Algumas pessoas querem reduzir o tempo total de tela ou o uso de redes sociais (eu inclusive). Outras buscam reservar dias regulares sem telas — ou, sendo mais realista, períodos do dia — ou até participar de retiros sem celular.
Uma pesquisa feita pelo aplicativo de bem-estar digital Opal (é verdade, com um público um pouco enviesado) mostrou que 33% dos 1.306 usuários disseram que reduzir o tempo de tela e estar mais presentes era sua principal resolução de Ano Novo, contra 28% que pretendiam emagrecer.
Até adolescentes dizem querer diminuir o uso do celular. Um relatório do Digital Wellness Lab do Boston Children’s Hospital citou uma pesquisa com mais de 1.500 jovens, na qual 63% afirmaram usar o telefone em excesso e 47% disseram recorrer a aplicativos ou ferramentas para gerenciar esse uso.
Já passou da hora de todos reduzirmos o ritmo. Crescem os sinais de que o excesso de telas faz mal à saúde mental — especialmente entre adolescentes e jovens adultos.
Um estudo recente publicado na JAMA Network Open mostrou que jovens adultos que fizeram um detox de redes sociais por uma semana apresentaram redução nos sintomas de ansiedade e depressão, além de menos insônia.
O médico John Torous, autor sênior do estudo e diretor da divisão de psiquiatria digital do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, explica que pesquisas anteriores costumam se basear em relatos das próprias pessoas sobre quanto tempo passam no celular ou nas redes — dados que nem sempre são confiáveis. Ele decidiu fazer diferente.
O estudo funcionou assim: cerca de 400 pessoas, entre 18 e 24 anos, usaram seus celulares normalmente por duas semanas para estabelecer uma linha de base de tempo de tela e outros indicadores. Na terceira semana, foram orientadas a reduzir o uso de redes sociais.
Cerca de 80% conseguiram diminuir o tempo gasto nessas plataformas. A média caiu de cerca de duas horas por dia para apenas 30 minutos.

Os participantes responderam diariamente a perguntas sobre humor, atividade e sono. Após uma semana de detox, apresentaram, em média, redução de 25% nos sintomas de depressão, queda de 16% na ansiedade e diminuição de 14% na insônia. Não houve mudança significativa no nível de atividade física ou no número de passos.
Alguns aplicativos foram mais difíceis de abandonar do que outros. Apps baseados em vídeo, como TikTok e Snapchat, foram mais difíceis de evitar do que plataformas mais textuais, como Facebook ou X, segundo Torous.
Curiosamente, o tempo total de tela aumentou cerca de 4%. “Isso sugere que as pessoas estavam usando o celular para outras coisas”, diz Torous. “O que reforça a ideia de que nem todo tempo de tela é igual.”
Mas o tempo no celular não diz respeito apenas ao que você faz — envolve também o que deixa de fazer. E isso pode impactar positivamente sua saúde física, mental e suas conexões sociais.
Esse é o principal benefício para Andy Liu, estudante universitário de 19 anos na Rutgers University, que se juntou ao Appstinence — um coletivo que defende a eliminação de tecnologias viciantes — há três ou quatro meses.
Liu espera manter, no Ano Novo, um estilo de vida sem aplicativos. Ele já apagou todas as contas de redes sociais e passou a usar um celular simples, de flip. Ainda acessa a internet para estudos e, por poucos minutos ao dia, para coisas como YouTube ou Reddit.
“Não estou completamente offline, mas estou mais focado em atividades que fazem sentido para mim”, diz.
Desde que deixou as redes sociais, ele afirma que se exercita mais, retomou hobbies antigos, como desenhar e pintar, e até aprendeu a cozinhar.
David Bickham, diretor de pesquisa do Digital Wellness Lab do Boston Children’s, diz que adolescentes e jovens estão monitorando o tempo de tela e tentando depender menos dele.
Segundo ele, detox digitais — como ficar um dia ou um fim de semana sem celular — ajudam a perceber o quanto se depende da tecnologia e como se sente sem ela. Isso pode ser libertador.
“Acho que pode ser uma experiência muito positiva. Algumas famílias fazem isso semanalmente, como todo sábado ou domingo sem telas.”
Mas manter essa prática de forma regular pode ser difícil e nem sempre é viável.
Nem todo uso de redes sociais é ruim, ressalta Bickham. Há evidências de que interagir com amigos pode ser positivo e aumentar a sensação de pertencimento. Já usar redes para se conectar com desconhecidos costuma estar mais associado a sentimentos negativos, como solidão.
“Faz sentido que, quando alguém se sente sozinho, procure essa conexão online”, diz.
Quer fazer um detox digital ou apenas reduzir o uso do celular? Algumas dicas:
- Não vá ao extremo. Se você passa várias horas por dia nas redes, zerar tudo não é realista. Comece reduzindo gradualmente.
- Use limites de tempo no próprio celular ou aplicativos específicos.
- Crie zonas ou horários sem tecnologia, como fora do quarto ou antes de dormir.
- Substitua o tempo de tela por outras atividades: socializar, se exercitar, dormir mais cedo — ou até ligar para um amigo em vez de rolar a tela sem parar.
- Não se culpe. “A tecnologia é desenhada para dificultar o controle do tempo”, diz a médica Sajita Setia, pesquisadora sobre tempo de tela e saúde mental. “Não é falta de força de vontade. Não dá para vencer a tecnologia sozinho.”
Traduzido do inglês por InvestNews