A C&A enfrentou um ambiente mais desafiador e competitivo no varejo de moda brasileiro a partir do quarto trimestre de 2025, com uma mudança no perfil da demanda que privilegiou peças de entrada com preços mais baixos, sob impacto das condições econômicas. 

E isso afetou seus resultados – e potencialmente os de outras varejistas que ainda vão divulgar os seus números -, o que havia sido antecipado em parte pelo mercado com as informações então disponíveis.

A mudança no perfil de demanda foi captada pela C&A no meio do último trimestre, com a readequação do seu sortimento para atender a essa mudança. Mas não a tempo de impedir que as vendas de vestuário recuassem 0,3% no conceito “mesmas lojas” (Same Store Sale) na base anual, sob efeito também de um fim de ano com temperaturas mais amenas – no ano cheio de 2025, houve expansão de 8,5% nessa métrica, segundo o resultado divulgado na noite de terça-feira (24).

Ao mesmo tempo, a busca do consumidor por peças de preços mais acessíveis se deu em uma faixa em que varejistas nacionais sofrem a concorrência de plataformas de e-commerce, notadamente asiáticas como Shein e Shopee.

Mas, segundo a direção da C&A, o ambiente desafiador não muda a execução da estratégia de aceleração dos investimentos, principalmente na abertura de novas lojas, na reforma de um número maior das que já estão em operação e em tecnologia para melhorar a experiência do cliente e, como consequência, gerar mais conversão em vendas.

“Construímos ao longo dos últimos anos uma situação financeira mais sólida que nos permite, mesmo diante de um quadro mais desafiador, manter os planos de aumento dos investimentos para o crescimento”, disse o CEO da C&A, Paulo Correa, ao InvestNews.

O executivo que comanda a rede varejista desde 2015 se refere a métricas como o caixa líquido positivo (caixa menos dívida) de R$ 83,7 milhões, o que significou que a companhia zerou a alavancagem, que estava em 0,5x o Ebitda um ano antes.

O fluxo de caixa livre ajustado foi de R$ 843,8 milhões, sinalizando que a empresa continua a gerar caixa com sua operação.

“Essa construção de valor que se traduziu na geração de caixa nos dá confiança redobrada para continuar a investir”, disse o CEO da C&A. “Em um contexto macroeconômico de juros tão altos, isso [ter caixa líquido positivo] ajuda muito o resultado financeiro.”

Os investimentos (capex) cresceram 52% no ano passado, para um total de R$ 545 milhões, e a projeção é que haja um novo acréscimo da ordem de 15% a 20% em 2026, segundo antecipou o executivo.

Os recursos serão alocados neste ano para acelerar a abertura de lojas, que deve ficar no intervalo de 10 a 15, com foco prioritário no chamado Tíer 3, que são cidades com população entre 100 mil e 500 mil habitantes em que a empresa hoje não tem presença.

Em 2025, foram abertas dez novas lojas, das quais sete no quarto trimestre.

A frente de reformas inclui lojas no novo conceito Energia C&A, que teve sua primeira unidade aberta em agosto passado com uma flagship store no Shopping Center Norte, em São Paulo, e que trouxe evolução em diferentes métricas, de conversão em vendas a ticket médio e NPS (Net Promoter Score, métrica universal de satisfação do consumidor).

Na frente de tecnologia, Correa citou inovações como o projeto chamado de Home for You, que será apresentado hoje ao mercado na teleconferência com analistas: consumidores que acessarem o site da C&A e realizarem o login terão uma experiência personalizada de acordo com as suas preferências e seu histórico de compra e navegação.

“É uma máquina de conversão [em vendas]. Aumentamos a personalização para quem comprar no site ou no app, com uso de algoritmos com recomendações de compra. [Nos testes], houve também crescimento no número de visitas e de permanência no site.”

Para o executivo, são justamente os investimentos que vão dar condições para que a rede varejista continue a sustentar não só o crescimento, que chegou a 9,2% nas receitas com vestuário em 2025, para R$ 7,060 bilhões, como expandir sua margem bruta tanto do varejo como consolidada – avançou de 54,7% para 55,5% no último ano.

Na concorrência com plataformas de e-commerce, mais do que preço, o CEO da C&A disse que a estratégia da companhia será apostar em produtos de valores semelhantes com mais qualidade, citando de modelagens e cores a tecidos, como algodão peruano.

O perfil de consumo que privilegia peças de vestuário de entrada deve persistir nos próximos meses, na avaliação de Correa, citando juros em patamares ainda elevados, a despeito da perspectiva de início de queda a partir do mês de março.