O PicPay, a fintech da família Batista, protocolou nos Estados Unidos um pedido para realizar sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), revelando que já conta com um investidor disposto a ancorar parte da operação.

Segundo o prospecto preliminar enviado à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), a gestora Bicycle Management, do investidor Marcelo Claure (ex-SoftBank), indicou interesse em investir US$ 75 milhões na oferta.

O PicPay é hoje uma das principais fintechs do país ao lado de Nubank e Banco Inter. Nos nove primeiros meses de 2025, a companhia registrou receita de R$ 7,3 bilhões, alta de 92% na comparação anual, e lucro líquido de R$ 314 milhões, avanço de 82% no período. A plataforma afirma ter cerca de 66 milhões de usuários, dentro de um app que reúne serviços de pagamentos, conta digital, crédito e seguros.

A expectativa da J&F, controladora do PicPay, é arrecadar cerca de US$ 500 milhões por meio de uma oferta primária — ou seja, com os recursos sendo injetados diretamente no caixa da companhia, sem venda de ações pelos atuais controladores.

A intenção é que a operação seja precificada no fim de janeiro, em mais uma tentativa de reabrir a janela para IPOs de companhias brasileiras nos Estados Unidos após um hiato de quase quatro anos.

Caso a operação avance conforme o esperado, o PicPay será listado na Nasdaq. Mesmo após a abertura de capital, o controle permanecerá concentrado na família Batista.

Duas classes de ações

O PicPay adotará uma estrutura de duas classes de ações. Os papéis Classe A, que serão vendidos ao mercado no IPO, darão direito a um voto por ação. Já as ações Classe B, detidas integralmente pela J&F, garantirão dez votos por papel. Com isso, o grupo de Joesley e Wesley Batista seguirá no controle da companhia, uma “controlled company”, nas regras da Nasdaq.

Além da participação no IPO, a Bicycle terá direito a warrants concedidos pela própria J&F, que funcionam como uma espécie de opção de compra.

Esses instrumentos permitirão que a gestora de Claure adquira, no futuro, ações adicionais do PicPay diretamente do controlador, pelo preço do IPO corrigido pela inflação, representando, na prática, um incentivo extra oferecido pelo controlador para garantir a ancoragem da oferta.

Mais uma vez

A nova tentativa de abertura de capital ocorre quase quatro anos depois de o PicPay ter abortado um primeiro plano de IPO, em 2021, em meio à deterioração do cenário macroeconômico. Naquele período, a empresa havia acelerado sua expansão e se alavancado para acessar o mercado, mas a forte alta dos juros no Brasil acabou pressionando o balanço e exigindo uma reestruturação financeira conduzida pela J&F.

A partir de 2023, o grupo reorganizou seus negócios financeiros, concentrou a estratégia de varejo no PicPay, migrou a base de pessoas físicas do Banco Original para o PicPay e realizou aportes de capital de centenas de milhões de reais para reforçar a estrutura de capital da fintech. 

O movimento pavimentou o caminho para a nova tentativa de IPO, agora com uma base mais enxuta, rentável e já ancorada por um investidor institucional.