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Como um dos clubes de futebol mais ricos do mundo, o Paris Saint-Germain tende a não se preocupar muito com os vizinhos.

O clube é o atual campeão europeu e possui mais títulos do que qualquer outro time da França. Apoiado pelo Catar, pode contratar qualquer jogador que desejar. E por quase 40 anos, não havia sequer outro clube de primeira linha competindo pela atenção da capital francesa.

Então, o Paris F.C. se instalou do outro lado da rua.

Não apenas o clube alugou um estádio de rúgbi a apenas 44 metros da casa do PSG no Parc des Princes, mas também veio com o apoio da família do magnata do luxo Bernard Arnault. E quando os dois clubes se enfrentaram como rivais da primeira divisão no domingo — com vitória do PSG por 2 a 1 — a partida se tornou instantaneamente um dos confrontos mais ricos do esporte. Não se trata de bilionários de fundos de hedge contra gestores de longo prazo. É o poder de um gigante do petróleo contra a maior fortuna que o setor de luxo já conheceu — e que, por acaso, compartilham o mesmo quarteirão.

“É lindo para a cidade”, disse o técnico do PSG, Luis Enrique. “São partidas especiais.”

O Paris Saint-Germain e a família Arnault sempre ocuparam polos opostos da vida parisiense. De um lado, o PSG é o clube das massas, atraindo torcedores de todas as camadas da cidade e arredores. Vencedores da Palma de Ouro e ícones da moda se reúnem nas cabines privadas, enquanto ultras sem camisa cantam até perder a voz atrás dos gols.

A LVMH, metade pertencente aos Arnault e principal fonte de sua riqueza, representa a elite e negocia em exclusividade. Sua sede na Avenue Montaigne fica a pouco mais de 4 km do Parc des Princes, mas os ambientes são mundos à parte. Até mesmo outras incursões da família Arnault no esporte estão muito distantes dos domingos de Ligue 1 regados a cerveja. Suas marcas fornecem troféus Tiffany ao US Open, Champagne Moët & Chandon para a Fórmula 1, malas Louis Vuitton para transportar a Copa do Mundo e ternos Berluti sob medida para atletas olímpicos franceses.

“Achei que seria muito positivo para a imagem da família fazer algo inesperado”, diz Antoine Arnault, filho mais velho de Bernard Arnault. “Fazer algo no esporte mais popular, algo que ninguém jamais imaginou ou nos viu desempenhar um grande papel.”

Com apenas um clube de primeira divisão, Paris era uma exceção entre as grandes cidades europeias, onde rivalidades fervilham por classe, geografia e política. Em Madrid, as torcidas se dividem entre Real e Atlético. Roma é dividida entre AS Roma e Lazio. E Londres tem suas lealdades espalhadas por pelo menos meia dúzia de clubes.

Mas a capital francesa era uma cidade com um só clube. Foi o que viu a Qatar Sports Investments ao assumir o PSG em 2011. A ideia era usar o clube como parte de um esforço multibilionário de branding para expandir a relevância e influência global do pequeno estado do Golfo. Para a família Arnault, o objetivo é mais próximo de casa.

Ilustração: João Brito
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O Paris F.C. é, em parte, um projeto público de grupo para os cinco filhos de Bernard Arnault. O quinteto trabalha junto no grupo LVMH, cada um ocupando um cargo sênior. O grupo privado no WhatsApp é dominado por discussões de negócios, interrompidas apenas por fotos ocasionais da família. Antoine sentiu que faltava algo “mais do lado emocional”, diz ele. “Havia um desejo comum de construir algo juntos, de ter uma história que nos reunisse a cada duas semanas em um estádio.”

Então ele e o irmão Frédéric começaram a pesquisar clubes na França. Dois outros times considerados de perto também tinham ligação com o luxo: Bordeaux, um antigo gigante agora na quarta divisão, e Reims, no coração da região de Champagne.

O Paris F.C., relativamente obscuro, acabou se tornando o favorito. Jogando então na segunda divisão francesa, o clube tinha muito espaço para crescer — muitos parisienses mal sabiam de sua existência. Os Arnault logo nomearam o CEO da Veuve Clicquot, uma das casas de Champagne da LVMH, para supervisionar a imagem do clube.

Até então, o Paris F.C. era apenas uma nota de rodapé no cenário esportivo da cidade. Fundado em 1972 após uma cisão com o PSG, o clube passou por pelo menos três mudanças de nome e quatro estádios. O mais recente foi o Stade Charlety, com capacidade para 20.000 pessoas, em uma área tranquila do 13º arrondissement, onde poucos torcedores assistiam separados do campo por uma pista de atletismo. Antes de 2025, o clube havia passado apenas uma temporada na primeira divisão francesa.

O que a rivalidade local perde em história, compensa em proximidade física. O novo estádio do Paris F.C., normalmente ocupado pelo Stade Français Rugby, fica tão perto do PSG que abriga a megastore do clube.

Mas a distância entre eles em campo é muito maior. A ambição ilimitada do PSG fez o clube gastar mais de US$ 2 bilhões desde a aquisição pelos catarianos em superestrelas como Zlatan Ibrahimovic, Kylian Mbappé, Neymar e Lionel Messi. O orçamento do Paris F.C. é mais modesto. Por enquanto, o objetivo é simplesmente manter o time fora da zona de rebaixamento.

Perder “um pouco” é aceitável, diz Arnault. Perder centenas de milhões não é. “Se alcançarmos o ponto de equilíbrio, ficaremos felizes.”

A ironia disso tudo é que Antoine Arnault não sonha realmente em tirar o PSG do topo. Afinal, PSG é o clube que ele torceu a vida inteira. Ele foi ao primeiro jogo em 1988 com o avô. Na adolescência, Antoine tinha ingresso anual. E quando o PSG venceu a Liga dos Campeões em maio passado, foi a realização de um sonho de vida inteira. Mas, como proprietário, ele está disposto a tolerar um pouco de dissonância cognitiva.

“Não acho inaceitável apoiar dois clubes em Paris”, disse Arnault. “Vou torcer pelo PSG — exceto, obviamente, duas vezes por ano.”

Escreva para Nick Kostov em nick.kostov@dowjones.com e para Joshua Robinson em Joshua.Robinson@wsj.com

Traduzido do inglês por InvestNews