O problema com o leite infantil contaminado, provocado por um ingrediente adulterado, surgiu num momento em que a maior companhia de alimentos do mundo já enfrentava dificuldades para recuperar suas ações das mínimas de vários anos. Isso aumenta a pressão sobre o novo CEO, Philipp Navratil, e sua equipe para apresentar um plano de recuperação quando o grupo suíço divulgar seus resultados anuais na quinta-feira (19).
É apenas o mais recente revés para a fabricante de marcas como Purina, Nespresso e KitKat, que vem sendo afetada por queda de volumes, custos elevados, demanda volátil e turbulência na gestão. Navratil, executivo de 49 anos com longa trajetória na empresa, e o presidente do conselho Pablo Isla — dupla no comando há menos de seis meses — enfrentam investidores impacientes.
Resultado fraco
A Nestlé deve reportar um 2025 fraco e apresentar uma perspectiva cautelosa para este ano, mas a atenção do mercado estará voltada principalmente ao plano estratégico e a possíveis desinvestimentos.
“A pressão é enorme”, disse o analista Jean-Philippe Bertschy, do Vontobel. “Os resultados anuais tornaram-se quase secundários, já que os investidores estão focados na robustez dos controles de qualidade no caso da nutrição infantil e na atualização estratégica prometida pela nova gestão.”
As ações da Nestlé estão próximas do menor nível em oito anos e, até quarta-feira, acumulavam queda de cerca de 38% em relação ao pico de 2022. No mesmo período, concorrentes como a Danone SA e a Unilever Plc avançaram 32% e 28%, respectivamente.
Embora os papéis tenham se recuperado parcialmente após surgir a avaliação de que o impacto do recall pode ser mais limitado do que se temia, investidores receiam que os problemas sejam sintoma de questões mais amplas na Nestlé.
“Pode indicar foco excessivo em cortar custos e atingir metas trimestrais de curto prazo, em vez de decisões voltadas ao acionista de longo prazo”, afirmou Thomas Kuehne, gestor da LLB Asset Management AG, que detém ações da companhia.
Novas ideias para reacender o crescimento são urgentes, já que o chamado crescimento interno real — métrica-chave para a Nestlé, devido ao seu portfólio de mais de 2.000 marcas — deve permanecer fraco ao menos até o segundo trimestre deste ano, em contraste com os resultados recordes do início da década.
“Recentemente, o crescimento foi impulsionado apenas por preços”, disse Kai Lehmann, da Flossbach von Storch. “A questão é como voltar a aumentar o volume de fato.”
A atualização estratégica pode incluir uma reorganização para simplificar operações. Navratil indicou que pretende concentrar esforços em quatro divisões principais — cuidados com animais de estimação, café, nutrição e saúde, e alimentos e snacks — além de centralizar funções como marketing, área que, segundo analistas, recebeu menos investimentos durante anos de foco na expansão de margens.
Enquanto avança com a venda das divisões de vitaminas e águas, consideradas problemáticas, investidores questionam quais outros ativos podem ser colocados à venda. A alienação de parte da fatia de cerca de 20% na empresa de cosméticos L’Oréal poderia aliviar a dívida — próxima de três vezes o lucro — e sustentar o dividendo, historicamente um pilar das ações.
“Será crucial receber uma atualização sobre unidades com desempenho fraco, redução do endividamento líquido e aceleração do fluxo de caixa livre”, afirmou Bertschy. “O mercado buscará um roteiro preciso, com ações concretas, metas e compromissos mensuráveis.”
A estratégia também pode depender de como Isla — primeiro presidente do conselho vindo de fora da empresa — reorganizará o board, que perdeu vários membros, mais recentemente após a saída do ex-CEO Laurent Freixe em setembro, devido a um relacionamento não divulgado com uma subordinada.
Isla deve propor ao menos dois novos conselheiros na assembleia anual de abril, segundo pessoas a par do assunto.
Embora mais de 60 países tenham sido afetados pelo recall da fórmula infantil, a Nestlé indicou que o impacto não deve ultrapassar 0,5% das vendas do grupo. Ainda assim, pode haver pressão adicional sobre os lucros nos próximos trimestres, devido a gastos imprevistos com logística, fornecimento alternativo e marketing para recuperar a confiança dos consumidores, segundo a Morningstar.
Vale notar que a crise não atingiu apenas a Nestlé. A Danone, o grupo privado Groupe Lactalis e a suíça Hochdorf Nutritec AG também foram impactados pelo mesmo problema de contaminação. Além disso, grandes fabricantes globais de alimentos enfrentam demanda fraca diante do aumento do custo de vida.
Alguns analistas avaliam que a Nestlé pode já ter superado o pior. O consenso de recomendações tornou-se mais otimista recentemente, com metade dos analistas atribuindo recomendação de compra ou equivalente.
Ainda assim, Sarah Simon, do Morgan Stanley — única analista monitorada pela Bloomberg com recomendação de venda — vê as ações como caras diante da expectativa de crescimento de vendas e margens abaixo da média do setor. Para ela, o papel parece “caro” para o que pode entregar aos acionistas.