A gestora americana MAK Capital, acionista relevante da Oncoclínicas, pediu a convocação de uma assembleia geral extraordinária (AGE) para destituir o atual conselho de administração, eleger um novo colegiado e rediscutir os rumos da empresa de tratamento oncológico em meio à crise de liquidez e às negociações com Porto e Fleury para formação de uma nova companhia.

O InvestNews teve acesso à carta enviada pelo fundo, que detém 6,305% do capital da rede de oncologia.

No documento, a gestora americana afirma que a companhia precisa de uma solução imediata para atravessar a pressão de caixa e de vencimentos no curto prazo — e propõe um aporte de até R$ 500 milhões como uma espécie de empréstimo-ponte para dar fôlego à operação enquanto uma saída mais ampla é negociada.

A MAK sustenta que sua proposta não é uma alternativa antagônica ao negócio em discussão com Porto e Fleury, mas um complemento. A tese do fundo é que uma transação estratégica dessa complexidade não resolve, por si só, os problemas urgentes de liquidez da companhia, que hoje enfrenta vencimentos próximos, discussões com credores e sinais de deterioração operacional.

Procurada pelo InvestNews, a MAK Capital disse que não iria comentar.

Na carta, o fundo pede que a AGE delibere sobre a situação econômico-financeira da empresa, a destituição de todos os membros do conselho, a fixação do número de cadeiras do órgão, a eleição de novos conselheiros e a escolha de presidente e vice-presidente do colegiado.

A iniciativa escancara a tensão acionária em torno da companhia em um momento em que a Oncoclínicas tenta costurar, ao mesmo tempo, uma negociação societária complexa e uma sobrevivência financeira de curtíssimo prazo.

A empresa já estava em situação delicada no fim de setembro de 2025 (data do último balanço divulgado), com dívida líquida de cerca de R$ 4,2 bilhões, passivo circulante de R$ 2,7 bilhões, prejuízo acumulado superior a R$ 2 bilhões, redução relevante de caixa e geração operacional negativa. Os números do quarto trimestre serão em tese divulgados no próximo dia 30.

Em novembro, a companhia levantou cerca de R$ 1,4 bilhão em aumento de capital, operação apresentada ao mercado como forma de reforçar a liquidez e reduzir a alavancagem.

Para a MAK, porém, o novo conselho, eleito em janeiro deste ano, não apresentou desde então um encaminhamento concreto e factível para superar os vencimentos de curto prazo e proteger a operação.

Desde o início de março, a Oncoclínicas passou a discutir com credores financeiros a prorrogação de pagamentos de principal e juros, além da obtenção de waivers (dispensa de obrigação) diante do risco de descumprimento de índices financeiros e de inadimplência em outras dívidas.

A companhia convocou assembleias de debenturistas de cinco emissões diferentes, além de papéis emitidos por subsidiárias, para deliberar sobre esses pedidos.

Busca por solução

Na leitura do fundo americano, esse quadro mostra que a companhia precisa de uma solução imediata para evitar uma escalada do problema.

A carta menciona risco de vencimento antecipado das debêntures, eventual cross-default e dificuldades já perceptíveis na operação, com atrasos a fornecedores e reclamações de pacientes sobre interrupção ou adiamento de tratamentos.

Foi nesse contexto que a Porto e, mais recentemente, o Fleury entraram na negociação para criar uma nova empresa de oncologia com os melhores ativos da Oncoclínicas.

De acordo com o desenho divulgado em fato relevante, a operação prevê a transferência para uma “NewCo” (nova companhia) de ativos e operações ligados às clínicas oncológicas da companhia — consideradas a “joia da coroa” do grupo —, além de até R$ 2,5 bilhões em endividamentos e passivos.

Porto e Fleury investiriam juntos R$ 500 milhões nessa estrutura por meio de uma holding controladora. Além disso, a proposta prevê a emissão de R$ 500 milhões em debêntures conversíveis em ações, com vencimento em 48 meses e remuneração de 110% do CDI.

Segundo o teor da carta, a crítica da MAK não é ao racional estratégico da transação em si mas, sim, à forma como ela vem sendo negociada.

O fundo argumenta que a companhia tenta discutir um M&A transformacional sob forte pressão de liquidez, com dívida que vence no curto prazo e necessidade de negociar com credores, o que enfraquece seu poder de barganha.

No documento, a gestora afirma que os fatos relevantes divulgados até agora não permitem avaliar adequadamente a conveniência da operação. Também diz que pode deixar valor negativo na empresa remanescente listada na B3.

Essa crítica se apoia em uma conta que circula entre investidores e pessoas próximas à negociação, segundo apurou o InvestNews com fontes próximas.

Se o aporte de R$ 500 milhões de Porto e Fleury implicar um valuation de cerca de R$ 1 bilhão para a fatia da Oncoclínicas na nova empresa, mas algo próximo de R$ 1,5 bilhão em dívida permanecer na companhia listada, a “casca” remanescente passaria a concentrar ativos menos atraentes e negócios que hoje queimam caixa, como hospitais já colocados à venda, além de um passivo superior ao valor implícito dos ativos que sobrariam.

A leitura de críticos da operação — com conhecimento da Oncoclínicas — ouvidos pelo InvestNews é que a companhia pode acabar aceitando vender o controle do seu principal ativo em uma situação de fragilidade financeira, o que tende a comprimir o valor da negociação.

A MAK também mira a condução do processo pelo atual conselho. O fundo afirma que a deliberação sobre o acordo com a Porto foi aprovada por maioria, mas com votos divergentes de dois conselheiros independentes, e sustenta que essas manifestações deveriam ter sido divulgadas ao mercado.

O embate ocorre em uma base acionária já fragmentada.

Os principais acionistas da Oncoclínicas hoje são a americana Centaurus Capital, com 18,32% do capital, a Latache, com 14,62%, a própria MAK, com 6,31%, e a Geribá Participações, com 5,90%. Há ainda uma fatia de 8,68% em disputa ligada ao imbróglio envolvendo o Banco Master e o BRB.

No conselho eleito em janeiro, a chapa ligada à Latache ficou com cinco assentos: Marcelo Gasparino da Silva, na presidência do colegiado, Marcel Cecchi, Marcelo Curti, Eduardo Soares do Couto Filho e Bruno Ferrari, vice-presidente – o médico é fundador e ex-CEO da empresa.

Os dois assentos remanescentes ficaram com nomes ligados ao bloco do Goldman Sachs, que teve voto contrário à operação com a Porto.

Ao pedir a convocação da assembleia, a MAK tenta reposicionar essa correlação de forças e defender uma solução que, na sua visão, ataque primeiro a urgência financeira da companhia, antes de sacramentar uma operação estrutural.

O fundo diz na carta que está disposto a contribuir com até R$ 500 milhões em novos recursos no curto prazo, mas condiciona esse compromisso à substituição do atual conselho.

O objetivo seria ganhar tempo para a Oncoclínicas, além de caixa para reorganizar a operação, negociar melhor seu endividamento e discutir em bases menos pressionadas a transação com Porto e Fleury — ou qualquer outra alternativa estratégica.