“A queda de cabelo é uma doença, não é?”, perguntou o líder de 61 anos.
Lee, que tem uma cabeleira volumosa, perguntou ao ministro da Saúde se o sistema público de saúde poderia cobrir tratamentos contra a queda de cabelo. Ele quer que as contas sejam feitas. Informado de que a calvície é geralmente vista como um problema estético, pago do próprio bolso, Lee retrucou que jovens com cabelo ralo encaram sua situação como uma “questão de sobrevivência”.
Enquanto o mundo se concentra em inflação, guerra e imigração, o presidente sul-coreano está chamando atenção para um inimigo pouco reconhecido: a queda de cabelo.
A Coreia do Sul é mundialmente famosa por sua estética, de ídolos galãs e atrizes de aparência impecável a rotinas elaboradas de cuidados com a pele e cirurgiões plásticos de classe mundial. Mas a obsessão com a aparência não é apenas uma estratégia de exportação.
A a vantagem concedida aos fisicamente atraentes é um conceito amplamente aceito. “Sua aparência também é uma credencial” é uma expressão comum. Quase todos os empregos — até mesmo para baristas de meio período — exigem uma foto no currículo.
O debate sobre a proposta de Lee, de esquerda, para incluir tratamentos contra a queda de cabelo na cobertura pública, dividiu o país ao meio.
Kim Sang-jin, cientista de laboratório médico de 33 anos, apoia totalmente qualquer ajuda do governo. Ele não tinha muita ansiedade com o cabelo até alguns anos atrás, quando amigos apontaram que seus fios estavam ficando ralos.
Ele usou xampus que prometiam reverter a queda. Aplicou espumas tópicas. Nada funcionou. Kim recorreu ao irmão mais novo, que recomendou uma clínica que havia ajudado no seu caso. Agora, ele aguarda para ver se o tratamento dará resultado.
“Seria ótimo se isso fosse coberto, já que o custo é bastante alto”, diz Kim. Ele gasta cerca de US$ 100 por mês, mas não consegue parar. “Tenho medo de que meu cabelo desapareça de uma hora para outra.”
Seo Eun-ji, de 26 anos, não acha que seus impostos devam financiar um problema que pode ser resolvido individualmente e que afeta de forma desproporcional os homens. E ela também não é uma observadora neutra.
Seo começou a perder cabelo ainda no ensino médio. Comeu mais feijão-preto, esfregou o couro cabeludo com sabonete francês e optou por permanentes na raiz. Ela considera seu cabelo fino, mas com volume suficiente, e o mantém curto. “É solucionável”, diz Seo, editora de publicações jurídicas.
A Associação Médica Coreana, o maior grupo de médicos do país, classificou como “questionável” a cobertura de tratamentos contra a queda de cabelo, dado o orçamento apertado do sistema de saúde.
A Coreia do Sul é tão dominada por cabeças de cabelo luxuoso — real ou imaginário — que as poucas figuras públicas com fios ralos se destacam bastante. Um dos atores mais famosos do país, Kim Kwang-kyu, tornou-se o rosto de um meme popular chamado “raio da queda de cabelo”.
Sua foto aparecia sobre um texto que implorava aos destinatários que digitassem “Deixe meu cabelo crescer, crescer” em até 30 segundos — ou seriam, de brincadeira, amaldiçoados a ficar carecas.
Mais de três em cada quatro sul-coreanos acreditam que todos têm preocupações com a queda de cabelo, segundo uma pesquisa recente do Embrain Trend Monitor. Cerca de metade dos entrevistados, apesar de não apresentar sintomas de calvície, afirmou ter interesse em tratamentos.
A Coreia do Sul, um dos países menos racialmente diversos do mundo, tem uma definição mais rígida de beleza do que sociedades multiétnicas como os EUA, afirma S. Heijin Lee, professora da Universidade do Havaí em Mānoa, que pesquisa a obsessão sul-coreana pela aparência.
“De muitas formas, sua aparência e beleza são uma métrica da classe socioeconômica a que você pertence”, diz a professora Lee.
O presidente Lee, que venceu uma eleição antecipada em junho, havia prometido cobrir tratamentos contra a queda de cabelo quando concorreu sem sucesso à Presidência em 2022. Mas abandonou a ideia ao disputar novamente o cargo. Na recente reunião de políticas públicas, Lee ressuscitou a proposta como forma de atrair os jovens, que vêm demonstrando crescente insatisfação com seu governo.
“Quero que vocês analisem isso para que os jovens possam sentir: ‘eu também pago meus prêmios e estou recebendo algum benefício’”, disse Lee. O Ministério da Saúde está avaliando a adequação dos tratamentos para inclusão na cobertura.
A implementação não pode chegar rápido o suficiente para Lee Ki-eun, médica residente de 26 anos. Ela já teve um cabelo tão volumoso que seus cabeleireiros reclamavam. Agora, os fios estão afinando, o que ela atribui ao estresse do trabalho. Ela começou a usar tratamento tópico.
Ela teme que ter menos volume de cabelo possa limitar suas oportunidades de emprego em clínicas médicas especializadas em estética ou dermatologia. Mas, por enquanto, o maior medo é o que seus pacientes podem pensar enquanto ela os atende.
“Estou constantemente consciente de que alguém pode estar olhando para a parte de trás da minha cabeça”, diz Lee.
Jemin Park, designer de 27 anos, afirma que preferiria que o governo direcionasse recursos para encontrar uma cura. Sua cabeça, por enquanto, está cheia de cabelo. Mas nenhum de seus avôs tinha muitos fios; seu pai tem entradas acentuadas.
“Todo mundo pensa nisso”, diz Park. “As únicas pessoas que não se preocupam são aquelas cujos pais, dos dois lados, têm cabelos muito grossos.”
Han Sang-won mal consegue se lembrar de quando ficou careca. O aposentado de 87 anos perdeu a maior parte do cabelo décadas atrás. Ele se mostra confuso com uma possível intervenção do Estado, mas se solidariza com jovens que querem manter o cabelo por mais tempo.
“Quando tudo vai embora”, diz Han, “não há mais nada que se possa fazer.”
Traduzido do inglês por InvestNews
