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Nelson Tanure se tornou alvo das investigações sobre o Banco Master. Na segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga o caso, a Polícia Federal apreendeu o celular de Tanure, cumprindo um mandato de busca e apreensão do STF que também inclui endereços ligados a Daniel Vorcaro, o dono do Master, e seus parentes.

Tanure é conhecido no mercado por comprar empresas em crise e conduzir reestruturações duras. Mas seu modelo de negócios passa por um momento de fragilidade financeira.

A renegociação da dívida da Ligga Telecom, fechada no início de dezembro, escancarou esse problema, que espalhou-se pelos negócios de Nelson Tanure no decorrer do ano passado.

Após não conseguir honrar o vencimento de cerca de R$ 1,2 bilhão em debêntures emitidas para financiar a compra da operadora, em 2020, Tanure obteve um prazo adicional junto aos credores — mas ao custo de aceitar condições duras. Entre elas, a obrigação de buscar a venda de ativos relevantes do seu portfólio, como a própria Ligga e sua posição de controle na Alliança Saúde.

A crise de liquidez do empresário já ganhou eco na Faria Lima, com banqueiros especulando os próximos passos de Tanure. “Vai ser complicado, pois a Ligga é um ativo difícil de vender muito acima do valor da dívida. A Alliança é outro ativo com poucos interessados”, afirma um banqueiro ouvido pelo InvestNews.

A renegociação envolvendo a compra da Ligga fechou um ano que começou com planos ambiciosos de Tanure e que terminou em modo defensivo, com ativos à venda e maior escrutínio do empresário por parte de credores e autoridades.

Ao longo de 2025, Tanure já havia perdido o controle da geradora de energia Emae por inadimplência, além de ver suas tentativas de avançar sobre empresas como a varejista GPA e a petroquímica Braskem não saírem conforme o esperado. 

Em paralelo, a crise do Banco Master. Tanure utilizou a instituição financeira em operações por empresas de seu portfólio. A liquidação do banco acabou afetando uma de suas investidas mais recentes, o supermercado Dia, que chegou a comprometer parte relevante do caixa aplicando em CDBs do banco.

E agora, com seu nome envolvido nas investigações sobre o banco, configura-se um cenário de crise para o empresário de 73 anos.

Os avanços recentes

Há um ano, o cenário era bem diferente. 

Após uma sequência de aquisições realizadas entre 2020 e 2024, Nelson Tanure consolidava-se como um dos investidores mais ativos na compra de empresas em dificuldades financeiras. O ambiente parecia feito sob medida para um empresário que construiu sua reputação explorando crises e reestruturando ativos estressados.

Nos anos anteriores, Tanure havia montado um portfólio diversificado a partir de negócios considerados fora do radar de grandes grupos. 

Comprou a Copel Telecom, posteriormente rebatizada de Ligga, apostando na consolidação do mercado de fibra óptica; assumiu o controle da Alliança Saúde, rede de diagnósticos médicos; virou um dos investidores de referência da Light; ampliou sua influência na incorporadora Gafisa; e, já no fim de 2024, fez parte do fundo que comprou a operação brasileira da rede de supermercados Dia.

Com esse histórico, 2025 se desenhava como um ano propício para novas investidas. A primeira grande aposta veio no varejo alimentar. Após concluir a compra do Dia, Tanure passou a articular uma combinação de negócios com o GPA, grupo dono das redes Pão de Açúcar e Extra, como forma de ganhar escala rapidamente e acelerar a reestruturação de dois negócios pressionados.

O plano envolvia ampliar sua influência na governança do GPA, que atravessa uma crise financeira, e abrir caminho para uma reorganização mais profunda da companhia. A movimentação chegou a animar parte do mercado no início do ano.

A estratégia, no entanto, encontrou resistência. Em 5 de maio, a assembleia de acionistas do GPA rejeitou parte da chapa apoiada por Tanure, que não conseguiu eleger a maioria de seus indicados para o conselho de administração. Com isso, perdeu espaço para o bloco formado pelo Grupo Coelho Diniz, hoje controlador do GPA, e pelo investidor Rafael Ferri.

