“Ainda vejo o BC fazendo vários cortes pela frente.” Na visão do especialista, por outro lado, a autoridade monetária começou a ajustar seu plano de voo inicial para um ciclo de cortes mais curto, diante dos efeitos da guerra no Oriente Médio, que acaba de completar dois meses.
O BC cortou a Selic em 0,25 ponto percentual na quarta-feira (29), para 14,50% ao ano, em decisão unânime. Foi a segunda redução seguida.
Kanczuk acredita, porém, que o Copom vai continuar a cortar os juros até atingir o nível que avaliar como adequado para o cenário atual, sem pausa, mesmo se o conflito perdurar pelos próximos meses. “O BC parece ter sugerido que, em vez de parar de cortar, vai ajustar o tamanho do ciclo.”
A projeção do ASA, empresa de investimentos de Alberto Safra, é a de uma Selic em 13,50% ao ano no fim de 2026. Isso significa que o Copom poderia manter as reduções de juros em um ritmo de 0,25 ponto percentual em todas as próximas reuniões até dezembro.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
O Banco Central pode ter de pausar a queda de juros prematuramente, se o conflito no Oriente Médio persistir por mais tempo?
Todo mundo sabia que haveria um corte de 0,25 ponto percentual. Mas tem informações ali no comunicado que chamam a atenção. Uma foi a adição da palavra “extensão”. Em vez de só citar o “ritmo” [do ciclo de cortes de juros], o Copom falou que, dependendo da situação, vai ajustar o ritmo e, agora, a extensão.
A minha interpretação é em linha com o que o [diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do BC] Paulo Picchetti falou em Washington quando perguntado sobre o que poderia acontecer com a política monetária se o petróleo subir ainda mais. Ele sugeriu que, em vez de parar de cortar o juros, o BC poderia ajustar o tamanho do ciclo. E a comunicação da decisão do Copom foi em linha com esse comentário.
Para mim pareceu como se ele dissesse que “a gente continua cortando mesmo com a situação do jeito que está e o que podemos fazer é cortar menos e encerrar o ciclo antes”.
O BC tem sido claro em sua visão de que os juros estão muito altos e dá para cortar: “Tem guerra, mas o nível está tão alto que é possível cortar. E se o cenário ficar muito ruim só não vou poder cortar tanto”. Por isso, acho que tem vários cortes pela frente.
Foi assim que interpretei essa adição do termo “extensão” no comunicado do Copom. Ou seja, o comitê está dizendo que não vai mudar o ritmo de cortes de 0,25 ponto, mas, se o cenário estiver ruim, vou ter de parar antes. Mas tem um caminho longo até chegar lá.
A elevação das projeções de inflação pode indicar menos espaço para os cortes e, eventualmente, uma mudança de postura na política monetária?
A projeção de inflação do BC chama a atenção. Em geral, essas estimativas são informativas do que a autoridade pretende fazer. A projeção subiu de uma inflação de 3,3% para 3,5% em 2027. E 3,5% não é meta [que é de 3,0% em 2027].
Parece-me que o BC está dizendo que não concorda com os juros do mercado, mas que está confiante de que dá para cortar. E o modelo é menos importante agora.
O Banco Central teve várias fases nas quais sinalizava um número, mas fazia outra coisa. Está de novo em uma fase que os números da projeção parecem menos importantes e o importante do que [a sinalização] das palavras. O mais importante parece ser a comunicação de que o juro está muito alto e posso cortar.
Qual o cenário base do ASA para o petróleo, os juros e a inflação?
Como a geopolítica é muito difícil de interpretar, temos usado a curva futura do petróleo para projetar os cenários sobre a guerra. Não é diferente do que o BC faz, porque eles também usam a curva do petróleo.
A curva mostra que o barril deve voltar para um nível em torno de US$ 80 em seis meses a um ano. Isso significa que o mercado enxerga que a guerra não vai se intensificar muito além disso.
Já está tendo efeitos de segunda ordem do choque do petróleo. Estamos vendo as projeções de inflação subir até mesmo para 2028. Então está pegando, sim [na economia]. A expectativa de inflação até 2028 já está desancorada. O próprio BC tem sido vocal e citado isso.
A autoridade se coloca como preocupada, mas também tem indicado que esse processo não é empecilho para continuar a cortar os juros.
No nosso cenário base, vemos a Selic no fim de 2026 em torno de 13,50%. Já o IPCA pode ficar entre 5% a 5,5%.