“A melhor forma de falar sobre cripto é não falar sobre cripto”.

Se a frase soa contraditória à primeira vista, em poucos minutos de conversa Michael Rihani, diretor de cripto do Nubank, demonstra por A mais B porque acredita que é assim que as moedas digitais prosperarão em 2026.

“Nosso trabalho muitas vezes é esconder o que há de cripto [nas funcionalidades], especialmente a parte tecnológica”, diz. A ideia é que o usuário final não precisa necessariamente entender como a tecnologia funciona para se beneficiar dela.

Michael Rihani, diretor de cripto do Nubank (Crédito: Divulgação)
Michael Rihani, diretor de cripto do Nubank (Crédito: Divulgação)

“Você pode nem saber que está usando cripto quando transfere dinheiro. A tecnologia precisa simplesmente funcionar”, afirma o diretor do Nubank – que, em 2025, alcançou a marca recorde de 7 milhões de clientes no segmento de ativos digitais.

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O melhor exemplo, segundo Rihani, é o Pix, um fenômeno de adesão no Brasil por permitir movimentar dinheiro de forma instantânea, quase automática – e, principalmente, muito simples.

Precisamos tornar o acesso à criptoeconomia tão fácil quanto o Pix. A experiência tem de ser fluida ”

Isso dá uma pista de como as criptomoedas podem ganhar as massas: de forma prática, silenciosa e integrada ao dia a dia.

Menos complexidade, mais uso real

A avaliação do executivo do Nubank é que o mercado de cripto tende a sair do debate técnico em 2026 e se aproximar da experiência que as pessoas já esperam de serviços financeiros digitais, com facilidade, rapidez e baixo atrito.

Pergunto o que é difícil na vida financeira das pessoas. Quando alguém fala de custo de vida, de poupança ou de enviar dinheiro para outro país, bitcoins ou stablecoins podem resolver o problema. Mas, muitas vezes, vamos abstrair completamente o ‘cripto’ da experiência ”

Rihani reconhece que a complexidade ainda afasta parte do público. Termos técnicos, processos longos e preocupações com segurança criam barreiras para quem só quer resolver questões básicas do dia a dia, como pagar, guardar ou transferir dinheiro.

Por isso, a prioridade, segundo ele, não é criar produtos apenas porque usam blockchain, tecnologia por trás das criptomoedas, mas transformar essa tecnologia em algo simples e funcional.

Na prática, é esse o princípio que norteia a criação de funcionalidades e benefícios na área de cripto do Nubank, segundo Rihani. Novidades lançadas ao longo de 2025, como a taxa zero para quem possui cartão Ultravioleta e opera cripto, além de uma tabela de taxas regressivas atualizada em tempo real para todos os clientes, são exemplos de como o banco busca simplificar o dia a dia dos investidores.

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Uma lição sobre simplicidade na Tesla

A visão de que a adoção depende de simplicidade e execução vem de experiências anteriores. Enquanto trabalhou na gigante dos carros elétricos Tesla, Rihani viu Elon Musk, CEO da empresa, comentar sobre bitcoin nas redes sociais. Decidiu aproveitar a oportunidade para enviar um e-mail direto ao bilionário com um assunto simples: “Bitcoin”.

“Listei sete ou oito ideias de como a Tesla poderia usar bitcoin”, conta. “Uma delas era aceitar pagamentos no site da empresa”. No dia seguinte, Musk respondeu a Rihani pedindo apoio para integrar os pagamentos. “Em cerca de duas semanas, tínhamos uma versão funcional em produção”, conta.

Para Rihani, o episódio mostra que a adoção de novas tecnologias avança quando há clareza sobre o uso e decisões práticas. “Não foi sobre discurso. Foi sobre execução”, diz.

Custódia como solução prática

O modelo de custódia de ativos digitais também é um ponto que tende a ganhar espaço nas discussões sobre cripto em 2026.

Nesse mercado, é comum a adoção da autocustódia, em que o investidor é o único responsável pela guarda de suas criptos em wallets físicas ou digitais. Na prática, é como ter dinheiro de papel na carteira: o controle dos recursos está 100% nas mãos do dono da carteira, mas os riscos – como o de perder as notas ao mexer no bolso – também estão.

Na custódia feita por terceiros, uma instituição financeira fica responsável por guardar os ativos digitais do cliente. Para Rihani, esse modelo atende melhor à realidade da maioria das pessoas e por isso é uma tendência em 2026. “Se você faz autocustódia, precisa confiar em si mesmo. Se errar, pode perder tudo”, afirma.

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Casos de autocustódia que dão errado são comuns na história das criptomoedas. O galês James Howell ficou famoso após ter supostamente perdido um HD contendo as chaves de 8000 bitcoins. É um tesouro de US$ 700 milhões enterrado em um lixão que, até onde se sabe, foi perdido para sempre.

Segundo Rihani, exemplos como esse mostram a importância de guardar criptos em uma instituição financeira.

Bancos estão no negócio da confiança. Você deposita seu dinheiro esperando que ele esteja lá amanhã ”

Ele cita ainda benefícios extras que esse modelo permite, como crédito e pagamentos integrados. “Faz diferença no dia a dia”.

Emergentes puxarão a próxima fase

Na avaliação do executivo, as inovações mais relevantes em cripto daqui para frente não devem surgir de países ricos. “Em muitos países desenvolvidos, tudo funciona, enquanto em mercados emergentes existem dores reais”, diz.

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O Brasil, nesse contexto, se destaca. O uso amplo do Pix acostumou as pessoas a transferências instantâneas, gratuitas e simples. “Depois do Pix, essa expectativa virou padrão. E as criptos são um passo natural nesse caminho”.

Para 2026, ele espera que o avanço dos criptoativos venha menos da especulação e mais da incorporação gradual da tecnologia à rotina das pessoas. “No fim, o usuário não quer saber qual tecnologia está por trás. Ele só quer que funcione.”