Sem espaço na nova estrutura, Tanure vendeu rapidamente sua posição acionária. O movimento abrupto pressionou as ações da varejista e encerrou de forma precoce a tentativa de consolidação no setor, marcando seu primeiro grande revés de 2025.

A aposta petroquímica

A derrota no GPA não levou Nelson Tanure a recuar. Poucos dias depois, em 23 de maio, ele voltou suas atenções para um alvo ainda maior: a petroquímica Braskem, companhia que atravessa um dos períodos de maior pressão financeira de sua história.

Na ocasião, Tanure assinou um acordo de exclusividade com a Novonor — antiga Odebrecht e controladora da Braskem — para negociar a aquisição de uma participação que lhe daria o controle da companhia. Apresentou-se como alguém capaz de destravar um impasse histórico que envolve a família Odebrecht, bancos credores e a Petrobras, segunda maior acionista da petroquímica.

O discurso público foi cuidadosamente calibrado. Tanure defendeu maior protagonismo da Petrobras na gestão da Braskem, acenou a bancos credores e condicionou o avanço da operação à resolução de passivos relevantes, como as indenizações relacionadas ao desastre ambiental de Maceió.

Planta petroquímica da Braskem
Planta petroquímica da Braskem: empresa foi alvo de Tanure em 2025 (Bloomberg)

O próprio empresário reconheceu à Reuters que as negociações se mostraram mais complexas do que o esperado. A sensibilidade política do tema, a falta de consenso com os bancos e o surgimento de outros interessados, como a gestora IG4, minaram a viabilidade da transação.

O prazo de exclusividade, de três meses, expirou sem acordo, e Tanure acabou recuando da disputa. No início de dezembro, a IG4 encaminhou um acordo com a Novonor, bancos e a Petrobras, colocando fim a uma disputa societária que se arrastava desde 2018. A operação ainda depende de aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A virada da maré

O ponto de inflexão mais duro veio no segundo semestre, com a perda do controle da Emae. A geradora de energia paulista, adquirida na privatização em 2024, acabou sendo tomada pelos credores e vendida à Sabesp após Nelson Tanure não honrar o pagamento de um financiamento usado para viabilizar a compra do ativo. Tanure entrou na Justiça para reverter a execução da dívida e retomar o controle da Emae.

A perda da Emae foi precedida pela crise da Ambipar, empresa de gestão ambiental que entrou em recuperação judicial após uma rápida deterioração financeira. 

O controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior, era sócio de Tanure na Emae, o que ampliou a exposição cruzada entre os negócios. Parte do financiamento da aquisição da Emae tinha como garantia ações da Ambipar, que perderam valor de forma acentuada em poucas semanas, corroendo o lastro da operação.

Tercio Borlenghi Jr Jr, ceo-ambipar
Tercio Borlenghi Júnior, CEO da Ambipar: empresário era sócio de Tanure na Emae

Esse quadro foi agravado pela crise do Banco Master, iniciada no fim de março e que atingiu seu ápice em novembro, quando o Banco Central decretou a liquidação da instituição financeira fundada por Daniel Vorcaro. 

A debacle do banco afetou Tanure, que utilizava a instituição em diversas operações e aplicações por meio de empresas de seu portfólio. Na prática, o colapso simultâneo da Ambipar e do Master comprometeu garantias, restringiu fontes de financiamento e acelerou a execução de contratos.

Além da Emae, outros negócios de Tanure sentiram o impacto. A rede de supermercados Dia, adquirida no fim de 2024, chegou a manter mais de 70% de seu caixa aplicado em um CDB ligado ao conglomerado do Banco Master.

Dos cerca de R$ 163,3 milhões aplicados, o Dia conseguiu reaver aproximadamente R$ 20 milhões à vista e um precatório avaliado em R$ 116 milhões, como revelou o InvestNews. O saldo remanescente seria pago de forma parcelada, mas, com a liquidação da instituição financeira, o recebimento passou a ser incerto.

As renegociações

Foi nesse contexto que a crise da Ligga Telecom ganhou contornos maiores. À venda desde agosto, conforme antecipado pelo InvestNews, Nelson Tanure precisou renegociar cerca de R$ 1,2 bilhão em dívidas relacionadas à compra da antiga Copel Telecom após não conseguir honrar o vencimento do débito.

