A crise no Oriente Médio, que evolui rapidamente, está aumentando a ansiedade dos investidores e reforçando a aposta em operações de “porto seguro”, como Treasuries, ouro e o franco suíço.

Traders de macro dizem que todas as atenções estarão voltadas para o mercado de energia quando as negociações forem totalmente retomadas na segunda-feira, com indícios iniciais de volatilidade também esperados quando o dólar e outras moedas começarem a ser negociados na Austrália.

A possibilidade de uma turbulência prolongada na região — e os efeitos em cadeia de preços mais altos do petróleo — estão dando a gestores novos motivos para vender ações e migrar para ativos defensivos.

Segundo John Briggs, chefe de estratégia de juros dos EUA no Natixis, os traders devem adotar a estratégia de “porto seguro primeiro, perguntas depois”. “A escala dos ataques e da retaliação iraniana é maior do que o mercado esperava”, afirmou.

Briggs disse que os Treasuries provavelmente vão estender o movimento de sexta-feira, quando os rendimentos de curto prazo caíram para níveis vistos pela última vez em 2022. Outros acompanham gargalos do setor de energia. Dave Mazza, da Roundhill Financial, disse estar monitorando de perto o que acontece com o tráfego no Estreito de Hormuz, um corredor estreito que responde por cerca de um quarto do comércio marítimo global de petróleo.

“Isso é sobre o risco em Hormuz, não sobre retaliação. Se o transporte continuar aberto, as ações conseguem digerir o choque”, disse Mazza. “Se não, qualquer cenário é possível.”

Avaliações esticadas em ações e crédito no mundo também facilitam a decisão de reduzir risco, disse Ed Al-Hussainy, gestor da Columbia Threadneedle Investments. Os mercados já vinham tensos por mudanças na política tarifária dos EUA, pela disrupção da inteligência artificial e por estresses ligados ao crédito privado.

“Ninguém sabe ao certo o tamanho desse movimento de redução de risco”, disse Al-Hussainy.

O índice Tadawul All Share, da Arábia Saudita, abriu o domingo com queda de quase 5%, mas reduziu boa parte da perda. Enquanto isso, o bitcoin se recuperou e era negociado perto de US$ 68 mil. Opções de venda (puts) sobre a criptomoeda somando US$ 1,87 bilhão estavam concentradas no nível de US$ 60 mil na Deribit, sinalizando demanda persistente por proteção contra quedas.

A ansiedade com a possibilidade de ação militar já havia começado a aparecer nos mercados na sexta-feira. O Brent fechou no maior nível desde julho, enquanto o S&P 500 caiu 0,4% no dia, encerrando sua maior perda mensal desde março.

Barras de ouro enfileiradas e duas em cima delas
“Agora, mais do que nunca, as carteiras devem ser montadas para resiliência — com ouro e exposição a setores que os governos consideram estrategicamente vitais”, diz o JP Morgan (Foto: Getty Images)

Estrategistas do Barclays alertaram contra a tentação de “comprar a queda” cedo demais. Os investidores se acostumaram com episódios geopolíticos que se dissipam rapidamente, mas este pode durar mais, escreveu Ajay Rajadhyaksha, chairman global de research do banco, citando o potencial de baixas americanas, ataques a lideranças iranianas e interrupções no tráfego em Hormuz.

“O risco-retorno não parece atrativo”, disse. “Se as ações recuarem o suficiente (digamos, mais de 10% no S&P 500), provavelmente vai chegar um momento de comprar. Mas ainda não.”

A seguir, o que outros investidores e estrategistas disseram:

Kevin Gordon, chefe de pesquisa e estratégia macro da Charles Schwab
“Se isso elevar os preços do petróleo de forma um pouco mais sustentada, pode haver um susto inflacionário de curto prazo que assuste o mercado de ações. Mas os investidores precisam distinguir o risco de manchete do risco para o resultado: se o conflito não tiver impactos relevantes sobre crescimento ou lucros, uma reação negativa nas ações pode ser breve.”

Vincent Mortier, CIO da Amundi
“No curto prazo, enquanto se espera mais clareza, podemos ver um salto no preço do petróleo (5% a 10%), juros americanos mais baixos, ouro em alta e ações um pouco para baixo (cerca de 1%). Isso também serve de desculpa para alguma realização de lucros quando os mercados estão em máximas históricas.”

Francis Tan, estrategista-chefe para Ásia da Indosuez Wealth Management
“Há alta probabilidade de a Ásia — e depois Europa e EUA — abrir com um ‘gap’ de baixa em modo risk-off. O impacto imediato deve recair sobre ações de companhias aéreas e de viagem, com notícias sobre fechamentos de espaço aéreo no Oriente Médio e possíveis cancelamentos de voos que precisavam usar esse corredor rumo à Europa.

