Mas essa comparação ignora um ponto central: quando a escolha é bem-feita, a combinação de dividendos com valorização das ações faz o jogo mudar.
No quarto episódio da série Estratégias para Viver de Renda do InvestNews, já disponível no YouTube, o foco do editor-executivo Alexandre Versignassi é contar como criar uma carteira de renda passiva com ações que pagam dividendos.
A série de oito episódios, com patrocínio exclusivo do Nubank, apresenta aos investidores as principais formas de obter renda passiva de um jeito descomplicado e sem promessas milagrosas. Você pode assistir aos primeiros vídeos aqui e se inscrever para receber acesso aos próximos em primeira mão:
Uma combinação para viver de renda
Nada como um exemplo para mostrar o que é importante analisar para escolher uma ação. Vamos ao caso de Cemig.
A distribuidora de energia de Minas Gerais (Cemig) é conhecida pelos (bons) dividendos. Quem comprou CMIG4 em janeiro de 2016, quando o papel custava R$ 2,80, recebeu dividendos de cerca de R$ 7,15 por ação nos dez anos seguintes, até março de 2026.
Em termos práticos, um investimento de R$ 10 mil em ações da Cemig teria gerado cerca de R$ 25 mil apenas em dividendos nesse período. São 13% anuais – ou R$ 1.300 por ano – só com dividendos.
Em comparação, a taxa média do CDI (indexador de referência da renda fixa) entre 2016 e 2026 foi de 9,4% ao ano. Significa dizer que só os dividendos da Cemig foram equivalentes a 140% do CDI no período.
Só que tem mais. Porque a ação valorizou. Se ela tivesse subido 66%, pagaria a inflação dos últimos 10 anos. Você teria recebido uma renda robusta, em termos percentuais, e o poder de compra lá do principal, do que você colocou, estaria mantido.
Um dos pilares da ideia de investir em dividendos é justamente isso. Você espera que a valorização do papel pague pelo menos a inflação. Por isso que aquela média de 5% em dividendos não é ruim. Dando tudo certo, o rendimento total pode ficar em IPCA+5%, que é uma rentabilidade boa para o longo prazo.
Só que o papel do nosso exemplo aqui subiu bem mais do que a inflação. Foi uma alta de 317% em 10 anos. Isso sozinho significa IPCA+9,5%, ao ano, só no valor da ação – sem contar os dividendos.
Somando as duas coisas, ou seja, a alta do papel mais o dividendo, os R$ 10 mil do investimento original se transformaram em R$ 66 mil. Isso é o equivalente a IPCA+14%, ou 220% do CDI. Anos-luz além da renda fixa.
Nem sempre as coisas dão tão certo, claro. A empresa de telecomunicações Oi, por exemplo, já foi uma grande pagadora de dividendos. Mas quem investiu R$ 10 mil reais nas ações da empresa em 2016 hoje tem R$ 10. E não ganhou dividendo algum.
“Estamos lidando com ações: não há garantia de valorização e os dividendos dependem do lucro da empresa, mas há um potencial de ganho que a renda fixa não oferece”, diz Patrícia Whitaker, diretora de investimentos do Nubank.
Pagar dividendos ou crescer?
O objetivo de uma empresa com ações na bolsa é gerar e distribuir lucro aos acionistas. Mas nem todas seguem esse modelo a ferro e fogo. Algumas optam por reinvestir o lucro na própria operação. “Se a empresa tem chance de reinvestir com retorno alto, faz mais sentido do que distribuir dividendos”, diz Carlos Heitor Campani, sócio da consultoria CHC Finance.
Nesse cenário, o retorno para o investidor vem menos dos dividendos e mais da valorização da ação. O Google pagou dividendos pela primeira vez só em 2024 – e não foi por falta de lucro. Foi por opção estratégica.
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Até porque pagar dividendos “tira” um pouco de valor das ações num primeiro momento. Antes de “pingar” na conta do investidor, esse dinheiro está no caixa da empresa e é um dos componentes do preço da ação.
O pagamento de dividendos representa uma redistribuição do valor. Por isso, avaliar uma ação apenas pelo nível de dividendos pode levar a conclusões erradas e escolhas ruins.
Dividend yield ajuda, mas não resolve
É aí que entra o dividend yield (DY), indicador que mede o retorno com dividendos em relação ao preço da ação. “Empresas com dividend yield acima de 10% ao ano são consideradas boas pagadoras”, diz o planejador financeiro Carlos Castro.