O acordo fechado no início de dezembro deu fôlego temporário, mas impôs uma condição clara dos credores: a busca pela venda da própria Ligga, avaliada em cerca de R$ 2,5 bilhões, e das ações da Alliança Saúde, estimadas em torno de R$ 4 bilhões — dois dos principais ativos do portfólio construído ao longo dos últimos anos.

No caso da Alliança, a companhia informou ter contratado o BTG Pactual para assessorar a avaliação de alternativas estratégicas que podem incluir reorganizações societárias, entrada de sócios ou a venda parcial ou total da participação dos acionistas controladores – no caso, Tanure.

Paralelamente ao aperto financeiro, o empresário passou a enfrentar maior escrutínio institucional. Também dezembro, após o Ministério Público Federal (MPF) apresentar denúncia em um caso relacionado a um possível uso de informações privilegiadas na Gafisa, a defesa de Nelson Tanure pediu que o processo fosse remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) e submetido a sigilo total, sob o argumento de conexão com apurações mais amplas envolvendo o Banco Master, que tramitam exclusivamente na Corte.

Tanure nega qualquer relação societária com a instituição financeira e afirma que sua atuação sempre se limitou a relações comerciais e operações financeiras, sustentando que os temas em discussão devem ser tratados exclusivamente no âmbito judicial.

Do turnaround ao turnaround

O balanço de 2025 também ajuda a iluminar o próprio estilo de atuação de Nelson Tanure, um investidor de perfil old school que construiu sua trajetória comprando ativos pressionados em momentos de crise e apostando em reestruturações profundas.

Ao longo de décadas, sua estratégia se baseou em identificar empresas em dificuldade, assumir riscos elevados e negociar duramente com credores para tentar reescrever contratos e recuperar valor Em entrevista dada ao podcast “Atrás do retorno” no fim de 2024, o próprio Tanure explicou que sua inclinação por ativos estressados nasceu menos de convicção teórica e mais de necessidade prática.

“Eu tive que procurar negócios onde a minha capacidade de trabalho fizesse diferença. E onde estão essas oportunidades? Geralmente, no distress [ativos estressados economicamente]. O distress é o local de oportunidades”, afirmou.

Seu maior acerto foi a entrada na petroleira HRT, em 2014. Sob nova estratégia e gestão liderada por seu filho, Nelson Queiroz Tanure, a companhia foi rebatizada de PetroRio — hoje PRIO — e se transformou em uma das companhias mais rentáveis do setor de óleo e gás no país, frequentemente citada como o caso mais bem-sucedido de seu portfólio.

Funcionários da Prio.
Funcionários da PRIO: petroleira é considerada a aposta mais bem sucedida de Tanure. Foto: Divulgação

Nem todas as apostas, porém, tiveram o mesmo desfecho. Tanure também esteve envolvido em reestruturações complexas e de resultado mais limitado, como na operadora Oi, da qual foi investidor relevante entre 2003 e 2008. Por outro lado, após deixar a companhia, assumiu o controle da concorrente Interlig, que acabou incorporada pela TIM em 2009.

A lógica por trás dessas investidas sempre foi a mesma. Tanure prospera em ambientes de distress, quando o poder de barganha está concentrado em quem aceita risco e consegue impor condições mais favoráveis em renegociações de prazos e valores. Em ciclos assim, seu modelo tende a funcionar.

O problema é que 2025 marcou uma inflexão desse ambiente. Com a melhora gradual do mercado e menor tolerância a estruturas altamente alavancadas, o espaço para renegociação diminuiu, o custo do capital subiu e as engrenagens que sustentaram sua expansão passaram a trabalhar contra ele. 

Em outro momento da entrevista concedida em 2024, Tanure resumiu essa lógica com franqueza: “A capacidade de recuar é uma grande virtude. Recuar de momento, se fortalecer e voltar, na maior parte das vezes, é uma brilhante ideia”.

Procurado pelo InvestNews, Nelson Tanure não concedeu entrevista.