A origem do problema está na corrida global por inteligência artificial, que exige data centers equipados com servidores que consomem volumes gigantescos de memória.
O efeito colateral é que a oferta encolheu para fabricantes de smartphones, PCs, consoles e outros eletrônicos, provocando uma alta histórica de preços desde o início do ano passado – maior do que qualquer ciclo anterior.
A Dell elevou em até 30% os preços de alguns notebooks corporativos. PCs de entrada da Acer passaram a oferecer menos memória multitarefa. A chinesa Xiaomi descontinuou a versão com menor capacidade de memória de seu novo aparelho intermediário e aumentou preços. A LG Electronics já revisou para baixo sua projeção de vendas de TVs em 2026.
A Lenovo afirmou em teleconferência de resultados que a alta “sem precedentes” nos preços da memória deve limitar a demanda por PCs e smartphones neste ano. A empresa espera compensar parte da queda com reajustes de preços, especialmente na linha premium.
E isso pode ser apenas o começo. Gigantes como Apple, Nintendo e Samsung conseguem comprar grandes volumes antecipadamente para se proteger de novas altas. Mas os estoques têm prazo de validade.
O resultado é que um ano que já seria difícil para smartphones, PCs e consoles está ficando ainda mais desafiador. As projeções de embarques globais continuam sendo revisadas para baixo.
Memória é um dos componentes mais essenciais da indústria de tecnologia e se divide em dois grandes tipos. A DRAM executa tarefas imediatas, como rodar aplicativos. Já a memória NAND flash é responsável pelo armazenamento de fotos, vídeos e outros dados.
Nos últimos 12 meses, os preços contratados de DRAM e NAND subiram cerca de sete vezes, segundo dados da consultoria TrendForce.

Com os investimentos em infraestrutura de IA ainda em ritmo acelerado, analistas dizem que não há sinais de alívio próximo. A oferta deve permanecer apertada pelo menos até 2028.
O momento é particularmente sensível para a indústria de eletrônicos de consumo, que tenta incorporar mais recursos de IA aos seus próprios produtos, afirma Bryan Ma, vice-presidente da consultoria IDC.
“Para rodar modelos de IA de forma eficiente em smartphones e PCs, é preciso configurações de memória mais robustas. Com essa pressão de preços, o setor está sendo empurrado na direção contrária, tendo que reduzir especificações”, diz Ma.

Os PCs são especialmente vulneráveis, já que a memória pode representar até 30% do custo total de fabricação.
A Dell começou a reajustar preços em meados de dezembro. A empresa já havia alertado para a possibilidade em seu balanço anterior. “É inevitável que isso chegue ao consumidor”, afirmou Jeff Clarke, diretor de operações da companhia.

O CEO da Apple, Tim Cook, disse no mês passado que o impacto nos resultados ainda foi limitado no último trimestre, mas deve aumentar agora. “Continuamos vendo os preços de memória subirem de forma significativa”, afirmou.
A Samsung afirmou que começou a sentir escassez de memória para dispositivos móveis no fim do ano passado. “Esperamos um ambiente de negócios desafiador em 2026”, disse Seong Cho, executivo da divisão móvel da empresa.
O presidente da Xiaomi, Lu Weibing, afirmou recentemente que os aumentos de preços em smartphones vieram para ficar. O novo modelo topo de linha da marca não oferece mais versão com 256 GB de armazenamento – apenas a versão com o dobro de memória, cerca de US$ 70 mais cara que a geração anterior.
Para fabricantes menores, com margens mais apertadas, a alta destrói a lógica tradicional de queda contínua nos custos de componentes. “O modelo de entregar mais especificações por menos dinheiro não é mais sustentável em 2026”, afirmou Carl Pei, CEO da britânica Nothing.
Após a Nintendo alertar que a memória pode pressionar as margens do console Switch 2, as ações da companhia caíram 11% no dia seguinte.
Os efeitos se espalham além do varejo de eletrônicos. A Microsoft projeta que as vendas do Windows para fabricantes de PCs – um termômetro da demanda – devem cair cerca de 10% neste ano.
A Qualcomm, fornecedora de chips para smartphones, afirma que o mercado segue sólido – com uma ressalva. “Só gostaríamos que houvesse mais memória”, disse o CEO Cristiano Amon.
Escreva para Jiyoung Sohn at jiyoung.sohn@wsj.com
Traduzido do inglês por InvestNews