A guerra no Irã chega em um momento em que governos ao redor do mundo estão mais endividados e com menos espaço em seus orçamentos para reagir a choques de energia. Para Roberto Campos Neto, ex‑presidente do Banco Central e hoje economista‑chefe e vice‑chairman do Nubank, o quadro dificulta a adoção de respostas anticíclicas vistas em crises anteriores – como desonerações de combustíveis e subsídios amplos – e aumenta a probabilidade de juros mais altos por mais tempo.
No quinto episódio do videocast Perspectivas, parceria entre o InvestNews e o Nubank, Campos Neto lembra que o conflito se soma a uma sequência de crises geopolíticas e a um processo de reconstrução das cadeias globais de produção. “Um choque de energia é um dos cenários mais indesejados para a política econômica porque diminui o crescimento e eleva a inflação ao mesmo tempo. É a coisa mais indesejada possível para um governo”, diz.
No Brasil, o impacto tende a aparecer com mais força na cadeia agrícola – via encarecimento de fertilizantes – e na logística, a depender de como se comportam os preços de diesel e gasolina. Esse quadro se soma a um mundo que hoje cresce em torno de 3% ao ano e carrega um aumento de gastos gerado pela pandemia que ainda não foi revertido.
“Há mais incertezas para o mundo de investimento [e a guerra] com certeza influencia esse cenário”, diz o vice-chairman e economista-chefe do Nubank.
Mercado de investimentos em evolução
No videocast, além de tratar dos impactos da guerra no cenário macro global, Campos Neto fez uma análise da evolução do mercado de investimentos brasileiro, que teve a caderneta de poupança como principal produto de aplicação dos brasileiros por décadas.
Nos últimos dois anos, a poupança perdeu espaço para os CDBs (Certificados de Depósito Bancário). Ao fim de 2025, os brasileiros tinham investidos na poupança R$ 1 trilhão e em CDBs, R$ 1,2 trilhão, segundo dados do Banco Central.
Para Campos Neto, a abertura bancária permitiu que bancos menores também passassem a emitir CDB, aumentando a concorrência. Segundo ele, com mais players disputando o investidor, houve uma convergência de taxas e a democratização do acesso a esse tipo de aplicação.
E a concorrência em produtos não veio só com o CDB. Quando o Nubank lançou sua conta, em 2017, pagava 100% do CDI sobre todo o dinheiro depositado, algo incomum à época. Hoje, essa rentabilidade pode ser obtida nas Caixinhas. Nos últimos anos, o investidor brasileiro passou a ter acesso produtos simples, com liquidez e rendimento atrelado ao CDI, e isso fez com que a poupança ficasse menos atrativa.
As plataformas digitais foram decisivas nesse processo. Primeiro, deram acesso ao mundo dos investimentos para mais gente. Depois, simplificaram produtos, que hoje podem ser contratados diretamente pelo celular, sem agência nem gerente. E, por fim, aumentaram as informações disponíveis para a tomada de decisão, tendência que tende a se intensificar com o Open Finance, ao criar uma competição em tempo real por produtos de investimento.
Transparência e eliminação de conflitos
O ex-presidente do BC ressalta que o avanço de novos produtos de crédito e investimento também eleva a responsabilidade de quem distribui esses instrumentos. “Hoje existe uma preocupação com a garantia do CDB, [a cobertura] do FGC. A gente vai ter que reavaliar o que é o FGC, como é que vai ser o FGC, como é que a gente tem um incentivo que seja correto para o emissor, para o distribuidor e para o comprador”, diz Campos Neto.
Outro ponto que merece atenção, segundo o executivo do Nubank, é o caso de empresas que originam crédito e distribuem toda a carteira na própria plataforma, modelo que pode gerar conflitos de interesse se não houver transparência e governança adequadas para o investidor pessoa física.
Para ele, as plataformas têm um papel importante de educação financeira, ajudando o cliente a entender o que está comprando, os riscos envolvidos, a liquidez de cada produto e seu lugar dentro da carteira. A tendência é que esse trabalho ganhe escala com o uso de inteligência artificial para acompanhar investimentos no pós‑venda, medir rentabilidade média por cliente e sinalizar escolhas desalinhadas ao perfil de risco.
O Nubank, diz Campos Neto, já está trabalhando na versão do IA Private Banker, com recomendação de investimentos alinhada ao perfil do investidor e que elimina conflitos.
No mercado financeiro, a inteligência artificial está avançando tanto em advisory – recomendações tributárias e de investimento – quanto em uma fronteira mais sensível de execução automática, em que agentes poderiam controlar contas, pagar despesas e realizar aplicações em nome do cliente, e não apenas sugerir caminhos. Esse caminho ainda depende de regulação.
Veja outros temas tratados por Campos Neto na entrevista ao InvestNews:
- A poupança como “Robin Hood às avessas” e o desafio do crédito imobiliário
- Novos produtos de investimento: para as empresas, opção de captação; para o investidor, atenção ao risco do crédito privado
- Títulos isentos: quantidade pode estar criando incentivo adverso
- Inteligência artificial e a disrupção das empresas de software
- A operação do Nubank nos EUA
- Por que ele não indica mais que seus filhos estudem Tecnologia ou Engenharia
A entrevista completa de Roberto Campos Neto está disponível no canal do InvestNews no YouTube e no Spotify.