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No domingo (11) à noite, Jerome Powell fez algo inédito em seu mandato como presidente do banco central dos Estados Unidos. Gravou um vídeo curto, direto, sem o vocabulário calibrado que marca suas coletivas, para acusar o governo do presidente Donald Trump de pressioná-lo politicamente. O instrumento para isso seria uma ameaça de processo criminal contra o homem que chefia o Federal Reserve.

O episódio foi detalhado pelo Wall Street Journal e abriu uma crise institucional rara mesmo nos padrões turbulentos de Washington. Presidentes já criticaram o Fed no passado, mas nenhum havia chegado ao ponto de associar uma investigação criminal ao chefe da autoridade monetária em pleno exercício do cargo. Para analistas ouvidos pelo WSJ, trata-se de um precedente sem paralelo na história recente dos Estados Unidos.

O estopim foi a chegada, na sexta-feira (9), de intimações judiciais ligadas a uma investigação conduzida pelo Departamento de Justiça. O caso gira em torno do depoimento de Powell ao Congresso, em junho, sobre um projeto de US$ 2,5 bilhões para a reforma de prédios históricos do Fed em Washington. Autoridades da Casa Branca passaram a sustentar que Powell teria distorcido informações ou descumprido exigências legais. O presidente do Fed rejeita essa leitura e diz que o tema virou apenas um pretexto. O alvo verdadeiro, segundo ele, é a autonomia do banco central na definição da política de juros.

“A ameaça de acusações criminais é consequência de o Fed definir os juros com base no que considera melhor para o público, e não nas preferências do presidente”, disse Powell.

A escolha de transformar o episódio em um ato público, segundo o WSJ, foi uma forma de impedir que a pressão continuasse operando somente nos bastidores. Ao trazer a disputa à luz, Powell força o país — e os mercados — a encarar o que está em jogo.

Trump X Powell

A tensão entre Donald Trump e Jerome Powell não é novidade. O presidente americano pressiona há anos por juros mais baixos, porque cortes estimulam a economia no curto prazo, favorecem o mercado acionário e ajudam na narrativa política. Powell, por sua vez, sustenta que decisões de política monetária precisam responder a dados de inflação, emprego e atividade, não a conveniências eleitorais.

Alguns aliados de Trump apostavam que a pressão levaria Powell a renunciar antes do fim de seu mandato como presidente do Fed, em maio. O vídeo divulgado no domingo, no entanto, aponta na direção oposto e deixa claro que Powell não está disposto a sair em silência.

Os investidores ficaram atônicos. Se contrariar o presidente pode gerar retaliação judicial, como avaliar a independência do próximo comandante do Fed? O episódio muda o teste político para futuros indicados ao cargo. Senadores e mercados tendem a cobrar não apenas credenciais técnicas, mas disposição real para resistir à Casa Branca.

Detalhe da fachada do Federal Reserve
Detalhe da fachada do Federal Reserve. Foto: Getty Images/Lance Nelson

A credibilidade do Fed sustenta a confiança nos juros americanos, no dólar e, em última instância, na arquitetura de mercados que afeta também países como o Brasil.

Se a percepção de autonomia do banco central dos EUA se enfraquecer, o impacto tende a aparecer em três frentes: maior volatilidade nos juros globais, instabilidade no dólar e mais incerteza nos fluxos de capital para emergentes. O que hoje parece uma crise institucional em Washington pode rapidamente atravessar fronteiras.

Powell assumiu o papel central em uma disputa sobre até onde vai o poder do presidente dos Estados Unidos e onde começa o limite das instituições que sustentam o capitalismo moderno.

Leia o comunicado de Jerome Powell:

“Boa noite,

Na sexta-feira, o Departamento de Justiça notificou o Federal Reserve com intimações de um grande júri, ameaçando uma denúncia criminal relacionada ao meu depoimento perante a Comissão de Assuntos Bancários do Senado em junho passado. Esse depoimento tratou, em parte, de um projeto de vários anos para a reforma de edifícios históricos do Federal Reserve.

Tenho profundo respeito pelo Estado de Direito e pela responsabilização em nossa democracia. Ninguém — certamente nem o presidente do Federal Reserve — está acima da lei. Mas essa medida sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua vindas do governo.

Essa nova ameaça não diz respeito ao meu depoimento de junho nem à reforma dos prédios do Federal Reserve. Tampouco se trata do papel de fiscalização do Congresso; o Fed, por meio de depoimentos e outras divulgações públicas, fez todo o esforço para manter o Congresso informado sobre o projeto de reforma. Esses são pretextos. A ameaça de acusações criminais é consequência de o Federal Reserve definir a taxa de juros com base em nossa melhor avaliação do que atende ao interesse público, em vez de seguir as preferências do presidente.

O que está em jogo é se o Fed continuará podendo definir a política de juros com base em evidências e nas condições econômicas — ou se, ao contrário, a política monetária passará a ser ditada por pressão política ou intimidação.

Servi no Federal Reserve sob quatro administrações, republicanas e democratas. Em todos os casos, desempenhei minhas funções sem medo ou favorecimento político, focado exclusivamente em nosso mandato de estabilidade de preços e máximo emprego. O serviço público às vezes exige firmeza diante de ameaças. Continuarei a fazer o trabalho para o qual fui confirmado pelo Senado, com integridade e compromisso com o povo americano.

Obrigado.”