Grandes petroleiras e tradings globais de commodities agrícolas correram para o mercado de etanol no Brasil há mais de uma década, em uma série de aquisições. Agora, o mais emblemático desses acordos está sendo enfraquecido em meio à queda do entusiasmo pelo setor.

Outrora o principal fornecedor de biocombustíveis do país, a Raízen — joint venture entre Shell e Cosan — enfrentou uma crise de crédito que culminou na semana passada em um acordo para reestruturar uma dívida de cerca de R$ 65 bilhões. Isso deve mudar a natureza da parceria entre a gigante do petróleo e o grupo brasileiro conhecido por sua expertise agrícola.

A Cosan deixou as negociações sobre um aporte de capital e pode ver sua participação na Raízen ser diluída após divergências sobre uma proposta de separar o negócio de distribuição de combustíveis da unidade que produz etanol.

Fim de uma era

O Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e as consequências envolvendo o mais conhecido player de biocombustíveis do país marcam o fim de uma era de fortes investimentos no combustível de cana-de-açúcar, antes dominante. Também evidenciam como as expectativas das empresas de obter lucros com o movimento global de redução de emissões no transporte não se concretizaram tão rapidamente quanto se previa.

“Havia uma visão de um mundo em que as energias renováveis cresceriam mais rapidamente e ocupariam um espaço maior”, disse Ana Bastos, assessora sênior da consultoria J.Pacta, que trabalhou por 10 anos como executiva no braço brasileiro de biocombustíveis da BP. “Acabou levando mais tempo, e crescendo menos.”

Alguns dos problemas da Raízen são específicos da empresa. A joint venture, formada em 2011, fez um grande compromisso de expansão, incluindo novas tecnologias para produzir etanol a partir de resíduos da cana-de-açúcar. O custo dessas apostas aumentou posteriormente, com as elevadas taxas de juros no Brasil contribuindo para elevar o endividamento da companhia. A empresa afirmou em um processo judicial na semana passada que houve um “descompasso temporal” entre o crescimento das despesas financeiras e a geração de receitas adicionais a partir dos novos investimentos.

Para além da questão tecnológica específicos da Raízen, há desafios comuns a toda a indústria de etanol. A produção crescente de etanol mais barato a partir do milho no Brasil está impondo um teto aos preços no mercado doméstico, enquanto as exportações não têm sido suficientes para absorver o excesso de oferta.

Essas desvantagens afastaram outros investidores, especialmente tradings agrícolas. A Louis Dreyfus vendeu sua unidade de açúcar Biosev para a Raízen em 2021 e, três anos depois, a Bunge Global SA saiu de uma joint venture de etanol no Brasil com a BP. Agora, surgem questionamentos sobre qual será o futuro das apostas das grandes petroleiras nesse segmento.

“Não acredito que as grandes petroleiras estejam interessadas em mais renováveis em seus portfólios”, disse Marcelo De Assis, consultor independente de petróleo baseado no Rio de Janeiro, que anteriormente supervisionou o departamento de economia da Shell no Brasil.

Na última década, as exportações de etanol nunca representaram mais de 10% da produção brasileira, e essa participação tem diminuído nos últimos anos, apesar dos esforços contínuos da indústria para promover o etanol no exterior.

Por um lado, países europeus buscaram formas de restringir combustíveis baseados em culturas agrícolas devido a preocupações de que poderiam impactar a produção de alimentos. Mais recentemente, tarifas dos Estados Unidos prejudicaram as exportações brasileiras, enquanto novas regras sob o presidente Donald Trump desencorajaram a produção de biocombustíveis feitos com matérias-primas fora da América do Norte.

Mercados potenciais como Índia e Indonésia também apresentam obstáculos devido à forte concorrência doméstica. Ambos são grandes produtores agrícolas, onde programas de biocombustíveis são vistos como uma fonte adicional de renda para agricultores locais.

A guerra no Irã pode aumentar a demanda por biocombustíveis. Ainda assim, no Brasil o etanol compete nas bombas com a gasolina, e a estatal Petrobras tem evitado elevar os preços da gasolina no varejo no Brasil. A maior parte dos carros “flex” do país pode rodar com gasolina ou biocombustível, e as vendas de etanol podem ser prejudicadas pelo descompasso entre a alta dos preços globais do petróleo e os baixos preços locais da gasolina.

“O setor está posicionado para crescer, mas nada parecido com o que vimos no passado”, disse Thiago Sinzato, analista sênior de bioenergia da Rystad Energy.

Em outra reviravolta, os mercados locais de combustíveis no Brasil foram surpreendidos por uma decisão no fim do ano passado da principal distribuidora do país, Vibra Energia SA, de encerrar uma parceria com o grupo sucroenergético Copersucar SA. O movimento da Vibra sinalizou mais um golpe para o etanol de cana-de-açúcar, já que a empresa afirmou buscar ampliar o fornecimento de outro tipo de biocombustível feito a partir do milho.

“A joint venture perdeu parte de seu sentido quando o etanol de milho ganhou destaque e cresceu muito rapidamente”, disse o CEO da Vibra, Ernesto Pousada, a investidores em dezembro.

O combustível à base de milho está conquistando uma fatia maior do mercado brasileiro, ocupando um espaço anteriormente dominado pela Raízen. Na safra atual, até 28% do etanol brasileiro virá do cereal, ante 21% no ano anterior, segundo a agência nacional de abastecimento Conab.

Trata-se de um mercado muito diferente daquele que inspirou a criação da Raízen em 2011. Neste ano, espera-se que o etanol de cana e o de milho concorram de forma ainda mais acirrada do que nas safras anteriores, com usinas direcionando mais matéria-prima para biocombustível em vez de açúcar, à medida que os preços do adoçante recuam.

“Em 2026, pela primeira vez veremos competição e conflito entre os dois tipos de etanol”, disse Martinho Ono, presidente da trading de etanol SCA Brasil, em São Paulo. “Teremos mais etanol de cana, e o milho também está em ascensão.”

@investnewsbr

Uma das maiores produtoras de álcool e açúcar do Brasil, a Raízen acaba de entrar em recuperação extrajudicial para tentar organizar uma dívida de quase R$ 70 bilhões. Entenda como tudo começou e quais os próximos passos da companhia para sair da crise. #energia #raizen #negócios

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