O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que deixará o cargo nesta quinta-feira (19), antes do prazo de abril para que autoridades se desincompatibilizem a fim de disputar cargos eletivos.

Ele deve anunciar ainda hoje sua candidatura ao governo de São Paulo, preparando uma disputa de alto perfil em um estado crucial para as chances de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Haddad, que comanda a pasta desde o retorno de Lula à Presidência em 2023, já havia indicado anteriormente que deixaria o cargo no início deste ano.

A movimentação coloca Haddad novamente frente a frente com o governador Tarcísio de Freitas, que agora deve buscar a reeleição após meses de especulação de que poderia disputar a Presidência. Tarcísio entra como favorito após vitória folgada há quatro anos, embora Haddad deva tentar ajudar Lula a manter uma disputa apertada no estado mais populoso do país — como fez na vitória apertada do presidente em 2022 sobre Jair Bolsonaro.

Lula afirmou que o atual secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, assumirá o ministério. A mudança faz parte de uma reorganização da equipe econômica, já que a ministra do Planejamento, Simone Tebet, também se prepara para deixar o cargo e disputar as eleições.

Herdeiro político

A saída de Haddad encerra um período em que ele liderou esforços para melhorar o quadro fiscal do Brasil após anos de gastos elevados durante a pandemia. A tarefa exigiu equilíbrio entre um presidente disposto a estimular o crescimento e investidores que cobram austeridade.

Haddad deixa o cargo sem entregar plenamente o ajuste fiscal desejado pelo mercado. Apesar de metas ambiciosas, a dívida pública continua em alta e as regras fiscais criadas por ele começam a mostrar sinais de fragilidade.

O ministério projeta um superávit primário modesto em 2026, mas analistas consideram a meta pouco realista. Investidores apontam que, ao incluir bilhões de reais em despesas fora das regras fiscais, o resultado seria deficitário.

Ainda assim, o arquiteto da estratégia de Lula para financiar programas sociais e projetos de desenvolvimento por meio da taxação dos mais ricos acumula conquistas relevantes. Ele conseguiu aprovar uma ampla reforma tributária, elevar a arrecadação a níveis recordes e aumentar impostos sobre ricos, bancos e empresas de apostas, ajudando a financiar políticas voltadas à população de menor renda.

Considerado há anos o principal herdeiro político de Lula, Haddad deve seguir com protagonismo na política brasileira — seja como ministro em um eventual novo governo ou até em uma futura candidatura presidencial, quando seu mentor, hoje com 80 anos, deixar a cena política.

“Haddad sai maior do que entrou no Ministério da Fazenda”, disse Thomas Traumann, consultor político no Rio de Janeiro. “Ele se consolida como herdeiro político do presidente.”

Desafios fiscais

Inicialmente, Haddad resistiu à ideia de disputar eleições neste ano, preferindo atuar na construção da estratégia econômica e da campanha de Lula. Mas o presidente acabou convencendo-o a entrar na disputa.

Ex-prefeito de São Paulo, Haddad é um dos aliados mais próximos de Lula desde que o presidente foi condenado por corrupção em 2017 e posteriormente preso. Impedido de disputar a eleição de 2018, Lula indicou Haddad como candidato.

A escolha de Haddad para o Ministério da Fazenda após a vitória de 2022 gerou desconfiança inicial no mercado, que esperava um nome mais alinhado a políticas pró-mercado. No entanto, ele conquistou parte dos críticos ao propor um novo arcabouço fiscal e medidas de contenção de gastos.

“Ele acabou sendo uma surpresa”, disse Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro. “O mercado pode aplaudir a reforma tributária. E ele acertou ao dizer que, para aumentar gastos, é preciso encontrar receitas.”

Apesar disso, suas iniciativas fiscais frequentemente o colocaram em posição delicada tanto com Lula quanto com aliados, que temiam impacto negativo sobre a economia.

No fim de 2024, Lula vinculou uma proposta de isenção de imposto de renda a um plano de corte de gastos, o que agravou a desvalorização do real frente ao dólar. Ao mesmo tempo, a estratégia de Haddad de reduzir o déficit principalmente via aumento de receitas gerou críticas do mercado e dúvidas sobre a viabilidade das metas fiscais.