Por mais de uma década, foi o acordo que o bilionário de mineração Ivan Glasenberg mais buscou: juntar a Glencore — o enorme grupo de comércio e mineração de commodities que ele construiu — com o gigante do setor Rio Tinto.

Durante grande parte do mês passado, parecia que Glasenberg finalmente conseguiria seu objetivo. As duas empresas estavam envolvidas em negociações de fusão pela quarta vez pelo menos, e quase todos os envolvidos concordavam que nunca tinham estado tão sérios. E então, de repente, com o prazo para a Rio apresentar uma oferta firme se aproximando, tudo desmoronou em menos de 24 horas.

Os dois lados conversaram até o último minuto na quinta-feira (5), tentando encontrar um consenso sobre o preço, antes de, por volta das 15h, horário do Reino Unido, a Rio decidir encerrar as negociações. A Glencore mantinha sua demanda de 40% da empresa combinada, e os executivos perceberam que prolongar as conversas seria perda de tempo.

Este relato sobre como o megaacordo de US$ 240 bilhões do setor de mineração desmoronou baseia-se em conversas com mais de meia dúzia de pessoas familiarizadas com o processo, que pediram para não ser identificadas ao discutir negociações confidenciais. Porta-vozes da Rio e da Glencore se recusaram a comentar.

A ruptura é a mais recente em uma série de tentativas de aquisição na indústria de mineração, e os riscos eram altos para executivos de ambos os lados quando as negociações começaram em meados de dezembro.

A Glencore havia visto sua produção de cobre cair mais de 40% ao longo de uma década, e estava no processo de convencer investidores de que havia revertido o desempenho do negócio à medida que os preços do metal industrial crucial atingiam máximas históricas. A Rio Tinto — que se considera um dos operadores mais eficientes do setor — enxergava uma oportunidade de desbloquear o crescimento da carteira de cobre da Glencore. Sem o acordo, seu potencial de lucro continuaria atrelado ao mercado de minério de ferro, cujos preços estavam caindo devido ao aumento da oferta e à queda da demanda.

A combinação das duas empresas teria permitido à Rio destronar a BHP Group como a maior mineradora do mundo, adicionando às gigantescas operações de minério de ferro da Rio os enormes negócios de carvão e cobre da Glencore, além de sua unidade de trading de commodities. Crucialmente para a Rio, isso teria dobrado sua produção de cobre — potencialmente estabelecendo-a como a maior produtora de cobre do mundo e acrescentando um milhão de toneladas de crescimento futuro.

Tentativas anteriores de integrar os negócios agressivos de mineração e trading da Glencore à cultura corporativa conservadora da Rio haviam fracassado rapidamente, mas com rivais também buscando grandes aquisições de cobre, os riscos da inação cresciam e a oportunidade se tornava grande demais para ser ignorada.

O CEO da Glencore, Gary Nagle, que assumiu o cargo de Glasenberg em 2021, lançou as bases no verão passado ao contatar informalmente Simon Trott, veterano da Rio Tinto que acabara de assumir como CEO. Após se ambientar, as negociações formais entre os dois lados começaram em dezembro, com o presidente da Rio, Dom Barton, também desempenhando papel de liderança.

Esse período de conversas discretas terminou no início de janeiro, quando o Financial Times reportou que as negociações estavam em andamento. Isso iniciou a contagem regressiva: segundo as regras de aquisição do Reino Unido, a Rio tinha até as 17h, horário de Londres, de 5 de fevereiro, para fazer uma oferta, desistir ou garantir uma prorrogação.

Nos estágios iniciais, os líderes das duas empresas permaneceram em grande parte de fora, enquanto negociadores e consultores da Rio faziam várias viagens à sede da Glencore, na Suíça, para conduzir a due diligence. Uma tarefa hercúlea, dada a complexidade do negócio da Glencore, que inclui minas, fundições, refinarias e enormes operações de trading e logística.

À medida que o processo avançava, ambos os lados consideravam provável uma prorrogação, dado o volume de trabalho necessário. Não surgiram sinais de alerta na due diligence, e o ponto crítico era o preço que a Rio teria de pagar. Ambos os lados tinham como meta apresentar uma oferta antes do reporte de lucros, previsto para meados de fevereiro.

A Rio trabalhava com a Evercore, liderada pelo veterano britânico Simon Robey, além do JPMorgan Chase & Co. e do Macquarie Group. A Glencore conversou com bancos como Citigroup e Barclays, mas nunca nomeou oficialmente consultores. No entanto, trouxe o experiente negociador Michael Klein, que já havia trabalhado com a Glencore na tentativa fracassada de adquirir a Teck Resources em 2023.

O principal objetivo de Klein era transmitir o valor do negócio da Glencore aos executivos da Rio, enquanto Glasenberg, que continua sendo o maior acionista da empresa, também se envolveu mais ativamente à medida que o prazo se aproximava, parcialmente para tranquilizar a Rio de que ele estava comprometido com o acordo.

Mas com 24 horas antes do prazo, as negociações começaram a azedar. Havia uma percepção crescente dentro da Rio de que a Glencore — e Glasenberg — não cederiam muito na demanda de que os acionistas da Glencore possuíssem cerca de 40% da empresa combinada.

Do lado da Glencore, havia frustração com o fato de a Rio ter vinculado sua oferta aos preços das ações no dia em que o acordo se tornou público. A Glencore acreditava que tal proporção arbitrária não refletia o desempenho passado — nem futuro — das duas empresas.

Enquanto as negociações se estendiam na manhã de quinta-feira, ainda havia esperanças dentro da Rio de que a Glencore mostrasse alguma disposição em reduzir seu preço pedido, e Nagle e Trott conversaram duas vezes na tentativa de romper o impasse. Ainda assim, à medida que o prazo se aproximava, ficou claro que uma prorrogação seria inútil. A última conversa entre Nagle e Trott foi sobre como anunciar aos investidores que o acordo estava encerrado.

A Bloomberg noticiou o fato com menos de duas horas antes do prazo, minutos antes de a Rio divulgar um comunicado afirmando que estava desistindo do negócio. Segundo as regras do Reino Unido, as duas empresas não poderão negociar novamente por pelo menos seis meses, a menos que surja um licitante concorrente ou a Glencore solicite formalmente a reabertura das negociações.

A queda de 7% nas ações da Glencore evidenciou os riscos para seus executivos e investidores, enquanto analistas questionavam se a empresa conseguirá desenvolver seu negócio de cobre por conta própria. Para a Rio, a contínua queda no preço do minério de ferro foi um lembrete dos riscos de se afastar do maior acordo da indústria, e logo surgiram especulações sobre a possibilidade de um concorrente apresentar uma oferta.

Na sexta-feira, as ações da Glencore subiram 1,3%, enquanto as da Rio permaneceram praticamente inalteradas, após terem caído 2,6% na quinta-feira, quando a empresa desistiu do negócio.

“Sempre acreditamos que a BHP seria a candidata mais provável a intervir”, disse o analista Ben Davis, do RBC Capital Markets, em nota por e-mail. “Existe a chance de a BHP agora entrar, mas o desafio será explicar aos investidores australianos conscientes do valor como eles veem o valor da Glencore quando a Rio Tinto não viu.”