O Federal Reserve (Fed) seguiu o roteiro amplamente esperado: manteve os juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. Mas parte dos integrantes do banco central americano já passou a sinalizar que a pausa nos cortes pode durar até o próximo ano.

Manter os juros altos por mais tempo se consolidou como a comunicação padrão do Fed. Isso em um momento no qual as águas inflacionárias começam a dar mostras de novas turbulências pela frente.

O comunicado da decisão mencionou, por exemplo, as incertezas trazidas pelo conflito no Irã: “as implicações do desenvolvimento no Oriente Médio para a economia americana são incertos”, pontuou o documento.

O cenário no qual as taxas continuam elevadas nos EUA reduz o espaço para os cortes de juros no Brasil. Se o choque do petróleo perdurar, a tendência é de o BC brasileiro realizar menos reduções e de menor magnitude.

Em um cenário de um Copom mais duro, a renda fixa vai manter a atratividade sobre outras classes de ativos. A própria volatilidade dos títulos públicos prefixados e atrelados à inflação (IPCA+) pode estimular os investidores a segurar a maior parte dos recursos aplicados em títulos atrelados à Selic ou ao CDI, que segue a taxa básica de perto.

A possibilidade de uma aceleração inflacionária global devido às altas de preços do petróleo, dos combustíveis e de commodities afetadas pelo bloqueio do estreito de Ormuz, no Irã, já deu mostras de como pode influenciar o cenário de juros no Brasil.

No início da semana, o aumento da volatilidade na marcação a mercado da renda fixa prefixada e da atrelada à inflação levou o Tesouro Nacional a realizar a maior intervenção da história. Foram quase R$ 50 bilhões em recompras desses papéis em apenas três dias.

Tudo para injetar liquidez e estabilizar o mercado. O que ocorreu na sexta-feira (13) e se estendeu ao início da semana foi um início de pânico em meio às preocupações de um choque de preços motivado pelo petróleo acima de US$ 100 o barril.

“Todo mundo quis sair ao mesmo tempo por causa da guerra e isso causou um grande estresse”, afirmou o sócio e gestor da Verde Asset, Luiz Paulo Parreiras, durante evento da Nomad na última terça-feira (17).

Fluxo estrangeiro ao Brasil deve continuar

Por outro lado, se não houver uma piora tão grande do cenário que leve os BCs globais a ter de elevar os juros, a postura atual do Fed muda pouco o principal fator que tem levado o Ibovespa a quebrar recordes seguidos e a manter o câmbio menos volátil, ou seja, a diversificação para fora dos EUA.

Nesse cenário, o fluxo de investimentos estrangeiros deve se manter, pelo menos, ao longo do ano. Além do valor atrativo dos ativos brasileiros comparados aos mercados internacionais, a própria piora do momento geopolítico tem ajudado a manter a disposição do dinheiro de fora de continuar a fluir para a América Latina.

“A América Latina é o único lugar do mundo que não vai ter guerra. A região se sobressai nesse cenário geopolítico (atual)”, avaliou o diretor de investimentos da WHG, Andrew Reider. “A eleição no Brasil virou até um negócio secundário para os estrangeiros.”

Tanto que após a decisão do Fed, às 15h, o Ibovespa se manteve em alta de 0,31% aos 180.976 pontos. O dólar sobe 0,33% ante o real cotado a R$ 5,2102.

Projeções do Fed mantêm um corte em 2026

O relatório de projeções econômicas, conhecido como “dot plot”, mostra que um número crescente de integrantes da autoridade enxergam a possibilidade de o BC dos EUA retomar os cortes só no ano que vem.

A mediana das projeções para as taxas se manteve inalterada em relação ao sumário anterior, de dezembro, o que, potencialmente, ainda coloca um corte de juros no horizonte de 2026.

No entanto, a visão da maioria do BC dos EUA começa a convergir para uma postura mais conservadora.

Dos 19 integrantes do Fed, sete colocam na conta só mais uma diminuição na taxa neste ano. Enquanto outros sete já não veem espaço para um novo corte.

Para 2027, a mediana mantém para a possibilidade de dois cortes de 0,25 ponto percentual cada.