A patente da semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy (medicamentos da Novo Nordisk), caiu oficialmente nesta sexta-feira (20) no Brasil, como programado, e deu largada a uma nova corrida da indústria farmacêutica por um mercado que já movimentou cerca de R$ 10 bilhões em 2025 e que pode chegar a R$ 15,6 bilhões em 2026, segundo estimativas do BTG Pactual.

A queda da patente, porém, não significa que novas canetas chegarão imediatamente às farmácias. O próximo passo depende da Anvisa, que analisa uma fila de pedidos de registro. Há pelo menos nove petições relacionadas a medicamentos sintéticos ligados à semaglutida sob análise da agência.

Cimed, Hypera e Ávita Care estão entre elas. A Eurofarma fechou parceria com a Novo Nordisk, dona do Ozempic, para fazer a distribuição de dois medicamentos à base de semaglutida e, por isso, saiu da fila de análise.

Mas entre as empresas mais adiantadas está a EMS, farmacêutica da família Sanchez, que tenta transformar a experiência recente com a liraglutida em vantagem competitiva no pós-patente.

Automação industrial: braço robótico sobre esteira com cilindros azuis sendo processados.
Produção de Wegovy em fábrica da Novo Nordisk . Foto: Charlotte de la Fuente/Bloomberg

A companhia investiu mais de R$ 1,2 bilhão em sua planta de peptídeos em Hortolândia, no interior paulista, e diz ter capacidade inicial para produzir até 20 milhões de canetas por ano, com possibilidade de expansão.

A EMS afirma que já submeteu à Anvisa o processo de registro de seu medicamento à base de semaglutida, mas não projeta uma data para a produção e a comercialização, que só poderão começar depois do aval regulatório.

No mercado, a expectativa é que essa autorização saia nos próximos meses.

Pessoas próximas aos planos afirmam que a EMS já desenhou um plano para produzir cerca de 1 milhão de canetas de semaglutida entre julho e dezembro deste ano e trabalha com uma faixa de preço ao redor de R$ 500 a R$ 600, algo que, se confirmado, ficaria bem abaixo do patamar atual do Ozempic, que varia entre R$ 963,00 e R$ 1.300,00 por caneta a depender da dosagem.

A empresa larga na frente por já ter testado parte desse caminho. Em agosto do ano passado, a farmacêutica colocou no mercado as canetas de liraglutida Olire e Lirux. Na leitura da própria companhia, dominar a produção local de um análogo de GLP-1 ajuda a encurtar o desenvolvimento da semaglutida quando o sinal verde da Anvisa vier.

“A estrutura para produzir é a mesma. Todo o nosso investimento em peptídeos agora será direcionado para esse próximo passo” afirmou Iran Gonçalves, diretor médico da EMS, em entrevista ao InvestNews no ano passado.

O tamanho da disputa ajuda a explicar a pressa.

Em relatório publicado neste mês, o time de analistas do BTG Pactual calculou que a entrada de genéricos e similares pode adicionar R$ 3,6 bilhões ao mercado brasileiro de GLP-1 – o hormônio produzido no intestino após as refeições que regula os níveis de glicose, estimula a produção de insulina e aumenta a sensação de saciedade – já em 2026, levando o total a R$ 15,6 bilhões.

O banco de investimento trabalha com desconto médio de 40% para os novos entrantes em relação aos produtos de marca e volume adicional equivalente a metade das vendas atuais dos medicamentos de referência.

Até 70% mais barato

A discussão não é só de tamanho mas de formato.

A L.E.K. Consulting avalia o Brasil como um dos primeiros grandes testes do mercado pós-patente de GLP-1, em um ambiente em que o acesso ainda é baixo, o pagamento é majoritariamente do próprio bolso e a principal trava continua sendo o preço. Hoje, esses medicamentos alcançariam só cerca de 2% dos adultos no país.

No cenário traçado pela consultoria, a perda de exclusividade da semaglutida pode reduzir os custos em torno de 70% e deslocar a principal barreira do produto, a oferta para a acessibilidade.

Isso não quer dizer que o mercado vai mudar para a “commodity pura”.

A própria L.E.K. argumenta que o Brasil pode caminhar para se tornar um mercado que avança em duas velocidades: de um lado, com a semaglutida mais barata, que impulsiona volume e amplia acesso; de outro, com produtos de marca e de nova geração que preservam um segmento premium, apoiado em eficácia maior, conveniência e preferência médica.

Esse novo desenho já começa a aparecer nas farmácias. Em recente teleconferência de resultados do quarto trimestre, a RD Saúde disse que ganhou 1,7 ponto percentual de participação de mercado em 2025 e afirmou que os GLP-1 já se tornaram um vetor relevante de crescimento.

A rede também disse que o mercado de GLP-1 no Brasil movimentou cerca de R$ 10 bilhões no ano passado e que os medicamentos dessa classe já representam participação de duplo dígito baixo nas vendas do varejo.

Em relatório publicado em dezembro, analistas do UBS estimavam que o mercado brasileiro de GLP-1 chegaria a quase R$ 20 bilhões em 2026, com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, da Eli Lilly, já assumindo parte importante desse avanço.

A leitura é que o Brasil começa a entrar em um mercado de “dois andares”, em leitura semelhante à da L.E.K. Consulting: a tirzepatida alavanca receita e mix no curto prazo, enquanto a semaglutida tende a ganhar volume com a esperada queda no preço.

Mercado paralelo

Esse processo de transição, porém, não acontece sem ruído.

Enquanto os preços continuam altos e a oferta segue restrita em parte das dosagens, o mercado paralelo ganha espaço. Em relatório anterior, o UBS chamava atenção para a arbitragem de preços entre Brasil e Paraguai, que estimula compras em viagem, importação informal e revenda.

No Brasil, o Mounjaro varia de cerca de R$ 1.400 a R$ 3.000, dependendo da dose; no Paraguai, segundo o banco, a dose de 2,5 mg custaria em torno de R$ 294 e a de 15 mg, perto de R$ 770. Essa diferença abre espaço para atalhos fora do circuito regulado.

Da academia ao guarda-roupa

A discussão também já escapou do balcão da farmácia. A popularização dos GLP-1 pode impactar o varejo alimentar, restaurantes, academias e a moda.

Para a consultoria L.E.K., academias, alimentos proteicos, nutrição funcional e vestuário esportivo aparecem entre os possíveis beneficiados, enquanto snacks, bebidas açucaradas, cerveja e consumo em bares tendem a sentir mais pressão.

O estudo destaca ainda que supermercados podem ver uma troca de mix de vendas, com mais peso para alimentos frescos e proteínas, enquanto redes de alimentação rápida podem até preservar tráfego, mas com tíquete menor.

Em declarações recentes, o CEO do Assaí, Belmiro Gomes, destacou que a varejista tem percebido a queda de volume de vendas de bebidas e doces e até mesmo de arroz. De olho nas mudanças de hábitos geradas pelas “canetas emagrecedoras”, a rede de atacarejo vai inaugurar 25 farmácias, para vender especialmente vitaminas, suplementos e outros medicamentos cuja demanda tem sido impulsionada.

Na moda, o efeito é menos direto, mas existe. A perda de peso pode acelerar a renovação do guarda-roupa, ao mesmo tempo em que afeta curvas de tamanho e aumenta o risco de erro nas encomendas para formação de estoque em grandes redes. A “canetinha” não mexe só com os laboratórios, as farmácias e, claro, as balanças: ela promete alterar padrões de consumo.