No Monte Cielo, um novo empreendimento habitacional nesta região em crescimento do sul do Texas, casas ainda pela metade estão paradas e vazias. Em um dia recente, apenas alguns poucos trabalhadores se mantinham atrás de lonas provisórias presas às estruturas das paredes.

A cena silenciosa vem depois de repetidas ações de agentes federais de imigração no empreendimento, que realizaram ao menos meia dúzia de batidas nos últimos meses, segundo os construtores. A mais recente ocorreu há poucas semanas. Cerca de oito trabalhadores foram presos em uma cena caótica, com operários correndo enquanto veículos federais avançavam em alta velocidade pelas três ruas do loteamento, disseram os construtores.

O resultado? As casas estão com meses de atraso no cronograma, e os empreiteiros enfrentam uma batalha difícil para recrutar novos trabalhadores para concluí-las.

“Eles ouvem Monte Cielo e dizem: ‘Não, não. Você pode me pagar o que quiser, mas eu não vou trabalhar lá’”, disse Alejandro Garcia, um dos vários construtores com casas em andamento no empreendimento, sobre as dificuldades para contratar mão de obra.

A situação tem se tornado comum em todo o Vale do Rio Grande, onde entidades do setor alertam que a fiscalização agressiva da imigração está causando estragos econômicos. Atrasos na construção ameaçam elevar os preços para compradores e reduzir as margens dos construtores. Alguns dizem que apenas esperam empatar em projetos atrasados. Fornecedores de materiais estão demitindo funcionários. Uma empresa local de concreto entrou com pedido de recuperação judicial, citando a queda nas vendas causada pelas batidas de imigração.

“Eles estão basicamente levando todo mundo que está trabalhando ali, tenha ou não documentação adequada”, disse Mario Guerrero, diretor-presidente da South Texas Builders Association. Guerrero acrescentou que votou no presidente Trump, assim como a maioria da região, e apoia a deportação de criminosos, mas “quando você aterroriza canteiros de obras, as pessoas têm medo de ir trabalhar”.

O sul do Texas é um exemplo mais intenso do que empreiteiros vêm enfrentando em todo o país em áreas onde a atividade do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) se intensificou.

Construtores em Minnesota relataram experiências semelhantes, com batidas que levaram equipes inteiras, inclusive pessoas com documentação legal, disse Grace Keliher, vice-presidente executiva da Builders Association of Minnesota. Em nível nacional, um terço dos empreiteiros comerciais informou ter sido afetado por ações de fiscalização da imigração nos últimos seis meses, segundo um relatório de janeiro da Associated General Contractors of America.

A ICE não respondeu a um pedido de comentário.

A situação evidencia como duas prioridades de Trump — conter a imigração ilegal e fortalecer a economia — podem entrar em conflito. O condado de Hidalgo, que inclui cerca de 22 cidades como Weslaco, McAllen e Mission, cresce ao dobro da taxa dos EUA como um todo, segundo dados do censo, passando de 870 mil habitantes em 2020 para 915 mil em 2025. O prefeito de McAllen, Javier Villalobos, disse estar preocupado com o impacto das batidas sobre os preços dos imóveis e o desestímulo a novos investimentos empresariais.

“Isso afeta todo mundo”, disse Villalobos, republicano. “Ainda estamos indo bem, mas sabemos o que acontece se isso continuar.”

Dor na indústria da construção

Em 2024, imigrantes — com ou sem status legal — representavam mais da metade dos trabalhadores da construção civil no Texas, Califórnia, Nova Jersey e no Distrito de Colúmbia, segundo Riordan Frost, analista sênior do Harvard Joint Center for Housing Studies. Construtores disseram que essa proporção é ainda maior no Vale do Rio Grande, uma região fronteiriça de quatro condados onde os moradores sempre viveram e trabalharam, indo e voltando das grandes cidades ao sul da fronteira.

Além disso, segundo os construtores, as batidas atuais estão prendendo não apenas imigrantes em situação irregular, mas também pessoas com autorização legal de trabalho.

Dois agentes de segurança de um centro de detenção de imigração próximo disseram que frequentemente veem detidos chegando ainda com roupas de trabalho sujas de poeira dos canteiros de obras. Uma parcela significativa dos homens sob custódia tem permissões de trabalho válidas, algo que eles dizem não ter visto em administrações anteriores, mas que ainda assim aguardam semanas para ver um juiz antes de serem liberados.

Por causa disso, as pessoas têm medo de trabalhar, tenham ou não autorização legal — uma realidade que atingiu duramente o setor e a economia regional como um todo. Paul Rodriguez, CEO da Valley Land Title, estimou que a atividade de construção residencial caiu 30% nos últimos meses no condado de Hidalgo.

