Na última semana, a indústria automotiva se reuniu em Nova York para apresentar seus últimos modelos. Esperava-se que quase meio milhão de pessoas passassem pelo enorme Javits Convention Center, desde executivos do setor até famílias interessadas em conferir centenas de novos veículos em exibição.

Um dos executivos, Matt McAlear, subiu ao palco do Salão Internacional do Automóvel de Nova York e fez uma declaração ousada: “Estamos aqui para apresentar coisas que as pessoas não esperavam.”

Atrás dele, estavam dois Chrysler Pacifica — levemente modificados com novos faróis e recursos atualizados, o que a indústria automotiva chama de “refresh”. Para a maioria das marcas, tal atualização não geraria grande repercussão.

Para a Chrysler, no entanto, um pequeno refresh do único modelo que vende era um importante termômetro.

A marca que inventou a minivan nos anos 1980, e com ela um estilo que se tornou símbolo da vida suburbana americana, está lutando para sobreviver. Chrysler é uma das 14 grandes marcas de carros do conglomerado euro-americano Stellantis — um portfólio muito maior que os quatro da General Motors ou os dois da Ford. E Chrysler é a única grande marca que vende apenas um modelo.

McAlear disse que está entre os que lutam pelo futuro da Chrysler. O próximo “investor day” da Stellantis, em maio, dará mais detalhes sobre a direção da marca.

O CEO Matt McAlear falou sobre a herança das minivans da Chrysler nesta semana

“Queremos que a marca Chrysler seja inesperada novamente, mais afiada, sem pedir desculpas e, sim, com muito mais atitude do que as pessoas esperam de uma marca de minivan”, afirmou. “Uma marca de minivan por enquanto.”

A reviravolta será cara e difícil. Stellantis precisará investir muito mais ou considerar o impensável.

Rival da GM e Ford

Ao longo de sua história, o nome Chrysler esteve intrinsecamente ligado às três grandes montadoras de Detroit. Seus rivais General Motors e Ford sempre venderam mais carros, e Chrysler era carinhosamente chamado de “irmão caçula” do trio, o que a tornava inovadora, introduzindo tecnologias como transmissões automáticas melhores, controle de cruzeiro e freios ABS nas quatro rodas.

No entanto, sucessivas fusões corporativas limitaram os recursos da marca e reduziram sua linha de modelos. Dez anos atrás, ainda havia dois sedãs além da minivan. Vinte anos atrás, Chrysler oferecia sedãs médios e grandes, SUVs, o excêntrico PT Cruiser, esportivos e conversíveis.

Hoje, só resta a Pacifica. As vendas da marca caíram 80% em duas décadas, com cerca de 126 mil unidades vendidas no ano passado.

Stellantis

Stellantis também é dona de Jeep, Maserati, Peugeot, Fiat e Alfa Romeo. A fusão de 2021 com o PSA Group visava fornecer capital para enfrentar desafios como eletrificação e direção autônoma.

Mas Stellantis registrou prejuízo de US$ 25 bilhões em 2025, em grande parte por uma desaceleração na produção de veículos elétricos nos EUA. A indústria ainda enfrenta competição de montadoras chinesas de alta tecnologia, produzindo veículos mais baratos.

Grandes marcas já desapareceram, como Pontiac e Oldsmobile da GM ou Plymouth, ex-membro da família Chrysler. Enquanto GM, Ford e Chrysler dominavam as vendas americanas, agora são superadas por fabricantes estrangeiros, inclusive os que produzem nos EUA.

McAlear, de 48 anos, dirigia a Dodge antes de assumir a Chrysler. Seu pai se aposentou após carreira na marca e sempre dirigiu carros Chrysler.

“É minha responsabilidade ser guardião da marca e prepará-la para a próxima geração”, afirmou McAlear. “A empresa deve isso às concessionárias, posicionando a Chrysler para vender em volume além de um único modelo.”

Concessionárias defendem que a marca ainda possui grande reconhecimento, o que poderia impulsionar vendas. A Pacifica já é a minivan mais vendida dos EUA, mas precisam de um portfólio real de veículos para oferecer.

“Ninguém conhece a Stellantis aqui, mas todos conhecem a Chrysler”, disse Jeff Dyke, presidente da Sonic Automotive.

A marca entregou carros aerodinamicamente inovadores nos anos 1930 e luxuosos “land yachts” nas décadas de 1960 e 70. Gerações de famílias americanas cresceram em minivans Chrysler como a Town & Country. O sedan 300C se tornou ícone em videoclipes de hip-hop.

Em 2005, quase 650 mil veículos Chrysler foram vendidos nos EUA — 1 a cada 4 carros da então DaimlerChrysler.

Depois vieram a venda para private equity em 2007, falência, socorro e aquisição pela Fiat, formando a Fiat Chrysler Automobiles. Em 2021, a fusão com PSA Group criou a Stellantis. Jeep e Ram receberam prioridade.

“Deixaram a Chrysler de lado por um tempo”, disse Steven Wolf, concessionário do Texas desde os anos 1970.

Hoje, Wolf vende também Jeep, Ram e Dodge, e defende um modelo Chrysler que não seja minivan.

A lealdade à marca permanece, e concessionários ainda veem potencial para reviver a Chrysler.

McAlear afirmou que mudanças estão chegando e que haverá mais diversão nos próximos meses, destacando recursos como os assentos Stow ’n Go e câmeras para monitorar crianças nos bancos traseiros.

“É possível ressuscitar uma marca? Sim, é possível”, disse Larry Dominique, ex-executivo da Stellantis. “Vai exigir tempo, recursos e foco. Não é impossível, mas é desafiador.”

Traduzido do inglês por InvestNews