No começo de 2025, a Tramontina estava diante de um cenário complicado: custos industriais elevados, concorrência internacional mais agressiva e necessidade de rever estruturas de governança colocaram a companhia, uma das mais tradicionais da indústria brasileira, diante de decisões estratégicas inéditas em seus 114 anos de história.

Pela primeira vez, a Tramontina inaugurou uma fábrica fora do Brasil, rompendo com um modelo historicamente concentrado na Serra Gaúcha. Ao mesmo tempo, separou o conselho de administração da diretoria executiva e colocou um representante da quarta geração da família fundadora na presidência da companhia.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do ativo construído pelas famílias Tramontina e Scomazzon. Em 2024, a empresa faturou R$ 9,6 bilhões e manteve um portfólio com mais de 22 mil itens, distribuídos entre utensílios de cozinha, panelas, talheres, móveis, ferramentas, materiais elétricos, eletrodomésticos e até carrinhos de golfe.

Para atender mercados em mais de 120 países, a companhia mantém 23 unidades internacionais entre escritórios e centros de distribuição. O controle, no entanto, segue 100% nas mãos das famílias fundadoras.

As transformações do negócio centenário

Em março de 2025, a Tramontina inaugurou sua primeira fábrica fora do Brasil, na cidade de Hubballi, na Índia, em parceria com a companhia local Aequs. A unidade tem capacidade para produzir até 400 mil panelas de alumínio por mês e atende tanto ao mercado interno indiano quanto a outros países da região.

Paralelamente, a empresa iniciou um projeto para estudar a construção de uma fábrica no México.

As transformações marcam uma inflexão em um grupo que, por décadas, baseou sua competitividade na exportação de produtos fabricados no Brasil. Agora, a Tramontina busca reduzir riscos logísticos e tarifários e competir mais fortemente com outras empresas globais que vêm regionalizando suas operações.

Os movimentos industriais ocorrem no mesmo momento em que a Tramontina passou por uma reorganização de governança. Até 2024, os membros do conselho de administração acumulavam funções executivas. A partir de 2025, essas instâncias foram formalmente separadas. A presidência executiva passou a ser ocupada por Marcos Tramontina, marcando a chegada da quarta geração ao comando do dia a dia da empresa.

O desafio agora é equilibrar tradição e profissionalização. A Tramontina busca preservar uma cultura familiar considerada, internamente, um ativo estratégico, ao mesmo tempo em que adapta sua estrutura a uma operação global, mais complexa e pressionada por margens.

As tradições da Tramontina

O coração da operação continua no Brasil, especialmente na Serra Gaúcha, onde a história da empresa teve início. A Tramontina mantém oito fábricas no país, a maioria no Rio Grande do Sul, organizadas em um modelo pouco comum entre grupos industriais desse porte. 

Cada unidade funciona quase como uma empresa independente, com metas próprias, resultados segregados e autonomia para redesenhar processos e buscar ganhos de eficiência. A lógica é descentralizada, mas conectada por uma cultura corporativa fortemente marcada pelo histórico familiar.

Fundada em 1911 por Valentin Tramontina, imigrante italiano que abriu uma pequena ferraria em Carlos Barbosa, a empresa começou prestando serviços para indústrias locais e fabricando ferragens e utensílios simples. Em 1925, Valentin passou a produzir canivetes de forma artesanal, atividade que se tornaria a base do negócio.

Poucos anos depois, uma sequência de tragédias quase interrompeu essa trajetória. Entre o fim da década de 1930 e o início da década de 1940, Valentin e dois de seus três filhos morreram em um intervalo de apenas dois anos. Restaram Elisa De Cecco, viúva do fundador, e o filho caçula, Ivo, então com 14 anos. Foi Elisa quem assumiu o comando da empresa, que à época contava com apenas 13 funcionários, e garantiu sua sobrevivência durante os anos da Segunda Guerra Mundial.

Anos mais tarde, Rui Scomazzon assumiu a área administrativa do negócio, tornou-se sócio e deu início à sociedade entre as duas famílias, que se mantém até hoje.

A parceria entre Ivo Tramontina e Rui Scomazzon, formalizada em 1949, foi decisiva para a profissionalização da empresa. Nas décadas seguintes, eles abriram novas fábricas e investiram em tecnologia. 

Loja da Tramontina em fábrica de Farroupilha, no Rio Grando do Sul. Foto: Getty Images

A grande virada, porém, aconteceu quase por acaso, nos anos 1970. Ao importar um grande volume de aço inox japonês para fabricar canivetes e facões, os sócios se viram com material excedente. A solução veio com a ajuda do engenheiro italiano Mario Bianchi, que sugeriu utilizar o inox para produzir talheres e baixelas com design inspirado no padrão europeu.

Em 1971, a Tramontina inaugurou uma fábrica em Farroupilha dedicada exclusivamente à produção de talheres. O movimento marcou o início da expansão do portfólio e do posicionamento que transformaria talheres e panelas de inox no principal carro-chefe da marca.

A sucessão seguinte começou a ser desenhada ainda nos anos 1980, com destaque para Clóvis Tramontina, filho de Ivo. Com perfil comercial agressivo, Clóvis foi responsável por levar a marca às grandes lojas de departamento de São Paulo e, posteriormente, ao mercado internacional. Ele assumiu a presidência em 1993 e permaneceu no cargo por quase três décadas, período de maior expansão da companhia.

Hoje, o comando está dividido entre as famílias no conselho de administração, presidido por Eduardo Scomazzon, filho de Rui. Marcos Tramontina, presidente executivo da companhia, é filho de Clóvis.

Com um novo arranjo de governança e decisões estratégicas mais ousadas, a companhia entra numa fase decisiva. Resta saber se sua panela corporativa seguirá resistente o suficiente para atravessar mais uma geração.

O InvestNews procurou a Tramontina, mas a empresa não concedeu entrevista.