Na primeira carta como CEO — e sucessor escolhido por Warren Buffett — executivo reafirma “balanço fortaleza”, disciplina de capital e apetite para negócios quando aparecerem as oportunidades certas.

A primeira carta anual de Greg Abel como CEO da Berkshire Hathaway veio com um objetivo claro: sinalizar estabilidade. Escolhido por Warren Buffett para conduzir a próxima fase do conglomerado, Abel estreou diante dos acionistas defendendo, em essência, que a Berkshire continuará sendo a Berkshire — com a mesma filosofia, os mesmos freios e a mesma paciência.

O recado mais direto foi sobre o tema que há meses domina as conversas em torno da companhia: o caixa. A Berkshire encerrou 2025 com US$ 373,1 bilhões em caixa e títulos do Tesouro americano, um nível recorde.

Para Abel, isso não significa que o grupo “desistiu” de investir ou se refugiou em liquidez por falta de ideias. “Muitas vezes na história da Berkshire, alguns observadores sugeriram que nossa posição substancial de caixa sinaliza uma retirada dos investimentos. Não é isso”, escreveu.

A leitura, portanto, é de continuidade — inclusive no jeito Buffett de encarar o dinheiro parado: como opcionalidade. Abel descreve o balanço como um “ativo estratégico” que permite agir com rapidez quando o mercado trava, investir quando outros hesitam e atravessar períodos de estresse sem sacrificar negócios. Ou seja: o caixa não é tese; é munição para a tese.

Abel, de 63 anos , é um executivo “feito em casa” — mas não no sentido clássico de Wall Street. Ele entrou em 1992 na então CalEnergy, empresa do braço de energia que mais tarde viraria a Berkshire Hathaway Energy, e construiu a carreira ali, subindo da operação para o topo até comandar o negócio.

Nos últimos anos, já era o principal nome de Buffett para tocar a alocação de capital do grupo e a supervisão das subsidiárias não financeiras — o que ajuda a explicar por que sua estreia como CEO vem carregada de continuidade.

Warren Buffett presente

Ao reforçar suas credenciais, Abel repete os pilares que fizeram da Berkshire um caso à parte no capitalismo americano. É uma estrutura descentralizada (autonomia para as subsidiárias), império de seguros como motor de caixa e um portfólio gigante de ações que, agora, passa a ter nele — e não mais em Buffett — o responsável final. “A responsabilidade, em última instância, recai sobre mim como CEO”, escreveu, ao falar da alocação de capital e dos investimentos em equities.

Warren Buffett fala no palco durante a Cúpula das Mulheres Mais Poderosas da Fortune - Dia 2 no Mandarin Oriental Hotel em 13 de outubro de 2015 em Washington, DC. Foto: Paul Morigi/Getty Images
Warren Buffett continua sendo figura comum no escritório Foto: Paul Morigi/Getty Images

A carta também deixa claro o que não muda. Abel reiterou que a recompra de ações segue sendo uma opção, mas sem a pressa típica de empresas que tentam “fabricar” retorno para o acionista no curto prazo.

E reafirmou a aversão histórica da Berkshire a dividendos: a companhia não pretende distribuir caixa enquanto a administração e o conselho acreditarem que conseguem gerar mais valor reinvestindo esse capital.

No pano de fundo, há uma transição simbólica: Buffett segue presente — Abel afirma que ele continua indo ao escritório cinco dias por semana e permanece disponível para aconselhar —, mas a carta marca o início do ciclo em que o sucessor deixa de ser “herdeiro” e passa a ser, de fato, o dono do volante.

Abel não está tentando reinventar a Berkshire. Ao contrário, ele parece decidido a preservar a fórmula que fez a companhia atravessar décadas de ciclos — e a principal mensagem dessa estreia é que o caixa recorde não é um sinal de medo. É, na visão do novo CEO, uma escolha deliberada para manter a Berkshire pronta para comprar quando o preço — e o momento — fizerem sentido.