A marca suíça de calçados On, que produz o modelo “The Roger”, desenvolvido com a ajuda do lendário tenista, acaba de ser autorizada a usar a cruz suíça nos tênis vendidos no país — apesar de serem fabricados a mais de 11 mil quilômetros de distância, na Ásia.
Até agora, pelas regras de “Swissness”, a cruz branca sobre fundo vermelho era reservada exclusivamente a produtos feitos na Suíça, garantindo sua origem e servindo como símbolo de qualidade da manufatura suíça. Para utilizá-la, as empresas precisavam destinar ao menos 60% dos custos de produção ao país e realizar ali uma etapa essencial da fabricação.
Mas o Swiss Federal Institute of Intellectual Property decidiu, em meados de março, mudar essa prática. Com efeito imediato, empresas que desenvolvem seus produtos na Suíça também poderão adicionar a cruz suíça a eles.
“O instituto está alterando sua prática anterior para que operações específicas, como ‘engenharia suíça’, possam ser marcadas com a cruz suíça”, afirmou o órgão em comunicado enviado à Bloomberg.
O regulador insiste que o que mudou foi a interpretação da regra sobre o uso da cruz suíça — não a lei em si. A decisão veio após constatar que empresas suíças têm maior incentivo para produzir no exterior devido a “mudanças no ambiente de política comercial”, mas desejam manter pesquisa e desenvolvimento no país.
O debate sobre “Swissness” na manufatura já dura anos. Ironicamente, foi a decisão surpresa de Donald Trump de impor tarifas de 39% sobre importações suíças aos EUA — depois reduzidas — que provavelmente ajudou a acelerar o processo, segundo o advogado Jürg Simon.
Com a nova prática, inovação e criatividade “feitas na Suíça” passam a ser tratadas da mesma forma que a produção, disse Simon, co-chefe de propriedade intelectual do escritório Lenz & Staehelin.
A On, cujos tênis são populares entre profissionais de tecnologia e finanças nos EUA — seu principal mercado —, é vista como um caso de sucesso da engenharia suíça.
Fundada em 2010 por três empreendedores suíços, a empresa ganhou tração inicialmente no mercado doméstico antes de se expandir pela Europa e pelos EUA, destacando-se das concorrentes com suas solas tubulares características.
Em 2019, Federer investiu cerca de US$ 50 milhões por uma participação minoritária na empresa. Hoje listada em Nova York, a On vale cerca de US$ 11 bilhões, ajudando Federer — cuja fatia vale centenas de milhões — a se tornar bilionário.
Com sede em Zurique, a empresa comemorou a decisão. Segundo comunicado, ela “reflete uma compreensão moderna de ‘Swissness’ e reconhece a realidade da criação de valor contemporânea: a força da economia está não apenas na manufatura, mas também em inovação, pesquisa, desenvolvimento e design”.
O debate sobre o que significa “feito na Suíça” frequentemente se concentra na indústria relojoeira, onde fabricantes de relógios caros costumam diferenciar componentes feitos na Ásia de produtos “montados” na Suíça.
Para que um relógio seja considerado suíço, atualmente é necessário que o mecanismo seja produzido localmente, que o relógio seja montado na Suíça e que a inspeção final ocorra no país — além de cumprir o mínimo de 60% dos custos de fabricação no território suíço.
A Breitling, conhecida por seus relógios robustos de metal, não espera uma mudança significativa das atividades principais para fora da Suíça, disse o CEO Georges Kern.
“Design, engenharia, montagem e controle de qualidade permanecerão na Suíça para qualquer marca de luxo séria”, afirmou.
Sobre a evolução do conceito de “Swissness”, Kern disse que se trata de um equilíbrio delicado: alguma flexibilidade pode refletir a realidade global, mas o setor precisa evitar diluir o rótulo.
“Ele continua sendo um dos maiores ativos da nossa indústria.”
Desafio legal?
A nova prática ainda pode ser contestada judicialmente, segundo Simon — e ao menos um fabricante parece disposto a fazê-lo.
A fabricante suíça Kuenzli SwissSchuh se opõe à decisão, mesmo podendo se beneficiar dela. A empresa produz na Albânia e em Portugal, mas seu CEO, Roberto Martullo, disse que a nova regra vai “desvalorizar severamente” o selo “Swiss Made”.
O modelo Kuenzli Icona, que lembra uma versão mais refinada do Adidas Samba — com cinco listras em vez de três —, é vendido por €299 (US$ 345). Martullo afirmou que pretende “esgotar todos os meios legais” para reverter a decisão, segundo publicação no LinkedIn.