Como um escritor de viagens americano casado há 12 anos com uma lisboeta (natural de Lisboa), acompanhei a transformação da capital portuguesa — de uma cidade tranquila, marcada por nostalgia durante um período de austeridade, para um polo vibrante e poderoso de atração para expatriados e turistas.
Mas sei por experiência própria que há muito a descobrir além dos centros históricos de Lisboa e Porto, hoje tão tomados por visitantes que podem se tornar até claustrofóbicos — especialmente se você tiver um carro alugado e alguns dias para viajar.
Começando relativamente perto de Lisboa e, depois, avançando para o norte e o sul, aqui estão alguns dos segredos mais bem guardados de Portugal.
Campo de Ourique

Bem conhecido entre os moradores locais, o bairro de Campo de Ourique é um dos principais destinos de Lisboa para caminhar e fazer compras, com uma abundância de restaurantes autênticos, complementados por lojas gourmet voltadas à recente chegada de expatriados franceses.
Seu mercado — um edifício austero construído em 1934, mas aconchegante por dentro graças ao acabamento em madeira — é o mais vibrante e encantador entre os antigos mercados de frutas e verduras do bairro. O espaço virou ponto de encontro, especialmente nos fins de semana, animado por guitarristas e outros músicos itinerantes. Há bancas que oferecem carnes portuguesas, doces, vinhos sofisticados, tacos saudáveis e algumas das melhores ostras do litoral, consumidas em mesas compartilhadas. Como os locais, você pode planejar apenas uma refeição — e acabar ficando a noite inteira.
Praia do Guincho

Facilmente acessível a partir de Lisboa por trem e ônibus, e a apenas cerca de 5 quilômetros do movimentado porto gastronômico de Cascais, essa praia forma uma extensa curva de areia praticamente deserta, frequentada apenas por moradores e seus cães — corajosos o suficiente para enfrentar os ventos fortes, porém revigorantes, de um dos pontos mais ocidentais e preservados da Europa.
Ideal para windsurf e também para caminhadas — humanas ou caninas —, o Guincho é tão selvagem e natural que é difícil acreditar que fica tão próximo de um centro urbano e de inúmeros restaurantes de frutos do mar.
Colares

A maioria dos turistas vai de Lisboa até Sintra, o sítio reconhecido pela Unesco famoso pelo palácio de verão de inspiração arabesca construído pelos reis portugueses. Mas muitos retornam à capital sem explorar a vizinha Colares, uma região verdejante de ciprestes e eucaliptos, com abundância de barracas de frutas e lojas de antiguidades, que gradualmente se inclina em direção a praias pouco conhecidas.
Entre os destaques arquitetônicos estão as casas simples do antigo vilarejo de Penedo e o impressionante povoado costeiro de Azenhas do Mar, com suas casas brancas agarradas às falésias. Depois de um dia respirando o ar fresco de Colares, talvez nem dê vontade de voltar a Lisboa.
Meco
Você dificilmente encontrará Meco em muitos guias turísticos, mas essa extensa cidade praiana, a cerca de uma hora ao sul de Lisboa, reúne praticamente tudo o que Portugal tem a oferecer.
É a porta de entrada para quilômetros de praias largas, com ondas moderadas e falésias em tons ocres (além de áreas naturistas), trilhas suaves por florestas de pinheiros sobre areia e lagoas interiores próprias para banho. Ao longo das estradas sinuosas cercadas de vegetação, encontram-se produtores artesanais de queijo de cabra, que levam até o imponente promontório do Cabo Espichel. Ali, pegadas de dinossauros coexistem com fileiras inquietantes de construções deixadas por um mosteiro do século XVI, oferecendo uma vista espetacular do litoral que se estende até as torres brancas de Lisboa.
Meco tem poucos hotéis, mas muitas casas de aluguel charmosas, frequentemente com piscina.
Mosteiro da Batalha

