O presidente americano Donald Trump afirmou que empresas petrolíferas dos Estados Unidos irão gastar bilhões de dólares para reconstruir a infraestrutura energética deteriorada da Venezuela após a operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro, ex-líder do país. Falta ficar claro, agora, como elas de fato farão isso, diante dos investimentos extremamente elevados necessários para esse fim.

Em pronunciamento ontem, Trump afirmou que fará com que grandes companhias do setor nos EUA entrem na Venezuela, invistam “e consertem a infraestrutura gravemente danificada” de petróleo. “Elas serão reembolsadas”, acrescentou.

Um esforço desse tipo para reconstruir a indústria do petróleo seria praticamente sem precedentes, e Trump deixou muitas questões cruciais sem resposta. Ele não se comprometeu a enviar tropas americanas para ajudar em uma transição, dizendo apenas que seu governo ajudaria a garantir que a infraestrutura petrolífera fosse protegida e melhorada.

Não está claro o quão dispostas gigantes do setor como Exxon Mobil, Chevron, ConocoPhillips e outras estariam a investir somas substanciais em um país governado por uma administração temporária apoiada pelos EUA, sem regras legais e fiscais consolidadas.

Além dos desembolsos bilionários por anos, os baixos preços do petróleo são outro fator de desestímulo para as companhias, segundo especialistas, sobretudo pelo nível de investimento que pode ser necessário. As próprias empresas já comunicaram essas preocupações a autoridades do governo Trump, segundo uma fonte próxima ao tema que falou sob condição de anonimato.

O plano de Trump para a Venezuela está alinhado com sua visão ampla de domínio energético dos EUA, com empresas americanas não apenas impulsionando níveis recordes de produção doméstica de petróleo e gás, mas também exercendo influência global.

O presidente tem dito repetidamente que valoriza preços baixos do petróleo e da gasolina, enquanto busca conter a inflação e enfrentar preocupações com o custo de vida, que devem pesar nas eleições legislativas neste ano. Os preços do petróleo encerraram 2025 com a maior queda anual desde 2020, e o principal benchmark global recuou para perto de US$ 60 o barril.

“Apenas estabilizar a produção existente exigirá bilhões de dólares, mesmo que em valores relativamente modestos, para intervenções em poços, fornecimento de energia, gestão de água e reparos na infraestrutura de exportação”, disse Bob McNally, presidente da Rapidan Energy Group.

A posição da Chevron

A Chevron está em posição privilegiada para ajudar a destravar mais produção de petróleo na Venezuela, já que responde por cerca de 20% da produção do país.

A companhia produz cerca de 140 mil barris por dia na Venezuela hoje e os envia para refinarias na Costa do Golfo sob licença especial do governo dos EUA. A petrolífera negociou uma série de acordos para permanecer no país sob a liderança do ex-presidente Hugo Chávez, nos anos 2000, e continuou operando com autorização americana sob administrações republicanas e democratas.

No sábado (3), a Chevron afirmou em comunicado que segue “operando em total conformidade com todas as leis e regulações aplicáveis” e que está focada na segurança de seus funcionários e na integridade de seus ativos. Até agora, o foco da Chevron tem sido principalmente receber o pagamento de dívidas antigas, e não investir novos recursos para ampliar a produção.

Outras petrolíferas

A Exxon e a ConocoPhillips também têm experiência de atuação na Venezuela, mas deixaram o país após seus ativos terem sido nacionalizados por Chávez, em meados dos anos 2000. A Exxon já afirmou anteriormente que consideraria investir na Venezuela, mas apenas sob as condições adequadas.

“Teríamos que ver como ficariam os aspectos econômicos”, disse o CEO da Exxon, Darren Woods, em novembro de 2025. “Portanto, eu não colocaria isso na lista nem tiraria da lista.”

Uma economia favorável e preços mais altos do petróleo nos próximos anos também poderiam levar outras empresas que hoje estão à margem a reconsiderar operações na Venezuela, se houver sinais de estabilidade e concessões oferecidas.

Quase todas as grandes petrolíferas já foram atraídas pelas riquezas subterrâneas da Venezuela. Ao longo do último século, descobriram que havia muito dinheiro a ganhar, mas também muito a perder. Duas ondas de nacionalização deixaram um gosto amargo para empresas como Shell, Exxon e ConocoPhillips, sendo que as duas últimas ainda aguardam bilhões de dólares em indenizações após a expropriação de seus ativos.

A ConocoPhillips tem “fortes incentivos para retornar” à Venezuela e recuperar os mais de US$ 10 bilhões que lhe são devidos, disse Francisco Monaldi, diretor de política energética para a América Latina da Universidade Rice, em Houston.

No entanto, segundo ele, “é altamente improvável que grandes petrolíferas ocidentais iniciem negociações enquanto não houver estabilidade política que esclareça quem são os principais atores e qual será o arcabouço legal”.

A ConocoPhillips afirmou que está monitorando os desdobramentos na Venezuela e suas possíveis implicações para o fornecimento e a estabilidade energética global, acrescentando que seria “prematuro especular sobre quaisquer atividades comerciais ou investimentos futuros”.

Fluxos incertos

Analistas e especialistas do mercado de petróleo destacam um ponto de atenção relevante na história: se os navios-tanque continuarão transportando petróleo. Diversos navios deram meia volta depois que os EUA lançaram um bloqueio em meados de dezembro para apreender embarcações que transportassem petróleo que ajudasse a financiar o regime de Nicolás Maduro.

Trump disse que o bloqueio ao petróleo permanece em vigor e que os EUA venderão “grandes quantidades” de petróleo a compradores atuais e a clientes adicionais, sem fornecer mais detalhes.

A China, maior compradora de petróleo venezuelano e principal credora do país, condenou os ataques militares dos EUA. Oficialmente, o gigante asiático não recebe petróleo venezuelano desde março, mas dados de fontes e de rastreamento de navios indicam que os fluxos para o país permaneceram robustos no ano passado.

Há também a questão dos ativos de outros países na Venezuela. Empresas como a espanhola Repsol, a italiana Eni e a francesa Maurel et Prom ainda estão presentes no país e são parceiras em projetos de petróleo e gás com a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA).

“Empresas chinesas estão fortemente investidas na infraestrutura venezuelana, em energia e telecomunicações, de modo que esforços para excluir investimentos e operadores chineses do país podem gerar consequências não intencionais”, escreveu Michal Meidan, diretora do Programa de Energia da China no Instituto Oxford de Estudos Energéticos, no LinkedIn.