Dois anos depois, o entusiasmo inicial arrefeceu pelo modelo de US$ 420 mil, que vai de 0 a 60 milhas por hora em 4,4 segundos, e as vendas despencaram — um sinal de que até bilionários estão hesitando na hora de comprar elétricos. A marca de luxo parece caminhar para se alinhar a outras montadoras, recuando de antigas promessas de ser “só elétrica” até o fim da década.
Em entrevista na base da Rolls-Royce em Goodwood, o CEO Chris Brownridge disse que a empresa vai atender ao que os compradores querem — ao mesmo tempo em que amplia o nível de personalização, inclusive com mais recursos para uma rede global de escritórios privados voltados a encontros individuais com clientes.
“Vamos lançar mais Rolls-Royce elétricos, mas eles são Rolls-Royce antes de tudo”, disse Brownridge. “Vemos uma demanda muito forte por V12 — enquanto houver demanda do cliente por esse motor, continuaremos produzindo Rolls-Royce também.”

Foto: Murray Ballard/Bloomberg
Montadoras por toda a Europa vêm reduzindo suas ambições elétricas após uma frustração com a demanda, e a transição para EVs tem sido irregular pelo mundo. No mês passado, a União Europeia suavizou sua pressão por elétricos, na prática abandonando a proibição de vender carros novos com motor a combustão em 2035; e os EUA mudaram de rumo com o presidente Donald Trump.
Depois de um começo forte com o Spectre em 2024, seu primeiro ano completo de vendas, as entregas do modelo caíram 45% nos três primeiros trimestres de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior — enquanto o total de veículos Rolls-Royce subiu 3,3%, segundo uma análise dos resultados do grupo BMW. A participação do Spectre nas vendas totais da Rolls-Royce caiu para menos de um quinto neste ano, ante um terço em todo o ano de 2024.
“Se você olha para um conceito como esse, ele tem uma demanda muito alta no início e depois se estabiliza — e permanece estável ao longo do seu ciclo de vida”, disse Brownridge. “Foi o que vimos com o Wraith e com o Dawn no passado.”
A Rolls-Royce — a montadora de carros de luxo mais bem posicionada em preço médio, excluindo marcas esportivas de baixíssimo volume — não é uma fabricante comum: ao lado de marcas como Ferrari e Bentley, ela representa mais um estilo de vida de luxo do que um meio de transporte.
Controlada pela alemã BMW, a empresa só coloca um carro na linha de produção quando alguém faz um pedido, geralmente com personalizações. O fabricante, alinhado à estratégia da controladora, consegue produzir modelos elétricos e V12 na mesma linha e costuma montar um carro a cada 32 minutos (contra algo como meio minuto em fabricantes de grande volume).
Alguns clientes levam meses para desenhar o carro perfeito.
“É algo para o qual estamos vendo uma demanda enorme”, disse Brownridge na sala de apresentação da empresa, onde os clientes mais fiéis recebem a experiência completa da Rolls-Royce, com um Spectre imponente ao fundo. “Estamos avaliando colocar mais recursos nos nossos escritórios privados.”
A Rolls-Royce está atualmente dobrando o tamanho de sua unidade em Goodwood para dar conta da demanda crescente por modelos sob encomenda. Compradores estão optando por cores mais vivas e interiores chamativos, o que levou à construção de uma nova cabine de pintura na área ampliada. Os extras incluem interiores especiais com entalhes em madeira e os “Starlight Headliners”, com uma constelação escolhida — ou um padrão de fibras ópticas costuradas no teto. Um cliente quis um tom específico de verde-limão para um carro novo depois de ver um sapo daquela cor durante uma trilha na Amazônia.

Atender a esses pedidos ajudou a elevar o preço médio de venda para acima de £500 mil (US$ 673.575), ante cerca de £300 mil uma década atrás. Mais de 20 carros entregues no ano passado custaram pelo menos £1 milhão. A empresa está bem preparada para designs intrincados, com muitos trabalhos ainda feitos à mão. Em uma visita à fábrica em meados de dezembro, um funcionário estava alisando rugas no couro dos bancos usando uma espinha de peixe.
Todos esses toques extras — e o dinheiro que eles trazem — ajudam a Rolls-Royce a compensar a queda global nos gastos com luxo, especialmente na China. Dados da consultoria Jato Dynamics mostram que a Rolls-Royce, assim como rivais europeias, teve vendas fracas na China. Os EUA já eram o maior mercado da companhia, mas se tornaram ainda mais dominantes.
Quanto à desaceleração do Spectre, há provavelmente fatores adicionais. É um cupê de duas portas, mais ligado a desempenho do que o SUV maior Cullinan — e SUVs são populares tanto no mercado de massa quanto entre os mais ricos. Proprietários de Rolls-Royce dificilmente sofrem de “ansiedade de autonomia”, já que rodam, em média, cerca de 6.000 quilômetros por ano. Isso equivale a aproximadamente 11 recargas completas da bateria, disse Brownridge. A montadora não planeja oferecer modelos híbridos plug-in.
Mesmo com a queda do Spectre, uma base sólida de demanda deve se manter, segundo Eric Zayer, que lidera a prática automotiva europeia da Bain & Co.
“Em comparação com esportivos ultraluxo, trens de força elétricos são muito mais atraentes para compradores de limusines, porque entregam a suavidade, a ‘pancada’ e o torque de que eles precisam”, afirmou.
O Spectre atendeu às expectativas, segundo Brownridge. “O que queríamos era demonstrar que, quando e se o mundo se tornar elétrico, a Rolls-Royce ainda consegue produzir o melhor carro do mundo”, disse. “Nossa experiência com o Spectre nos dá confiança em relação ao futuro.”