Ao longo da principal rodovia que corta Portugal de norte a sul, há diversas paradas comuns no estilo americano, mas um desvio que realmente vale a pena é a viagem de cerca de 45 minutos até Batalha.
Dominando a paisagem da cidade está o imponente mosteiro construído por volta de 1385, com pátios conventuais e capelas majestosas de naves altas, além de impressionantes vitrais. O talento português para combinar o religioso com detalhes ornamentais exuberantes atinge seu auge nesse patrimônio mundial da Unesco — uma espécie de equivalente nacional à Catedral de Chartres, na França.
Foz do Douro
Frequentemente ignorado, apesar de facilmente acessível a partir do centro do Porto por uma antiga linha de bonde, Foz do Douro pode ser considerado um dos pontos urbanos mais agradáveis do norte do país.
Essa área tranquila, repleta de cafés, fica acima das praias e das antigas muralhas onde o rio Douro encontra o Oceano Atlântico. Vale a visita pelas vistas do mar, pelos passeios ao longo do quebra-mar e por um sofisticado mercado de artesanato. E vale a estadia pelo ambiente agradável e elegante, que preserva seu caráter. Há poucos lugares melhores no país para saborear um peixe à beira-mar.
Monsanto

Preservada do excesso de turistas graças ao seu isolamento, Monsanto (não confundir com o parque urbano de Lisboa ou com a empresa de mesmo nome) é conhecida, com razão, como a “aldeia de pedra” de Portugal.
Ali, casas simples com telhados tradicionais foram literalmente encaixadas entre enormes blocos rochosos. Em trilhas íngremes e estreitas, algumas tavernas rústicas parecem surgir de forma improvável em meio ao cenário agreste. A cerca de 300 quilômetros a nordeste de Lisboa, Monsanto representa um Portugal mais primitivo e quase pagão — mas ainda assim acolhedor e cheio de charme.
Castelo Rodrigo

Entre as muitas vilas fortificadas próximas à fronteira com a Espanha, poucas são tão simples e atmosféricas quanto Castelo Rodrigo. O povoado é formado por um conjunto compacto de casas de pedra avermelhada, apoiadas sobre ruínas de muralhas e cercadas por amendoeiras em flor.
Frequentemente incluído em roteiros sobre a presença judaica em Portugal — devido a um tanque de pedra associado a rituais e à história de judeus sefarditas que fugiram da Inquisição no século XVI —, Castelo Rodrigo oferece paisagens marcantes e permanece pouco explorado pelo turismo.
Mini “Stonehenges”

Ao que tudo indica, esse território ensolarado já era popular na pré-história — e Portugal ainda preserva muitos vestígios arqueológicos desse período. Um exemplo é o Cromeleque dos Almendres que, junto ao menor e menos visitado Cromeleque de Vale Maria do Meio, forma círculos de monólitos de pedra que lembram versões reduzidas de Stonehenge.
Como bônus, as estradas de terra que levam a esses locais atravessam algumas das maiores áreas de sobreiros da Europa — árvores responsáveis pela produção da cortiça portuguesa, famosa por seu uso, inclusive, em cápsulas espaciais da NASA.
Para quem quiser ir ainda mais longe, o Parque Arqueológico do Vale do Côa, mais ao norte, oferece trilhas por formações rochosas com gravuras pré-históricas preservadas ao longo de milênios.
Alte

O nome sugere altitude — e essa pequena vila branca no Algarve, com menos de 2 mil habitantes, fica a apenas meia hora do movimentado balneário de Albufeira, mas parece distante séculos.
Não à toa, já foi retratada como o lugar onde se encontra o “verdadeiro Portugal”. Com arcadas simples, ruas de pedra e um riacho que atravessa o vilarejo, além das tradicionais chaminés decoradas, Alte revela as influências arquitetônicas mouriscas da região — sem qualquer traço do turismo massificado do litoral.
John Krich é escritor de viagens e romancista radicado em Lisboa.
Traduzido do inglês por InvestNews