O negócio de distribuição de combustíveis da Ultrapar ficou mais saudável no quarto trimestre de 2025. O desempenho da Ipiranga superou a expectativa de analistas, com um ambiente competitivo descrito pela administração como mais racional.

Segundo a direção da companhia, a melhora teve relação com o cerco ao mercado clandestino, o que permitiu “margens na revenda mais saudáveis”. Agora, a companhia também se vê mais bem preparada para lidar com outro desafio: a escalada do preço do petróleo com o conflito no Oriente Médio.

No último trimestre, o volume de vendas da Ipiranga cresceu 7% na comparação anual, com avanço de 8% no ciclo Otto (gasolina/álcool/GNV) e 6% no diesel.  O CFO Alexandre Palhares atribui parte desse movimento ao “início da recuperação do mercado, após a intensificação das medidas de combate às irregularidades no setor”. 

O Ebitda ajustado recorrente (métrica de geração de caixa operacional) da Ipiranga foi de R$ 1,1 bilhão, alta de 26% ante o mesmo período do ano anterior, “refletindo principalmente o maior volume de vendas e margens melhores”. 

Para analistas do BTG Pactual, do Santander e do Itaú BBA, a questão é entender se esse patamar de “margem bem mais forte” vista no período se sustentará. No quarto trimestre, lembra Leonardo Linden, CEO da Ipiranga, a melhora foi gradual, com outubro mais fraco e dezembro já bem mais forte. 

Como a importação muda a competição

Na linguagem do setor, a “janela de arbitragem” de importação é o período em que a conta para trazer combustível do exterior faz sentido — ou seja, quando importar fica atrativo frente aos preços praticados no mercado doméstico.

Quando essa janela abre, aumenta a entrada de produto importado, os estoques sobem e a competição se intensifica. Quando a janela fecha, parte desse volume deixa de entrar, e distribuidores com infraestrutura e suprimento regular tendem a ganhar relevância.

Segundo Linden, foi o que a Ultrapar enxergou no começo do ano. O executivo diz que, em janeiro, a participação de mercado da companhia ficou sob pressão, mas tratou o movimento como pontual e ligado ao excesso de oferta.

“O inventário subiu muito ao longo do último trimestre. Quando o inventário sobe assim por arbitragem aberta, há muito suprimento especulativo. E isso coloca um pouco de pressão no sistema.”

Na prática, a leitura da empresa é que, com mais produto “oportunista” buscando saída, a competição fica mais dura, o que pode apertar preços e mexer no share no curto prazo.

Segundo Rodrigo Pizzinato, CEO da Ultrapar,  até meados de fevereiro, a janela esteve aberta, levando os estoques do setor a um nível “muito alto”; depois, a janela se fechou e, com a escalada do conflito no Oriente Médio, ficou “mais fechada ainda”. 

A companhia avalia que o choque geopolítico tende a atuar justamente nessa variável. Linden afirma que ainda é cedo para conclusões amplas, mas que algumas implicações já são visíveis.

“A arbitragem fecha de uma forma importante. Arbitragem fechada significa menos suprimento especulativo e isso favorece as empresas que são supridoras estruturais do mercado brasileiro, como é a Ipiranga”, afirma.  

Palhares também diz que, após o fechamento da janela no fim de fevereiro “com o conflito no Oriente Médio, a paridade de importação ficou bem mais desfavorável”; ele afirma esperar “continuidade do crescimento de volume e de margens” (pela empresa). 

Questionada sobre eventual repasse, a empresa lembrou a dependência do Brasil de diesel importado. “O Brasil tem uma dependência estrutural de importação de diesel. Vai ser preciso importar, garantir o suprimento. E, naturalmente, esse custo é repassado”, disse Linden. 

Mercado irregular

O tema da concorrência entrou na pauta da teleconferência quando os executivos foram questionados sobre rentabilidade e comportamento do canal. “A melhora do cenário no Brasil não é uma melhora só para a Ipiranga, é uma melhora para o setor”, afirma. 

Segundo ele, os efeitos são sentidos em toda a cadeia: “há margens na revenda mais saudáveis, margens na distribuição mais saudáveis, e um Estado com uma arrecadação maior”. 

No radar regulatório, Linden diz que estão em discussão a monofasia (regime de tributação com incidência única) no ICMS do etanol e o tema do biodiesel, mencionando que a agenda não está encerrada.  

Venda da Ipiranga e M&As

Os rumores de uma possível venda da Ipiranga apareceram na fase de perguntas da teleconferência.

Pizzinato afirmou que a companhia não comentaria o tema.

“Primeiro, não temos nada a falar sobre ela. E toda vez que temos algo relevante, fazemos um comunicado a todo o mercado”, disse.  Em seguida, repetiu a lógica de alocação de capital.

“A geração de caixa… tem dois destinos. Ou vamos achar bons projetos para investir e continuar crescendo a companhia, ou vamos aumentar o pagamento de dividendos”, afirmou. 

A direção da Ultrapar também descreveu o que busca em crescimento inorgânico.

Pizzinato disse que, ao estudar uma transação, a companhia olha primeiro para o setor e seu potencial de crescimento e consolidação; depois, para o quanto o ativo é próximo do que o grupo conhece e como consegue aplicar seu modelo de gestão para criar valor; e, por fim, para a possibilidade de entrar “a um preço atrativo” que garanta retorno adequado. “São essas três coisas que buscamos. Foi isso que buscamos e encontramos na Hidrovias [do Brasil]”, afirmou. 

Além do posto Ipiranga

Na Ultragaz, o volume de GLP vendido ficou 2% abaixo do mesmo trimestre do ano anterior, com queda maior no granel (indústrias) e estabilidade no envasado. Mesmo assim, o Ebitda recorrente avançou 7% no trimestre, para R$ 474 milhões, apoiado por repasses de custos e mix de vendas mais favorável, segundo Palhares. 

Para o primeiro trimestre de 2026, a companhia disse ver continuidade de bons resultados, com Ebitda “similar” ao observado no primeiro trimestre de 2025. 

Na Ultracargo, a capacidade estática média cresceu, mas o volume faturado caiu: 5% menor no trimestre e 9% menor no ano. A empresa atribuiu a redução principalmente à menor demanda por “tancagem” para importação de combustíveis por clientes, com impacto em receita e Ebitda, além de custos maiores ligados a operações ainda em fase de ramp-up (expansão). 

A direção da empresa disse observar uma retomada gradual de demanda no início do ano, mas sob desafio da janela de importação fechada desde meados de fevereiro; ainda assim, espera um primeiro trimestre com volume e EBitda recorrente melhores do que no último trimestre de 2025. 

Já na Hidrovias do Brasil, o volume movimentado cresceu 65% no trimestre na comparação anual, refletindo melhores condições de navegação e avanços operacionais, segundo Palhares.  O Ebitda recorrente somou R$ 160 milhões no trimestre, revertendo o resultado negativo registrado no mesmo período do ano passado; no ano, o avanço foi de 95%. 

Para o primeiro trimestre, porém, a Ultrapar sinalizou que espera resultados inferiores aos do mesmo período do ano passado, citando desafios no recebimento de cargas na Operação Norte e restrições no carregamento de minério no Sul. 

No resultado consolidado, a Ultrapar encerrou 2025 com geração de caixa operacional recorde de R$ 5,5 bilhões e alavancagem de 1,7 vez (1,5 vez sem o efeito da antecipação de dividendos), segundo a administração. 

Para 2026, a companhia comunicou um plano de investimentos de até R$ 2,6 bilhões, destinado a expansão, manutenção, segurança e eficiência.