Se a situação no Golfo se sustentar por alguns meses, o petróleo pode ser precificado acima de US$ 100 o barril, reduzindo expectativas de novas altas de juros do Fed em 2026. Isso pesaria sobre ações de crescimento — e, em particular, tecnologia.”

Gregory Faranello, chefe de juros dos EUA na Amerivet Securities
“A operação militar com o Irã pode durar algumas semanas. Não acreditamos que se arraste. Nos últimos quatro anos, os Treasuries ficaram em uma faixa de negociação, e há espaço para os rendimentos caírem, se os investidores buscarem proteção. No fim, os yields serão guiados pelo Fed e pela economia. Essa operação não muda os fundamentos dos EUA.”

Frank Monkam, chefe de estratégia e trading macro cross asset na Buffalo Bayou Commodities
“Esse ataque ao Irã no fim de semana é quase um catalisador perfeito para uma liquidação em um mercado de ações já frágil, e a recente alta na volatilidade tende a se estender no curto prazo. Dito isso, episódios geopolíticos costumam gerar quedas temporárias, não necessariamente mercados baixistas prolongados; espero que as ações se estabilizem quando os desdobramentos forem totalmente digeridos.

No quadro maior, a questão macro é o impacto de um choque de petróleo numa economia que já dá sinais de ‘estagflação light’. Por isso, espero que a volatilidade de política volte ao centro do debate nas próximas semanas e meses.”

Rajeev de Mello, gestor global macro na Gama Asset Management
“Uma escalada prolongada entre EUA e Irã chegaria aos emergentes, antes de tudo, pelo canal do petróleo. A maioria das grandes economias emergentes é importadora líquida de óleo, e energia pesa tanto na conta de importações quanto nas cestas de inflação. Petróleo mais caro amplia déficits em conta corrente, comprime renda real e força bancos centrais a escolher entre sustentar crescimento e ancorar expectativas de inflação. Isso é ainda mais relevante porque ativos de risco de emergentes tiveram desempenho forte recentemente: posicionamento e sentimento melhoraram, deixando menos margem para um choque adverso de termos de troca.”

Joe Gilbert, gestor na Integrity Asset Management
“Ações de energia e metais devem liderar, assim como imobiliário e utilities — os grupos defensivos clássicos. Ações de defesa também tendem a ganhar, pela maior demanda por seus produtos. Já consumo discricionário deve perder, porque petróleo mais caro prejudica companhias aéreas e varejistas.”

Stephan Kemper, estrategista-chefe de investimentos no BNP Paribas Wealth Management
“Espero que as bolsas negociem substancialmente mais baixas, porque isso deve piorar o sentimento. O principal risco de baixa vem do petróleo. Se o petróleo ficar elevado por um período prolongado, pode afetar perspectivas de crescimento e inflação e, no fim, dificultar cortes de juros pelo Fed. Isso pode atrapalhar o rali recente em ações cíclicas. Se o impacto no petróleo for limitado, eu veria uma queda maior como oportunidade de compra de longo prazo.”

Madison Faller (estrategista global) e Erik Wytenus (chefe de estratégia EMEA), do JPMorgan Private Bank
“Para investidores, os efeitos em cadeia podem se espalhar pela economia global e pelo sistema financeiro. Energia é central nesses riscos, com o Oriente Médio sendo um hub crítico de fluxos globais de petróleo e gás. Mesmo a possibilidade de interrupção pode rapidamente afetar custos de produção, preços ao consumidor, expectativas de política monetária, sentimento de mercado e o panorama de crescimento e inflação.”

“Nosso cenário construtivo para o ano permanece, mas esses eventos reforçam a realidade de uma ordem global em fragmentação. Mais do que nunca, portfólios devem ser construídos para resiliência — com ouro e exposição a setores que governos consideram estrategicamente vitais.”

Maxence Visseau, diretor de research da Arkevium, baseado em Dubai
“Eu esperaria yields caindo de 5 a 10 pontos-base, no mínimo, no movimento inicial”, disse, referindo-se aos Treasuries. “Mas a complicação é o petróleo. Se o crude disparar para US$ 80 a US$ 90 com qualquer interrupção em Hormuz, a ponta longa fica em uma disputa entre demanda por porto seguro e reprecificação das expectativas de inflação.

Você pode ver a curva inclinando agressivamente, à medida que o mercado começa a tirar do preço cortes de juros do Fed e os breakevens se alargam. O Fed já está travado em 3,5%–3,75% com inflação perto de 3% — um choque de energia torna o trabalho significativamente mais difícil e pode forçar um viés mais hawkish.”