A 57 Concrete, grande fornecedora regional de concreto, viu o uso do material cair 60% entre o fim de maio e novembro, à medida que construtores perderam trabalhadores e não conseguiram avançar nas obras, disse o CEO Eliud Cavazos. A empresa, sediada em Mission, Texas, demitiu 60 dos 150 funcionários, fechou um departamento focado em melhoria contínua e interrompeu novos investimentos.

A empresa, com cinco anos de existência, entrou com pedido de recuperação judicial (Chapter 11) em dezembro, citando a queda da demanda coincidindo com as batidas de imigração.

O pedido de Chapter 11 “é a coisa mais responsável que posso fazer”, disse Cavazos ao The Wall Street Journal. Ele contou que seus funcionários — todos cidadãos americanos ou com status legal de trabalho — frequentemente presenciavam batidas de imigração ao entregar produtos. Em alguns casos, construtores ficavam com fundações pela metade, que precisavam ser demolidas e refeitas, pois trabalhadores eram presos no meio do serviço.

Vendas perdidas

Na Materiales El Valle, fornecedora local de pisos, a ofensiva da ICE resultou em US$ 5,3 milhões em vendas perdidas, disse Luis Rodriguez, que administra a empresa fundada por seu sogro há quatro décadas. Ele demitiu dois motoristas e quatro representantes de vendas e reduziu a jornada da maioria dos 39 funcionários restantes — as primeiras demissões na história da empresa.

Rodriguez disse que está acostumado à fiscalização da imigração em canteiros, mas que em administrações anteriores as ações visavam pessoas específicas. Agora, segundo ele, os agentes estão mirando todos.

Paletes que deveriam ter sido retirados em 24 horas estão parados no estacionamento há meses. A empresa contratou uma linha de crédito de US$ 1,3 milhão para pagar por pisos encomendados por construtores que nunca foram buscar o material porque não conseguiram trabalhadores. Duas equipes de instaladores, que antes trabalhavam na modernização dos quatro showrooms da empresa, agora fazem instalações para clientes que não conseguem encontrar mão de obra.

Rodriguez trocou sua caminhonete F-150 por um modelo mais simples e pensa em se mudar para uma casa menor. Ele também tenta preencher a lacuna de mão de obra procurando faculdades comunitárias locais e oferecendo oficinas de instalação de pisos. “Ninguém aparece”, disse.

Credores locais afirmam que a demanda por empréstimos enfraqueceu e que eles apertaram os critérios. “Isso desestimulou novos investimentos. Paralisou projetos”, disse Art Ortega, presidente e CEO do Freedom Bank, um banco comunitário especializado em crédito para pequenas empresas.

Ajuda em Washington

Entidades do setor realizaram reuniões de emergência com centenas de associados nos últimos meses e buscaram apoio de parlamentares locais. Guerrero e outros representantes da South Texas Builders Association viajaram a Washington, D.C., na semana passada para reuniões com o objetivo de reduzir a fiscalização em canteiros de obras.

O deputado democrata Henry Cuellar ajudou o grupo a organizar os encontros. Ele e a deputada republicana do Texas Monica De La Cruz tornaram-se coautores de um projeto apresentado pelo deputado republicano da Pensilvânia Lloyd Smucker, que busca enfrentar a escassez de mão de obra criando um novo visto de não imigrante disponível a empregadores que comprovem que suas vagas ficaram abertas por três meses.

No Monte Cielo e em outro empreendimento próximo em Weslaco, Johnny Vasquez, diretor executivo da Rio Grande Valley Builders Association, apontou falhas em calçadas recém-construídas, dizendo que as batidas de imigração estão levando a uma piora na qualidade do trabalho, pois operários com décadas de experiência são presos e empreiteiros correm para substituí-los por trabalhadores inexperientes. Ele também observou a estranheza de canteiros silenciosos, onde normalmente haveria música tocando.

Agentes da ICE podem ter a entrada recusada em propriedades privadas sem mandado judicial, por isso construtores começaram a instalar cercas temporárias — mais um custo — ao redor dos terrenos. Ainda assim, disseram que alguns trabalhadores entram em pânico ou temem que os agentes entrem no local de qualquer forma.

Olhando para uma casa em estrutura, com materiais empilhados no telhado e nenhum trabalhador à vista, Vasquez listou as pessoas afetadas, de financiadores e pequenos empreiteiros a compradores de imóveis.

“Se ninguém voltar para terminar esta casa, muita gente vai sair perdendo”, disse.

Traduzido do inglês por InvestNews