Depois de perder a tentativa de reeleição no ano passado, Lazarus Chakwera ordenou que os quatro cães de guarda do palácio presidencial em Lilongwe (capital do Malawi) fossem colocados em um caminhão da polícia e levados para sua residência particular, a cerca de 10 quilômetros de distância. (Os quatro que ficavam em um segundo palácio, em Blantyre, permaneceram lá.)

Seu sucessor argumenta que os cães são, em essência, servidores públicos — e que o presidente deve contar com a equipe que acompanha o cargo.

Um mês após assumir, o presidente Peter Mutharika enviou 80 policiais à casa de Chakwera para recuperar os cães. Chakwera, de 70 anos, recusou-se a abrir a porta, dando início a um impasse político e jurídico.

Aliados do ex-presidente no Parlamento correram para sua casa para impedir a retirada dos animais. Seus advogados foram imediatamente aos tribunais.

Mutharika, um advogado de 85 anos que estudou em Yale e lecionou na Universidade Washington, adiou a mudança para o palácio presidencial. Sua equipe completa de segurança, disse ele, ainda não estava montada.

A disputa pela custódia agravou divisões políticas mais banais entre os dois partidos que dominam esta nação agrícola — e entre seus seguidores fiéis.

Durante a campanha, Chakwera prometeu combater a corrupção, enquanto Mutharika prometeu melhorar a economia. Analistas atribuem a derrota de Chakwera ao fracasso em cumprir ambos os objetivos durante seus cinco anos no poder, um período marcado por corrupção generalizada e crescimento fraco.

“Chakwera nunca conseguiu lidar de fato com os desafios econômicos do país, falhou em controlar a inflação e fez muito pouco para combater a corrupção”, disse Louw Nel, analista político focado em mercados africanos da consultoria Oxford Economics. “Sua derrota eleitoral em setembro não foi inesperada.”

Ainda assim, os apoiadores de Chakwera ficaram desanimados com a derrota e alarmados com a possibilidade de ele ser privado dos cães de guarda. Um deles, o pastor James Sekeya, publicou uma série de vídeos pró-Chakwera e pró-cães, incluindo um que teve mais de 12.600 visualizações — um público significativo em um país onde apenas 8% da população usa redes sociais.

“Todas as pessoas em todo o Malawi estão falando desses quatro cães pastores alemães”, disse Sekeya em uma das postagens, enquanto imagens genéricas dos cães passavam ao fundo.

Chakwera era teólogo da igreja Assemblies of God antes de entrar para a política, e Sekeya, que se descreve como profeta, advertiu qualquer um que tentasse mexer com o ex-presidente a não esperar ajuda divina. “Não me mandem pedidos de oração”, disse ele.

Os cães, avaliados em US$ 2.300, foram retirados do palácio de Lilongwe entre 19 de setembro e 4 de outubro, segundo registros da polícia. Desde então, eles fazem a guarda da entrada principal da casa de Chakwera durante o dia. À noite, patrulham a ampla propriedade para garantir que intrusos não ultrapassem o perímetro, segundo vizinhos.

Apoiadores dizem que os cães protegem seu líder de várias ameaças, incluindo feitiçaria, que muitos malauianos consideram um elemento real e perigoso da vida cotidiana.

“O ex-presidente tem direito à segurança do Estado”, disse o advogado de Chakwera, George Jivason Kadzipatike.

Já os apoiadores de Mutharika argumentam que Chakwera, ao retirar os cães poucos dias após a eleição, comprometeu intencionalmente a segurança de seu sucessor.

“Os cães foram retirados para enfraquecer a segurança do novo presidente”, disse Comrade Ntanyiwa, que dirige a rádio Limpopo FM, em uma transmissão no mês passado. “Agradecemos a Deus por ele ainda estar vivo e bem.” Mutharika finalmente se mudou para o palácio presidencial em 20 de dezembro, mais de dois meses após sua posse.

Depois que Mutharika não conseguiu recuperar os cães em novembro, o Tribunal de Magistrados de Lilongwe proibiu temporariamente a polícia de novas tentativas de apreendê-los. A decisão baseou-se em uma tecnicalidade: a polícia exigiu a entrega de quatro pastores alemães; os cães em disputa são, na verdade, um pastor holandês e três malinois belgas.

No dia seguinte à decisão, a polícia obteve uma ordem judicial especificando as raças corretas. Dois dias depois, o tribunal revogou o mandado de busca para permitir uma audiência completa e uma decisão sobre todo o caso. Até agora, não houve veredicto final.

A confusão sobre as raças também complicou o caso da acusação contra Godfrey Jalale, um oficial militar aposentado de 64 anos que havia sido vice-chefe de gabinete de Chakwera. Ele foi preso em novembro e acusado de roubar quatro pastores alemães.

Segundo a polícia e os documentos de acusação, Jalale admitiu ter usado um veículo do governo, equipado com canis e compartimentos para ração, para transportar os cães até a casa do ex-presidente.

Jalale se declarou inocente. Seu advogado se recusou a comentar o caso.

Nos últimos dias, policiais — a pé e em veículos, alguns equipados com óculos de visão noturna — têm circulado perto da casa de Chakwera tentando obter um vislumbre incriminador dos cães, disseram moradores.

Um novo mandado de busca exige que haja uma visualização dos animais antes que a polícia possa entrar e revistar o local, “tomar posse dos referidos artigos (cães) e apresentá-los imediatamente a este tribunal”. Até agora, os esforços não tiveram sucesso.

“Parece que esses cães também dominaram a arte de se esconder e ficar fora de vista”, disse Bournemore Kapempwe, morador de Lilongwe.

Escreva para Nicholas Bariyo em nicholas.bariyo@wsj.com

Traduzido do inglês por InvestNews