Era janeiro, e Cahillane havia solicitado uma reunião introdutória com o novo CEO da Berkshire, Greg Abel, sucessor de Warren Buffett. O negócio da Kraft Heinz enfrentava dificuldades, e a empresa, avaliada em US$ 25 bilhões, planejava se dividir em duas — ideia à qual a Berkshire se opunha publicamente.
Cahillane, encarregado de executar a separação, levou uma mensagem para Abel: o retorno aos acionistas era prioridade. Ele acreditava que a divisão fazia sentido, embora ainda estivesse estudando o tema.
Na sede da Berkshire, Abel reiterou as preocupações: a Kraft Heinz tinha muitos problemas, mas dividir a empresa não os resolveria.
A reunião não pareceu dissipar essas preocupações.
Em 20 de janeiro, a Kraft Heinz anunciou que a Berkshire poderia se desfazer de quase toda a sua participação de 28% na empresa de alimentos, o que provocou uma forte queda nas ações. Em poucas semanas, Cahillane passaria a concordar com Abel de que a divisão não era o melhor caminho.
A Kraft Heinz havia escolhido Cahillane em dezembro para liderar uma mudança estratégica após uma década difícil para uma das maiores empresas de alimentos do mundo.
Suas ações haviam perdido quase um terço do valor nos cinco anos anteriores, e as vendas caíram em todos os trimestres por dois anos.
A reunião foi um primeiro passo de Cahillane para recolocar a empresa nos trilhos com a Berkshire — uma das arquitetas originais do grupo, que então desaprovava sua direção.
Warren Buffett, CEO de longa data da Berkshire, disse que dividir a fabricante do ketchup Heinz e do macarrão com queijo Kraft seria caro e disruptivo, e que os acionistas deveriam ter votado sobre isso.
“Não cria valor e envolve muitos custos”, disse Buffett em setembro. “Não muda em nada, sabe, o sabor do ketchup.”
Um especialista em cisões
A Kraft Heinz e a Berkshire, sua maior acionista, estão profundamente ligadas desde a criação da empresa, há mais de uma década.
Buffett se uniu à gestora brasileira 3G Capital, de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, para comprar a Heinz em 2013. Dois anos depois, coordenaram a fusão com a Kraft.
Nos anos seguintes, o negócio da Kraft Heinz enfrentou dificuldades, à medida que executivos cortaram custos e investiram pouco em marcas envelhecidas. Buffett, que permaneceu no conselho até 2018, inicialmente defendeu a empresa, mas depois passou a criticar a fusão.
Em 2019, Buffett afirmou que pagou caro demais para ajudar a formar a Kraft Heinz. A Berkshire reduziu sua presença no conselho: Abel se aposentou em 2024, e os dois executivos restantes saíram no ano passado.
Em um momento em que muitas grandes empresas de alimentos enfrentam dificuldades, a Kraft Heinz teve problemas específicos.
A demanda caiu por vários produtos principais, de Lunchables a Capri Sun, à medida que consumidores migraram para opções premium mais modernas ou alternativas mais baratas de marcas próprias.
O ex-CEO Carlos Abrams-Rivera e o conselho decidiram em meados de 2025 que o melhor caminho era dividir a empresa, separando o negócio global de condimentos do de alimentos na América do Norte.
Nos meses seguintes, porém, a companhia discretamente começou a buscar um novo CEO. John Cahill, então vice-presidente do conselho e líder do comitê da divisão, ligou para Cahillane.
Cahillane, maratonista de 1,83 m, cabelo branco marcante e expressão controlada, era um executivo experiente do setor — vindo do sucesso na divisão da Kellogg. Antes disso, também havia separado uma empresa de vitaminas.
‘Um grito por recursos’
Aos 60 anos, Cahillane avaliava seus próximos passos e recebia propostas de empresas como a Constellation Brands, fabricante das cervejas Modelo e Corona. Ele e Cahill haviam trabalhado juntos no conselho da Colgate-Palmolive.
Assumir uma empresa americana icônica o atraiu. Não seria fácil, mas ele conhecia bem os produtos: cresceu comendo cachorro-quente com ketchup Heinz em jogos do Yankees.
Nascido no Bronx, filho de um bombeiro e de uma imigrante irlandesa, começou no setor com um emprego de US$ 5 por hora em uma pizzaria e repondo Kool-Aid em supermercados. Depois da faculdade, passou décadas em empresas como a Coca-Cola e a cervejaria InBev.
Cahillane assumiu a liderança da Kraft Heinz no Ano-Novo. A empresa disse que, após a separação, ele comandaria o negócio de condimentos, com marcas como o ketchup Heinz e a mostarda Grey Poupon.
Ele começou a analisar as finanças e visitar operações, incluindo centros de inovação e uma unidade em Illinois que produz mais de 1 bilhão de libras de produtos por ano.

Também reuniu os 100 principais líderes da empresa e perguntou: o que deu errado? Por que o negócio não cresce? O que é necessário para recuperá-lo?
A resposta foi clara: a empresa estava enxuta demais. Gastos com desenvolvimento de produtos, marketing e promoções estavam abaixo dos concorrentes.
“Muitas vezes ouvi: ‘Tenho apenas uma pessoa júnior cuidando dessa marca. Não dá para fazer diferença assim’”, disse Cahillane. “Foi realmente um grito por recursos.”
Enfrentando o conselho
Quanto mais aprendia, mais Cahillane se preocupava: melhorar o negócio e, ao mesmo tempo, prepará-lo para uma divisão parecia impossível.
No fim de janeiro, ele teria uma reunião com o conselho. Na noite anterior, decidiu mudar o rumo. Contou apenas à esposa. Meia hora antes do encontro, avisou John Cahill, agora presidente do conselho.
Na reunião, elogiou o trabalho feito para separar a empresa — e então apresentou sua nova ideia: esquecer o plano (pelo menos por enquanto).
A empresa terminou 2025 em queda. A divisão custaria US$ 300 milhões e consumiria tempo das mesmas pessoas necessárias para revitalizar as marcas.
“Fazer essas duas coisas bem era inviável”, disse.
Em vez disso, apostaria seu futuro — e o da empresa — em recuperar um “transatlântico” com quase 200 marcas.
O conselho questionou bastante, mas acabou convencido pelo otimismo de Cahillane. Ele propôs investir US$ 500 milhões para revitalizar o negócio; o conselho acrescentou mais US$ 100 milhões.
Depois, ligou para Abel, da Berkshire, e informou a mudança. Em fevereiro, após o anúncio da suspensão da divisão, Abel declarou apoio à decisão.
Próximos passos
Cahillane continua a avaliar diferentes cenários estratégicos. A Kraft Heinz chegou a conversar com a Unilever sobre um possível acordo no setor de alimentos, mas a empresa negocia agora com a McCormick, segundo o Wall Street Journal.
A Kraft Heinz planeja investir pesado em marketing, vendas, pesquisa e desenvolvimento. A estratégia inclui oferecer mais valor ao consumidor, com opções mais saudáveis — como uma nova versão do macarrão com queijo chamada “PowerMac”, com 17 gramas de proteína e 6 gramas de fibra.
“Já disse muitas vezes que é uma história de ‘precisamos provar’”, afirmou Cahillane. “Agora temos que mostrar isso na prática.”
Traduzido do inglês por InvestNews