O InvestNews apurou que a empresa já começou a perder médicos, enquanto fornecedores e potenciais parceiros vêm demonstrando maior cautela em relação à companhia devido ao seu perfil de crédito.
Também pesa a falta de clareza sobre a exposição da Oncoclínicas ao Banco Master. A instituição de Daniel Vorcaro chegou a deter 15% da companhia – que, por sua vez, já teve R$ 480 milhões aplicados em CDBs do banco.
“As pessoas estão muito reticentes quando se fala em Oncoclínicas, por causa desse envolvimento com o Master. A situação ainda não está clara, então empresas com compliance mais forte não vão se arriscar [a fazer negócios com a rede de clínicas]”, disse uma pessoa próxima ao negócio.
A incerteza sobre a governança surgiu quando a Oncoclínicas já operava sob pressão financeira: a companhia se endividou para financiar as aquisições que sustentaram seu crescimento. No terceiro trimestre de 2025, a dívida ali equivalia a 4,2 vezes o lucro operacional dos últimos 12 meses.
Em novembro, a empresa fez um aumento de capital de R$ 1,4 bilhão para reduzir essa alavancagem. É que, pelas cláusulas contratuais com os credores, chamadas covenants, o índice não poderia ultrapassar 3,5 vezes. Acima do teto, a companhia poderia ter de renegociar a dívida, oferecer mais garantias ou até antecipar o vencimento dos empréstimos.
Um executivo de uma fornecedora de equipamentos médicos afirmou que, embora haja demanda, sua empresa evitou avançar de forma mais agressiva na parceria com a Oncoclínicas por conta da preocupação com o risco de crédito.
Outro executivo, de uma empresa conecta que fornecedores de medicamentos a redes de serviços médicos, diz que Oncoclínicas sempre se valeu do seu tamanho para alongar prazos. Mas que agora as empresas negociam as condições de pagamento com a rede de forma mais dura.
Nesse contexto, cresceu a expectativa em torno de Camille Faria, anunciada como vice-presidente executiva no último dia 4. A executiva ocupará uma espécie de supercargo: será responsável pelas diretorias corporativas e de negócios.
Figura central na reestruturação da Americanas após a crise bilionária da varejista, Faria também atuou na primeira recuperação judicial da Oi. Para fontes ouvidas pelo InvestNews, essa trajetória lhe dá credenciais para liderar o processo de ajuste na Oncoclínicas e a coloca como possível sucessora do fundador Bruno Ferrari, atual CEO.
A companhia anunciou em janeiro a contratação de uma consultoria, a Spencer Stuart, com a missão de buscar um substituto para Ferrari. De acordo com a Oncoclínicas, o processo está “em fase avançada”.
Menos médicos
Mantido o cenário atual, o mercado começa a vislumbrar a possibilidade de a rede, hoje líder no mercado ambulatorial de oncologia, perder sua vantagem sobre a concorrência.
Em um relatório de setembro de 2025, o BTG Pactual avalia que um dos maiores diferenciais da companhia é seu corpo clínico: ela emprega 18% dos oncologistas do Brasil.
Mas talvez ela não mantenha essa proporção por muito tempo. Segundo o BTG, as dificuldades financeiras da empresa têm levado médicos a buscar oportunidades em concorrentes – e a tendência pode se intensificar.
Duas pessoas ouvidas pelo InvestNews confirmaram essa movimentação. Uma das fontes diz que, para equilibrar as contas, a Oncoclínicas também passou a rever “alguns parâmetros da remuneração dos médicos”, o que teria gerado insatisfação maior entre os profissionais.
Ainda segundo o BTG, a operação de oncologia da Rede D’Or tende a ser a mais beneficiada neste momento, sobretudo em São Paulo, Minas, Rio, Bahia e no Distrito Federal – onde a sobreposição com a Oncoclínicas é maior e a Rede D’Or teria mais espaço para atrair médicos da concorrente.
A expansão feita desde o IPO em 2021 dá, porém, uma vantagem ao grupo. Em várias cidades de médio porte, a Oncoclínicas domina o mercado por ser a única opção relevante. Essa exclusividade geográfica atua como uma barreira de entrada para concorrentes e dificulta a saída dos médicos, já que eles não teriam muitas alternativas de infraestrutura de alto nível na mesma região para onde migrar, observa um executivo do setor.
