base no discurso de seu diretor-executivo sobre avanços em inteligência artificial e robótica.

Mas o progresso alardeado por Musk não se traduziu em sucesso nas concessionárias: segundo a expectativa para as próximas divulgações, a empresa vendeu menos veículos nos últimos seis meses do que no mesmo período do ano anterior, apesar das entregas recordes no terceiro trimestre.

Espera-se que a Tesla informe a entrega de cerca de 440,9 mil veículos no quarto trimestre, queda de 11% em relação a um ano antes, segundo dados compilados pela Bloomberg. A Tesla deu um passo incomum nesta semana ao publicar sua própria média das estimativas de analistas, ainda mais pessimista, projetando um recuo de 15%.

As perspectivas para 2026 também pioraram. Há dois anos, analistas previam que a Tesla entregaria mais de 3 milhões de veículos. Essa estimativa média para este ano despencou para cerca de 1,8 milhão.

“Os investidores da Tesla estão focados em como a empresa pode parecer daqui a cinco, 10, 15 anos, e acabam descontando bastante o que veem no curto prazo”, disse Garrett Nelson, analista de ações da CFRA Research. “A questão é se isso pode se sustentar, especialmente quando achamos que os ventos contrários ficarão mais evidentes nos resultados financeiros.”

Mesmo para os padrões de Musk e da Tesla, dois nomes sinônimos de turbulência, 2025 foi um ano particularmente mais conturbado.

As vendas de veículos começaram mal, em parte porque a empresa reconfigurou as linhas de produção em todas as suas fábricas para o Model Y redesenhado, seu carro mais popular. Outro fator importante foi a forte reação negativa ao trabalho do CEO para o presidente dos EUA, Donald Trump.

No início de abril, quando Musk passou a confrontar publicamente membros do governo por causa da política tarifária, as ações da Tesla já haviam caído 45% no ano.

Musk impulsionou a recuperação ao se afastar do governo e voltar a um objetivo antigo: lançar um serviço de transporte por aplicativo com carros que, segundo ele, acabarão sendo autônomos.

Em junho, a Tesla lançou em Austin, no Texas, um serviço de robotáxi apenas para convidados, com operadores de segurança a bordo supervisionando cada Model Y que transportava fãs de Musk pela capital americana. Embora os veículos tenham violado leis de trânsito já no primeiro dia – chamando a atenção de um regulador federal que abriu múltiplas investigações sobre os sistemas de condução da empresa –, os investidores minimizaram as preocupações com segurança.

Em setembro, o conselho da Tesla propôs um novo pacote de remuneração para Musk, oferecendo um pagamento potencialmente avaliado em US$ 1 trilhão, condicionado a metas como a entrega de milhões de robotáxis. Pouco depois, a virada estava completa: as ações da Tesla passaram a acumular alta no ano.

Quando o papel fechou em um novo recorde histórico em 16 de dezembro, a empresa havia acrescentado mais de US$ 915 bilhões em valor de mercado em pouco mais de oito meses.

Mas, enquanto as perspectivas dos robotáxis da Tesla encantam investidores, os compradores de carros têm sido cautelosos.

O próprio Musk reconheceu as dificuldades para convencer consumidores a adquirir o que a Tesla comercializa como Full Self-Driving (FSD), um conjunto de recursos que ainda exige supervisão humana. Alegações de que a Tesla estaria enganando consumidores na Califórnia ao exagerar as capacidades de direção automatizada podem levar o estado a suspender a licença de vendas da empresa por 30 dias no início deste ano.

A tentativa da Tesla de se diferenciar no concorrido mercado chinês de veículos elétricos com funções de assistência ao motorista também não tem surtido efeito, já que empresas como BYD e Xiaomi oferecem sistemas semelhantes como itens de série.

Em grande parte devido às vendas muito superiores da BYD na China e ao ganho de fôlego na Europa, locais onde a Tesla não conseguiu aprovação regulatória para o FSD, analistas esperam que a montadora de Shenzhen tenha vendido mais veículos totalmente elétricos no mundo pelo quinto trimestre consecutivo.

O que vem pela frente

Após uma queda anual amplamente esperada nas vendas, a segunda consecutiva, a Tesla enfrenta mais obstáculos em 2026. Os EUA deixaram de oferecer créditos fiscais federais para compras e arrendamentos de veículos elétricos, o que Musk alertou que pode resultar em “alguns trimestres difíceis”.

Alguns veem um lado positivo no recuo do apoio de políticas públicas nos EUA, que levou grandes fabricantes a reduzir investimentos em veículos elétricos. A Ford Motor disse no mês passado que espera registrar cerca de US$ 19,5 bilhões em encargos relacionados ao abandono de projetos de veículos elétricos e baterias que estavam destinados a dar prejuízo.

Musk encerrou o ano alimentando expectativas em torno do Cybercab, um carro compacto de dois lugares com portas tipo “borboleta”. Embora o protótipo apresentado no fim de 2024 não tivesse volante nem pedais, a presidente do conselho da Tesla, Robyn Denholm, disse à Bloomberg News em outubro que a empresa venderá o veículo com esses componentes se os reguladores exigirem.

“Os investidores compraram totalmente a visão autônoma dele, o que vem em boa hora, já que o negócio de veículos elétricos da Tesla provavelmente ficará estável ou crescerá até 5% no próximo ano”, disse Gene Munster, sócio-diretor da Deepwater Asset Management. “Neste momento, Elon só precisa que o negócio de carros se estabilize ao longo do próximo ano para satisfazer os investidores.”