É o caso da própria Cemig. Comparando os dividendos que ela pagou nos últimos 12 meses com o preço da ação em março de 2026, quando o levantamento para esta reportagem foi feito, o retorno dá 10%. Assim se faz a conta do dividend yield.
Outras empresas conhecidas também têm yields elevados. Os de CPFL e Taesa, por exemplo, ambas também do setor elétrico, estão na casa de 8% em 12 meses; o da BB Seguridade, em 13%.
Mas o indicador não diz tudo.
O dividend yield da Petrobras, por exemplo, era de 6% em março, abaixo de Cemig, CPFL, Taesa ou BB Seguridade. Mas isso porque a ação subiu mais de 50% em três meses, diluindo o peso dos dividendos.
Por outro lado, quem entrou na Petrobras em 2023 pagou R$ 25 por ação, metade do que ela custa hoje. Nos últimos 12 meses, o papel distribuiu dividendos de R$ 3, o que dá um retorno de 12% em cima do valor de 2023.
O problema é que o dividend yield pode “camuflar” empresas com resultados ruins. É um cenário em que o indicador sobe porque o preço da ação está caindo. Voltando ao caso da Oi. Em 2012, seu dividend yield era de 17%. Em 2013, de 23%. Os números chamam atenção, mas pelos motivos errados.
Na empresa, a alta do indicador estava ligada à desvalorização das ações, em meio à deterioração financeira – ela deixou de pagar dividendos em 2013 e entrou em recuperação judicial em 2016, com uma dívida de R$ 65 bilhões.
“O mais importante é selecionar boas empresas, que geram lucros consistentes, aumentam dividendos de forma sustentável e oferecem valorização estrutural no longo prazo”, diz Patrícia Whitaker, do Nubank.
As aristocratas dos dividendos
Mas como encontrar empresas que combinem todos esses predicados? Não há respostas prontas, mas há referências.
Um exemplo é o índice de ações S&P Dividend Aristocrats Brasil, compilado pela agência de classificação de risco S&P. Para integrar a carteira, uma empresa precisa ter mantido dividendos estáveis ou crescentes nos últimos cinco anos.
Nesse índice, há forte presença do setor elétrico, especialmente companhias de transmissão e distribuição de energia, que costumam ter contratos de longo prazo, receita previsível e menor necessidade de investimentos – o que favorece a geração de caixa e a distribuição de dividendos.
É o caso de Energisa, Engie, Cemig, Taesa – e também de Copel, distribuidora de energia do Paraná, que rendeu nada menos que 1.160% considerando valorização das ações e dividendos nos últimos dez anos. É o equivalente a cerca de 300% do CDI.
Grandes petroleiras também se destacam. Apesar dos investimentos elevados em expansão, a forte geração de caixa sustenta a distribuição de dividendos por elas. No Brasil, a Petrobras integra a carteira. Nos últimos dez anos, o retorno total da estatal foi de 1.170%, ou 301% do CDI.
Mas, como se diz por aí, rentabilidade passada não é garantia de retorno futuro.
Reinvestir (e diversificar) é preciso
Para quem quer viver de renda, reinvestir os dividendos recebidos – em vez de gastá-los – cria um efeito multiplicador importante para aumentar o patrimônio.
Veja o exemplo da BB Seguridade. Somando a valorização do papel e os dividendos nos últimos dez anos, a ação teve um ganho acumulado de 166%. Mas essa conta considera que os proventos caíram na conta e acabaram sendo gastos – e não reinvestidos.
Se em vez de gastar, o investidor usasse cada pagamento de dividendos para comprar novas ações de BB Seguridade, o ganho total subiria para 264% em dez anos. Sairia de 107% do CDI para 143% do CDI.
Na mesma base de comparação, o retorno das ações da Cemig com reinvestimento sobe de 220% para 270% do CDI. O da Copel vai de 300% para 370% do CDI; da Petrobras, de 301% para 400% do CDI.
Esses são os exemplos vitoriosos. Mas como o caso da Oi demonstra, nem sempre é assim. Investir em ações envolve riscos: se a empresa tiver problemas, o impacto na carteira do investidor é direto.
O caminho para mitigar riscos é diversificar. “Uma boa carteira combina empresas com diferentes características, tanto as que distribuem dividendos quanto as que reinvestem para crescer”, diz Castro.
Os ETFs de dividendos são uma forma de diversificar e serão o tema do próximo episódio da série Estratégias para Viver de Renda. Acompanhe no YouTube e no site do InvestNews.