Enquanto as ameaças tarifárias do presidente dos EUA, Donald Trump, envolvendo a Groenlândia dominaram a narrativa dos mercados acionários na semana passada, investidores vinham se protegendo de riscos em outras frentes, tentando se antecipar aos impactos de um modus operandi cada vez mais conhecido: o de falar e voltar atrás.

Com apenas três semanas de 2026, o padrão de mercado lembra o do ano passado: Trump faz ameaças, os mercados começam a demonstrar incômodo e, à medida que a tensão diminui ao longo de alguns dias, as ações voltam a subir gradualmente.

Trata-se de um movimento já bastante conhecido: um pico rápido seguido de reversão. O Cboe Volatility Index (VIX), que mede a volatilidade do S&P 500, saltou na terça-feira (20) e, pouco depois, recuou para abaixo do nível observado na sexta-feira anterior (16), com a curva de futuros encerrando a semana praticamente no mesmo formato.

O VIX é conhecido como o “índice do medo” porque mede quanto os investidores estão pagando por estratégias de proteção contra quedas na bolsa americana: quando essa proteção fica mais cara, o índice sobe; quando fica mais barata, o índice cai. Essas proteções se referem sobretudo a contratos futuros, que podem ser comprados e vendidos conforme a expectativa dos investidores.

Já a curva de juros futuros mostra como o mercado espera que os juros evoluam ao longo do tempo, refletindo percepções sobre crescimento econômico, inflação e riscos à frente. Se a curva “fecha”, no jargão do mercado, significa que a perspectiva é de juro mais baixo, ou seja, menos risco para o mercado, que cobra um menor “prêmio” para investir.

Posição estratégica

Há entre estrategistas a percepção de que os investidores estão cada vez mais preparados para o chamado “TACO trade”, sigla de “Trump Always Chickens Out”, expressão usada no mercado para descrever a percepção de que Trump recua após ameaças mais agressivas. É o que vem limitando tanto a intensidade quanto a duração dos picos de volatilidade.

“Parece muito que ele segue esse manual de agir como se fosse entrar de forma agressiva, sem que ninguém saiba exatamente o que ele pode fazer”, disse Amy Wu Silverman, chefe de estratégia de derivativos da RBC Capital Markets. “Quando surgem esses ‘buracos na estrada’, são bons sinais para buscar um pouco de ganho com a alta.”

Até mesmo algumas tensões geopolíticas recentes tiveram impacto limitado sobre a volatilidade. A forma como Trump enquadrou o acordo envolvendo a Groenlândia em termos de segurança nacional é o tipo de justificativa que a China poderia usar ao apresentar seus próprios argumentos em relação a Taiwan, por exemplo.

“Os mercados parecem cada vez mais insensíveis a violações do direito internacional, seja na Venezuela, no Irã ou na Groenlândia”, disse Antoine Bracq, chefe de assessoria da Lighthouse Canton. “Indiferença semelhante tem prevalecido em resposta a exercícios militares em torno de Taiwan e à invasão em curso da Ucrânia.”

Os demais riscos no foco

Para além das manchetes de Trump que movimentaram os principais índices e o VIX, alguns investidores passaram a montar estratégias de proteção (hedges) contra riscos geopolíticos que poderiam pressionar ações de empresas chinesas e contra a possibilidade de resultados decepcionantes no setor de tecnologia.

Na semana passada, investidores compraram cerca de 400 mil contratos de opções de venda (puts) com vencimento em março do iShares China Large-Cap ETF (FXI), além de 20 mil contratos do KraneShares CSI China Internet ETF (KWEB) e 150 mil puts do Xtrackers Harvest CSI China A-Shares ETF (ASHR).

As puts funcionam como um seguro: elas dão ao investidor o direito de vender um ativo por um preço previamente combinado, protegendo contra quedas. Se o mercado recua, a put se valoriza e ajuda a compensar a perda.

A proteção contra quedas nas ações de semicondutores também ganhou força antes da divulgação de resultados de algumas das maiores empresas de tecnologia nesta semana, incluindo Apple, Tesla e Meta. Investidores compraram opções de venda com vencimento em 30 de janeiro de Nvidia, Oracle e Broadcom.

“Por enquanto, quaisquer correções de mercado tendem a ser de curta duração enquanto a economia dos EUA for vista como resiliente”, disse Bracq, que aponta decepções no setor de tecnologia e deterioração do mercado de trabalho como os reais fatores capazes de alterar o atual regime de baixa volatilidade.

Nesse cenário, e com investidores de varejo ainda dispostos a “comprar na queda”, os picos do VIX devem continuar sendo passageiros, desde que os dados indiquem novos cortes de juros pelo Banco Central americano e uma economia em crescimento. Isso pode mudar se o desemprego e a inflação subirem a ponto de reduzir o fluxo de compras.