Capital aberto, gestão fechada
Se a frente médica começa a registrar mais baixas só agora, no alto escalão a rotatividade já era algo comum. De acordo com uma das pessoas familiarizadas com a empresa, gerentes e diretores raramente chegam a dois anos de companhia.
No cerne das decisões desde a fundação, Bruno Ferrari é descrito nos bastidores como um médico visionário, mas um gestor centralizador e de trato difícil. Esse perfil teria alimentado a rotatividade crônica entre os executivos.
“Na prática, é uma empresa de capital aberto com administração familiar”, disse uma das fontes.

Segundo pessoas que trabalharam na companhia, Ferrari conduz a gestão com base na confiança pessoal e em relações regionais. Mineiro, ele se aproximou do que algumas pessoas descreveram como “o círculo de Minas Gerais”: Daniel Vorcaro, do Master, e Lucas Kallas, empresário à frente da Cedro Mineração, além de sócio da gestora Latache.
A amizade trouxe o Master e a Latache para a base acionária da Oncoclínicas. “Foi aí que começou o problema de governança da companhia”, diz um ex-diretor. Segundo pessoas ouvidas pelo InvestNews, a empresa passou a fechar contratos, como os de serviço de comunicação, acima dos valores praticados normalmente. Também nesse período aplicou parte do caixa em CDBs do Master – investimento que só se tornou público em outubro quando tentou a repactuação do valor.
Com a liquidação do Master, no fim de 2025, 8,7% das ações da Oncoclínicas foram transferidas ao Banco de Brasília (BRB). A empresa, no entanto, tenta na Justiça reaver os 15% que o Master detinha ali.
Hoje, a Latache é a segunda maior acionista da empresa, com 14,6% das ações – só atrás do fundo Josephina III, do Goldman Sachs, que detém 18,3%.
Uma tese forte – e os interessados nela
A Oncoclínicas cresceu fincada numa premissa cientificamente irrefutável: à medida em que cresce a expectativa de vida e a população envelhece, casos de câncer tendem a aumentar. A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2050, serão diagnosticados globalmente 35 milhões de casos de câncer – uma alta de 77% em relação a 2022.
Fundada em 2010, a companhia ajudou a popularizar no Brasil o tratamento de câncer em clínicas próprias, fora de hospitais – modelo predominante no exterior. E passou a ser vista como referência em inovação no ramo: em 2014, firmou uma parceria com o Dana-Farber Cancer Institute, um centro oncológico de referência em Boston, afiliado à faculdade de medicina de Harvard.

Para lidar com o aperto financeiro, a Oncoclínicas tirou o pé da operação na Arábia Saudita, inaugurada em agosto de 2025 em uma joint venture com o grupo Al Faisaliah. Também interrompeu projetos de hospitais e colocou ativos à venda, mas tem tido de lidar com um ambiente também complexo para outros agentes do setor de saúde. A Unimed URFJ, por exemplo, uma de suas principais parceiras, deixou de pagar serviços e a Hapvida, que havia feito acordo para ficar com um hospital no Rio de Janeiro, desistiu da compra por também estar se reestruturando financeiramente.
Ainda assim, executivos do setor veem a empresa como um negócio com fundamentos sólidos e reconhecida pela qualidade da assistência médica. Por isso, fundos especializados em ativos sob estresse acompanham o caso de perto, de olho numa participação societária.
Um dos potenciais interessados é a IG4, de Paulo Mattos. O InvestNews apurou que a gestora começou uma espécie de auditoria. O IG4 é dono da Opy Health, tem experiência no setor de saúde. O entendimento de pessoas próximas às conversas é de que “existem melhorias operacionais muito importantes a serem implementadas”, incluindo modernização de prédios e equipamentos.
Ainda de acordo com uma das fontes, o Goldman está de saída e a Latache não teria condições de aumentar sua fatia. Por isso, o nome da IG4 passou a ser bem recebido entre outros acionistas, como o Santander, dono do fundo Geribá, apurou o InvestNews.
A gestora também tem proximidade com a nova vice-presidente: Camille era apontada como um possível nome para comandar a Braskem, onde a IG4 tem avançado no processo de aquisição da fatia da Novonor.
Procurado, Bruno Ferrari não respondeu até a publicação desta reportagem. A assessoria da Oncoclínicas não quis comentar. O IG4 não respondeu.