O Brent, principal referência internacional, está sendo negociado em torno de US$ 63 por barril, alta de menos de US$ 3 desde a prisão do presidente Nicolás Maduro. Parte do suprimento adicional da Venezuela já foi precificada nos contratos futuros, mas levará tempo para que isso se reflita no mercado físico. Mesmo com uma transição política tranquila, serão necessários pelo menos alguns anos para recuperar a infraestrutura petrolífera negligenciada e aumentar a produção.
O bloqueio à Venezuela e a apreensão de petroleiros pelos EUA são um grande alerta para o mercado de “barris paralelos”. O volume de petróleo sob sanções ocidentais atingiu 15% da oferta mundial, recorde histórico, segundo dados da Kpler. Uma frota sombra de navios que transporta esse petróleo sancionado representa um quinto da tonelagem mundial, de acordo com o jornal marítimo Lloyd’s List.
As potências ocidentais aumentam a pressão sobre esses navios: os EUA apreenderam três na semana passada em águas internacionais. Os baixos preços do petróleo e a abundância de oferta dão a líderes americanos e europeus uma rara oportunidade de agir contra o comércio ilícito sem provocar nova inflação energética.
A derrubada de Maduro cria um problema para a China. Junto à Índia, o país foi o maior beneficiário do fluxo de petróleo fortemente descontado criado pelas sanções ocidentais. Pequim recebia um terço de suas importações de petróleo do Irã, Rússia e Venezuela, segundo a Kpler.
Isso reduziu seus custos de energia. Em novembro, a China economizou quase US$ 9 por barril de petróleo venezuelano, comparado ao que pagaria por um equivalente do Canadá, segundo a fornecedora de dados Argus Media.
Agora, os cerca de 500 mil barris diários de petróleo venezuelano que a China costumava comprar provavelmente serão redirecionados para refinarias dos EUA na Costa do Golfo. A Casa Branca afirmou que as sanções à Venezuela serão gradualmente flexibilizadas nos próximos dias, deslocando o fornecimento de canais ilícitos para o mercado oficial, reduzindo o desconto do petróleo venezuelano e aumentando imediatamente a receita do país.
Apesar do petróleo pesado do Canadá e de outros países ter ficado mais barato recentemente na expectativa de que os EUA substituam os barris canadenses pelo venezuelano, ainda é muito mais caro do que a China estava acostumada a pagar.
A estratégia de comprar petróleo sancionado barato deixou a China vulnerável a interrupções. O ataque à Venezuela é a terceira vez em menos de um ano que as importações chinesas de energia foram ameaçadas pelas ações da Casa Branca.
Os ataques de Israel ao Irã no verão passado, com apoio dos EUA, deixaram os compradores chineses nervosos quanto a possíveis ataques às instalações de exportação de energia da República Islâmica. As refinarias independentes “teapot” na região de Shandong processam 90% do petróleo sancionado do Irã.
Em outubro, os EUA sancionaram as produtoras russas Lukoil e Rosneft, tornando mais arriscado comprar petróleo de Moscou. A última turbulência na Venezuela confirma a estratégia chinesa de estocar petróleo. O país comprou barris muito além de suas necessidades domésticas e os armazenou.
Os estoques de petróleo pesado da China são suficientes até março, segundo Tom Reed, vice-presidente de petróleo da China na Argus Media. Depois disso, será preciso buscar fornecedores alternativos, possivelmente Canadá ou Colômbia.
A longo prazo, Pequim pode precisar reavaliar os riscos de investir na América Latina, onde a administração Trump parece determinada a pressionar e excluir Rússia e China. A China Concord Resources começou recentemente a desenvolver dois campos petrolíferos na Venezuela e planeja investir mais de US$ 1 bilhão em um projeto para alcançar 60 mil barris diários até o final de 2026, segundo analistas do J.P. Morgan. O futuro desse e de outros investimentos de produção de petróleo na Venezuela agora é incerto. O Irã também se mostra menos confiável, à medida que os protestos anti-regime se intensificam.
A repressão ao comércio ilícito de petróleo é arriscada, mesmo com excesso global de oferta. A Rússia tem se tornado mais agressiva na defesa de sua frota sombra. Na semana passada, enviou um submarino ao Atlântico Norte, onde um petroleiro foi perseguido pela Guarda Costeira dos EUA e, finalmente, apreendido. No ano passado, Moscou mobilizou jatos após a tentativa da marinha da Estônia de deter um navio russo.
Moscou tem permitido que mais navios transportando petróleo sancionado naveguem abertamente sob bandeira russa, uma novidade. Isso significa que a origem real do petróleo não é mais escondida, podendo testar se Europa e EUA têm disposição de apreender mais navios russos. Segundo a Lloyd’s List, 42 embarcações mudaram para a bandeira russa nos últimos seis meses.
O preço do petróleo não reflete o risco geopolítico, devido ao excesso de oferta. Mas a pressão no mercado sancionado aumenta. Milhões de barris de petróleo permanecem em navios no oceano, sem encontrar compradores, à medida que a fiscalização aumenta e produtores tentam contornar as sanções mais recentes. O mercado negro hoje é tão grande — 6 milhões de barris por dia — que novas interrupções na oferta podem rapidamente elevar o preço oficial do petróleo.
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Traduzido do inglês por InvestNews